Textos em Prosa

Érica Antunes

Uma Construção de Cinqüenta Anos

Dizem que cada um tem uma mania. Eu tenho muitas. Uma delas é ficar olhando aqui dessa janela a cidade em pé lá embaixo. E foi assim que vi, logo ali, na rua de trás, aquela construção. Nada de mais, você dirá, é uma construção como outras tantas. Mas nem foi isso que pensei... o que pensei foi que daqui a cinqüenta anos aquela construção não vai mais ser nova. Eu disse cinqüenta? Bem, pra uma construção podemos reduzir drasticamente o tempo.

Mas eu quero cinqüenta, e você fica quieto, porque o texto é meu e escrevo o que quiser. Sim, sim... tudo bem! Você manda também, mas só quando ler... agora estou escrevendo, mude você depois então.

Aí, viu só? Você estragou o meu raciocínio!... Ah, já lembrei! De repente me lembrei daqueles túmulos antigos, daquela paz fininha (sabe o que é paz fininha?) de cemitério, do piado dos pássaros no fim da tarde... e a gente caminhando, caminhando, os eucaliptos sem mexer uma só folha, o barulho dos nossos pés na estradinha de pedras soltas e o palpitar do coração tão contrastante aos leitos do lugar.

Quem disse que não é bom ir ao cemitério? Cemitério é lugar de encontrar a gente na gente mesmo. É lugar de pensar. E eu não esqueço dum tal de “Mosquito”, que dava aula de biologia lá há tempos já... ele falava: “se você vir uma planta nascendo em cima do túmulo da sua avó, pode ir correndo abraçar, é a sua avó que volta em forma de planta!”...

E eu ficava pensando: que teoria essa!? Aí vai que um dia minha avó morre de verdade... e lá estou eu, naquele contraste do sangue e dos vermes (ai, Augusto dos Anjos!), olhando a grama crescida e lembrando da aula. E aí me vem o “Tonim” citando Lavoisier numa aula de química! E aí me vem Hamlet e Shakespeare também. E todos eles dançam à minha volta, marionetes.

Uma construção de cinqüenta anos! O exato tempo daquele túmulo ali... e eis que vejo a exumação. Resta quase nada, alguns ossos escuros, dentes, cabelos, parte da roupa, parte do féretro. E, de repente, me assusto com a vontade danada de levar o crânio pra casa!

Coisa mórbida, eu penso. Então me conformo com um de gesso mesmo, que tem até nome: Teresa. Sim, é um crânio feminino, igual a tantos por aí. Teresa me mostra o que vem pela frente... e não pense que pensar nisso é ruim. É bom. Lembro do que sou... esse nada.

E me vem o dadaísmo... que rejeito e jogo no cesto como quem atira a meia de seda que rasgou no meio da festa. E então divago pelos meandros de mim mesma. E então vejo que o que foi importante ontem, hoje já nem é tanto e amanhã nem será mais. Mamãe já disse que o tempo é o melhor remédio... e eu acredito nela!

Mas também acho cinqüenta anos um pouco cedo demais. Essa construção de paredes tão branquinhas um dia vai estar tão diferente! O telhado remendado, a pintura corroída, o estilo ultrapassado, os moradores... meu Deus, os moradores!

Talvez já sejam o retrato de Teresa, talvez vivam outros cinqüenta anos, talvez nem liguem para isso. O mundo é mesmo cheio de “talvezes”... e eu penso que se tudo fossem certezas nem vontade de viver teria. O que me move é esse porvir, esse vir-a-ser, essa intensa e eterna possibilidade de algo de novo acontecer.

Já imaginou se nascêssemos com nossa sentença de morte prolatada? Imagina se na pulseira identificadora dos bebês viesse escrito: “provável data de falecimento” e um número que seria lembrado a todo o tempo! Imagina se nossas mãos, de fato, denunciassem a nossa vida com inteireza, sem chance de erro!

Bem, nestes casos seríamos forçados a acreditar numa coisa que não sei quem, não sei quando e não sei onde resolveu chamar de “destino”. Mas pensa: seria uma coisa horrível viver. Eu, pelo menos, acho que viveria cada dia numa ânsia sôfrega, como se sentisse o passar dos ventos todos.

Hoje é dia de lembrar de aulas que tive. E agora me surge a Sônia Letícia e seu salto, uma pilha de papéis na mesa em nossa primeira aula: “eu sempre costumo dizer: todos caminhamos para a morte”. Meus olhos se arregalaram... ué, mas aquela mulher saía de casa pra ensinar Direito Administrativo e vinha falando uma coisa assim?

Lembro que anotei essa frase na última folha do caderno e lá ficou até o fim do ano. Vez ou outra eu dava uma passadinha e lembrava do tom da fala daquele momento. Rude ela. Não, rude não, acho que meio desiludida.

Ih, até me perdi no meio de tudo. Espera um pouco, deixa eu remanejar esses pensamentos. Ah, sim, falava da construção. Aos cinqüenta anos o ser humano alcança o seu ápice... ah, quem me dera ter cinqüenta anos hoje!... mas não tem nada não, eu vou construindo e construindo e ainda chego lá, chego sim!

Antes de chegar lá, sei que vou passar por um monte de situações, sei que vou me decepcionar, chorar, rir, sofrer, gostar, detestar, amar, ver, ouvir, sentir... VIVER! E então terei minha construção sólida, perene.

Ou pode ser o revés. Meu telhado pode desabar a qualquer instante. Hoje, agora, daqui a dois segundos... sei lá... só sei que vou, como formigas e sabiás, levando minha folhinha, minha gotinha... meus tijolos!

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