Textos em Prosa

Érica Antunes

O Refém da Miséria

Apontou o rosto na janela. Uma tarde cinza, mistura do clima e da poluição. No céu, os “rabos de galo” denunciavam a chuva. Os transeuntes apressados. O banco fechando. Os aposentados saindo com seu parco dinheirinho. A entrada na farmácia e o desespero com o preço. A necessidade e o desânimo. Os carros lá de cima mais pareciam formigas. E os donos, os micróbios. Um pássaro sozinho sobrevoa o céu. Pára na sacada do prédio ao lado. O senhor o observa com seus olhos de quem já não vive. Faz lembrar o poema de Drummond. Mas já não há andorinha, só um pássaro. E talvez seja tão infeliz quanto o senhor. A cidade é mesmo grande. Saudade do tempo de menino, do tempo em que não pensava em nada, só em brincar. As bolinhas de gude. A “pelada” no terreiro. O sítio. A roça. A marmita. O bornal e o estilingue. O trabalho duro. A colheita. O guaraná no fim do ano. O pão com mortadela. As galinhas ciscando. A alface fresquinha. A vaca no pasto e o bezerro guloso. O rio. A cachoeira. O frescor do vento batendo na pele molhada. Os terços. Os bailes. Os encontros escondidos. A paixão pela mulher. Parece mentira. Tudo foi ontem. E hoje já faz tempo. A mulher morreu. De câncer. Foi enterrada entre duas palmeiras, as mesmas que um dia provocaram fervor. Eram jovens. Conversavam. O namoro no início. Gravou o próprio nome e o da esposa num coração. E lá ficou. Como tudo passa... ainda ontem estavam aflitos com a falta do dinheiro para as sementes. O custo, o financiamento. A perda pela geada. A mudança e a desilusão com a terra. São Paulo era um novo tempo. Podiam tentar a vida. E chegaram com dois filhos, algumas trouxas de roupa e um “papagaio”. No banco. Estavam devendo. A favela os abrigou. Não tinham geladeira. Nem energia. O esgoto a céu aberto. As crianças barrigudas e esfaimadas. A mulher anêmica. Os dentes caindo. Os anos escoando. A vida se perdendo. “Na roça era melhor”, pensam eles num dia nostálgico. Mas não podiam voltar. Queriam persistir naquele sonho mirabolante de morar na cidade. A filha mais velha engravidou. E caiu na vida. Desgosto. O mais novo saiu de casa. E sumiu por aí. Na certa virou algum ladrãozinho barato. Ou, quem sabe, um traficante. Que peso! Queria voltar ao tempo de menino. Com os seus “papagaios”. De brinquedo, é claro. E as latas inutilizadas presas num barbante, servindo de carrinhos. Mas não. Não tinha direito de ser feliz. Ninguém é. A mulher, coitada, foi cedo. A anemia virou leucemia. Sem dinheiro para o tratamento, foi só um passo e a “Dona Morte” chegou. E sobrou só ele. Que passou a beber. Que saiu pelo mundo. Que dormiu nas calçadas. Que se tornou mais ninguém que ninguém. E aí está, até hoje, louco. Espera algo. Talvez a morte. Num hospital. Inerte. Olhando a vida passar. Olhando o pássaro triste. Quieto em seu canto. Refém da miséria.

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