


Imagética Magritteana
Michèle Sato
A cultura talvez seja a chave de compreensão dos dilemas sócio-ambientais, desde que dela emana as escolhas históricas da civilização humana. Sua dinâmica de reproduzir ou produzir novas culturas revela os nossos olhares sobre o mundo e como interagimos com ele. Por meio delas, compreenderemos os fundantes das múltiplas linguagens presentes na educação, nas ciências, nas magias e nas artes, entre tantas expressões, metáforas e símbolos.
Uma imagem é também um convite à filosofia, expressa por outros símbolos, em uma linguagem imaginativa que pode incitar uma única verdade, como na obra de Michelangelo na capela Sistina, evidenciando o forte apelo da criação humana; ou na tela de Vitória Basaia, cujos labirintos se revelam em explosão de sentimentos. Uma imagem é uma viagem em transe, repleta de particularismos que incitam memórias vagas, emoções frágeis ou compreensões cariadas. É como tentar organizar os labirintos da existência remexendo em cartões postais, livros, telas digitais ou simplesmente flutuar na imaginação dando asas à liberdade humana para criar e recriar.
René Magritte não era um mero pintor. Ele filosofava por meio de seus desenhos e pinturas, com motivação das interrogantes da existência do ser humano, sempre na dinâmica dos contrários entre morte e vida; luz e sombra; crença e dúvida. Seus objetos pessoais clamam pelo deslocamento da escala, incitando a dúvida como na tela “túmulo dos lutadores”: seria a rosa grande demais para ser acomodada à sala; ou seria a sala pequena demais para sustentar a rosa? Pintada nos últimos anos de sua vida (1960), a imagem pode refletir a solidão social de Magritte. O título original “túmulo de Wrestlers” foi inspirado no romance simbolista de Leon Cladel, intitulado “Ompdrailles, túmulo dos lutadores” (1879). É provável que a rosa fosse um objeto de fixação de Magritte, desde o momento que pintou uma mulher nua e no lugar do seu coração, colocou uma rosa vermelha.
Com elementos simples do cotidiano, este mestre do surrealismo subvertia a ordem da realidade criando um clima poético de desconforto. Desejando que o mistério persistisse, a imagem se revelava para além da realidade, pois a chave do mistério estaria na imaginação, criação e memória. As linguagens textual e imagética se fundem nas telas de Magritte, numa justaposição de um novo sentido do espírito. Ao exercício da pintura, impunha-se também o exercício do pensamento, como se houvesse uma traição da imagem para que o pensamento sobrevivesse, afinal, o cachimbo ali exposto contradiz a própria frase: “isto não é um cachimbo”.
As linguagens imagéticas tocarão as viagens de ventanias ao sabor do acalento, recuperando a vontade jamais perdida em se lutar, ainda que a vitória possa ser morosa, escondida ou fugidia. E que celebrem as danças ao redor de uma grande árvore, registradas por fotografias em preto e branco, ou ainda reveladas por uma performance corporal com a fogueira no centro. Quiçá as linguagens rompam com as fronteiras, permitindo que som, textos, imagens ou sentimentos se misturem na corajosa ousadia de se viver em luta, sem negligenciar o prazer.
Michèle Sato é professora e pesquisadora em educação ambiental, nos últimos anos buscando a interface da filosofia da arte com o ecologismo, sob as influências do surrealismo.
http://michelesato.deviantart.com/

Le
tombeau des luteurs
(O túmulo dos lutadores) René Magritte

Trahison de image
(traição da imagem) René Magritte
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SAL
Mares
E um barco
de sal (ago07) |
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Sou licenciada em Biologia, com mestrado em Filosofia, doutorado em Ciências e pós-doutorado em Educação. Daí minha dificuldade em efetuar minha trajetória em apenas um campo do saber, desde que o entrelaçamento oferece um mosaico colorido, com fios cintilantes e franjas que se emaranham em labirintos. Sou facilitadora das redes de Educação Ambiental, com diversas experiências nacionais e internacionais. Academicamente, minha atuação tem sido na filosofia da arte, com ênfase na fenomenologia e sociopoética; e nas horas de delírio, arrisco-me à aventura das poesias e haikai. Sou movida pelo surrealismo, em especial meu preferido René Magritte, mas para além da escola da arte, aceito o surrealismo como um movimento social que orienta minhas escolhas e opções de vida.