


Impressões De Uma Viagem
Amazônica
Chico Mendes- 19 Anos Sem Ele
Por Michèle Sato
Uma biblioteca da floresta[1] era a novidade da capital acreana, que logo na entrada revelava as várias faces da atual ministra do Meio Ambiente: Uma Marina Silva guerreira, frente às pessoas que se juntariam com Chico Mendes nos empates pelas terras; uma outra Marina fazendo crochê, sentada delicadamente num banco; uma mulher elegante com vestido preto e adornos discretos; e por fim uma poesia de sua autoria formava um quadro que revelaria muito de minha própria identidade, encarnada no binômio "gueixa-samurai". A arte escultural de Giusileu Silvatori me encantava em sua técnica de colagem, na mistura de multimeios artísticos. Uma figura de madeira me chamava soberba atenção: meio árvore, meio mulher, revelava seus contornos femininos, marcadamente pelos seus pêlos pubianos, uma flora viva de liquens que ainda desvendava a relva úmida. Uma figura mitológica surrealista que provavelmente germinava no meio da floresta amazônica, com enredos entrelaçados entre arte e ambiente; e que dava o colorido daquela biblioteca da florestania, talentosamente dirigida por Edegar de Deus.
Uma suave paraense, Gê, que compreendia os enredos acreanos melhor do que muitos, sabendo falar os nomes das 16 etnias indígenas sem erros, me mostrava os largos e belos painéis da história do Universo, com ênfase na formação da biodiversidade amazônica que desfilava até os restos fósseis. E ali vi um mapa brasileiro com o mar de dentro, expondo também o "mar dos Xaraés mato-grossense". Os últimos painéis eram exuberantemente míticos, na exposição de fósseis e fotografias aéreas de geoglifos encantados[2], formas absolutamente geométricas assinaladas em territórios longínquos, mais tarde narradas em detalhes por Tiago, um talentoso biólogo e advogado, nas bonitas trajetórias de seu pai e sua família. Fátima, Cidinha e demais estagiárias me apresentavam as dependências daquele espaço, com entusiasmo de parecer um centro de Educação Ambiental do Acre.
Três organismos pareciam disputar o nome de Chico Mendes: a Fundação Chico Mendes ligada à Ilzamar, ex-mulher; o Instituto Chico Mendes[3] de Elenira, sua filha; e o Comitê Chico Mendes, formado por amigos de lutas que mantiveram os sonhos e as chamas acesas. Senti-me orgulhosa em ter as representações dos 3 segmentos na platéia durante minha palestra e emocionei-me ao abraçar Elenira, guerreira e descendente legítima do líder dos seringais, que ia me dando provas de seu talento político na doçura de seu sorriso e simpatia. Mulher inteligente, sua família e o Coletivo Jovem do Acre a acompanhavam pelas trilhas dos sonhos. A exposição dos desenhos e pinturas de Wagner San[4] foi emocionante. Com a presença da mídia, personalidades e sonhadores da sociedade acreana, as atividades representavam um acervo documental nobre, entre riqueza ambiental e cultural da Amazônia brasileira. Ver as telas ao vivo, após tanta admiração somente virtual, e apresentá-las na abertura da exposição, trouxe-me um prazer incomensurável de reencantamento do mundo. Wagner realmente trouxe a fortaleza de Chico Mendes na suavidade da maior liderança ecologista, quiçá do mundo.
O carro da biblioteca saia em caravana, pelas músicas belamente selecionadas pelo motorista e entre o rock que ali tocava, as conversas brotavam animadas de seus passageiros. A parada no município de Capixaba gerou-me a dúvida bem-humorada, será que afinal, quem nasce ali seria um "espírito santense"? Uma segunda parada me traria a emoção ritmada no coração, no local do último empate de Chico Mendes com seu assassino Darley, entre Xapuri e Brasiléia. Na casa e na narrativa da família de Chico Mendes, compreendi o significado da palavra "empate", que não se relaciona com o 1x1 do futebol brasileiro, mas que significa "atrapalhar", ou, em pensamento de Paulo Freire, lutar contra a opressão. O empate acreano traz o sentido da resistência, ainda que não se vença, mas pela obstinação da liberdade humana de se fazer escolhas e lutar por elas. Algumas nuvens flutuavam na minha reminiscência, buscando outros empates ecologistas como o contrafórum que originou o Tratado de Educação Ambiental em plena Eco92, içando a bandeira das sociedades sustentáveis contra o desenvolvimento sustentável; ou ainda a greve de fome do Dom Luís contra a transposição do Rio São Francisco. Um empate risonho me trazia Abel Nascimento na memória, uma liderança que deu a "voz de prisão" ao governador de MT, quando este declarava publicamente que, sem conhecer direito a plataforma legislativa, cometeu alguns crimes ambientais no passado.
Chico Mendes antevia o crime e julgava que sua morte seria inútil. Mas não foi em vão, ainda que restasse o amargo na boca de ter sido cedo demais. Mas se algum bom resultado favorável pudesse ser observado, Cachoeira apresentava sua pousada no meio da floresta, no local onde os empates ecoariam pelo mundo inteiro. Olhando o mundo sob a ameaça do aquecimento global, senti que mais empates faziam-se necessários para que a Terra fosse realmente inclusiva do ponto de vista sócio-ambiental. Que luta! Mas quanta esperança aquele local me oferecia...
Dona Cecília, tia de Chico Mendes me ofertava seu café. E ainda que contrariando o meu paladar paulistano, nunca saboreei com tanto afeto o seu café fraco com açúcar. Seus primos, Sebastião, Rizomar e Nilson Mendes me contavam histórias cotidianas do grande guerreiro e arrisquei-me a perguntar se Chico acreditava em assombração. "Conte-me um causo", pedi em meus desejos mitológicos. Certo dia, contava Elenira, Chico e seu primo se perderam nas matas. Como num filme de terror, caminhavam, pegam trilhas, desviavam de troncos, mas sempre retornavam no mesmo local, numa imensa Samaíma regeneradora, a rainha das árvores, que hospedava o cipó da Jibóia. Conta a lenda que o cipó jibóia encanta as pessoas e somente um corte em seu ramo quebraria a feitiçaria. Assim feito, perceberam que a casa estava tão próxima ao local maldito, que nem bruxaria, nem ciência, explicariam tal sonambulismo na floresta.
Nilson tomava a palavra e vangloriava-
Mitos e crenças se emaranham na floresta, entre o daime e outros chás que transcenderam as tribos indígenas e emergiram em labirintos de magias dos povos da floresta. Nilson possui a audição prejudicada por causa de um acidente, e talvez por conta disso, outros sentidos tornam este homem aguçado em tantos outros conhecimentos. Poderia afirmar que este mateiro falador conhece Botânica como nenhum outro doutor, inclusive seus nomes científicos. Distingue espécies de aves por plumagens na cabeça, conhece as autorias das tocas encontradas e descreve as ervas que curam as doenças. Senti-me privilegiada ao visitar um sítio arqueológico de sua descoberta, pois ele me dizia que aquela visão era para poucos, devido ao pedido dos cientistas que querem o local longe de visitação para os estudos antropológicos.
Passeando pelas trilhas, o batuque do meu espírito ressoava em alvoroço. Meu coração testemunharia ali um corte na seringa, na bandeira feita pelo primo de Chico Mendes e que escorria o leite pastoso na seiva bruta da história. Impossível segurar as lágrimas que assistiam o safári amazônico, na companhia de familiares, amigos e sonhadores que tinham Chico como força de luta ecologista. Um farto almoço coletivo na pousada regava o corpo, já que o espírito parecia estar extasiado em viver aquele momento com tamanha intensidade. Senti-me aprendiz frente ao Nilson, um doutor em sabedoria popular e desmoronei-me ao perguntar-lhe o que ele diria ao mundo. Não foram exatamente estas palavras, já que esta pesquisadora estava desprovida de gravadores e era isenta de futuras transcrições, mas que apenas carregava seu caderno de anotações, como um diário de bordo que registra os sonhos do mundo.
"O mundo precisa entender que nós precisamos cuidar dos outros. Ao invés de competir, é melhor viver e lutar em grupo. O ser humano é parte da natureza e não há lugar só para ele. Cada planta e bicho têm nome, família e espírito. O ser humano precisa compreender as diferenças e que cada ser vivo é único. A floresta tem muitas coisas que vocês da ciência não sabem, mas que eu sei. Mas eu não vou contar tudo, porque pra conservar a Amazônia precisamos também preservar seus segredos".
Uma tremenda aula de filosofia encerrava o almoço desta suposta fenomenóloga, que louca pelos mistérios surrealistas, deleitava-se nos encantos da narrativa sobre a natureza, vivendo a práxis mais viva da sabedoria que aprendia em livros. A lição viria materializada por Nilson Mendes, agora não mais somente o primo do Chico Mendes, mas o meu Mestre da Floresta.
O clímax orgíaco viria em Xapuri, a poucos
quilômetros daquele local, como se o "spalla di viola" anunciasse o orgasmo da
orquestra amazônica. Uma placa na entrada da casa fez meus passos erráticos e o
batuque do coração parecia ser audível ao mundo: "Casa do Chico Mendes".
Caminhei demoradamente pelos cantos da casa, reconstituindo cenas nunca vividas,
apenas imaginadas pelas tantas leituras prévias. Os desenhos da mobília se
perdiam na história e minhas lágrimas buscavam alguma resposta para compreender
o havia se passado naquela casa de madeira. Nada consolava o triunfo do crime,
petrificada nas marcas de sangue e nos objetos sobre os miseráveis. Perguntava a
mim mesma se era essencial evocar a reviravolta, na nota dissonante das batidas
cardíacas que dilaceravam a alma, na ruptura da harmonia extorquida, exposta em
sua fragilidade nos restos do caos. A luta deste homem rebelava-se contra a
adaptação passiva de uma institucionalizaçã
A compreensão dos símbolos viria da própria biblioteca de Chico Mendes, numa pequena prateleira alocada na sala, ao lado da TV e do sofá, que sua mulher e filha, Ilzamar e Elenira, assistiam uma novela na hora do crime. Entre bibliografia amazônica e literatura de Euclides da Cunha, Marshall Berman assopraria que "tudo que é sólido desmancha no ar".
"A sociedade burguesa, através de seu insaciável impulso de destruição e desenvolvimento e de sua necessidade de satisfazer às insaciáveis necessidades por ela criadas, produz inevitavelmente idéias e movimentos radicais que almejam destruí-la. Mas sua própria necessidade de desenvolvimento habilita-a a negar suas negações internas: ela se nutre e se revigora daquilo que se opõe, tornando-se mais forte em meio a pressões e crises do que em tempos de paz, transforma inimizade e detratores em aliados involuntários[5]".
Como na derradeira sociedade primitiva da
antropofagia oswaldiana, sua morte talvez representasse a energia das forças
anônimas da exploração, encarnada no delito que se dissipava aos ecologistas do
mundo inteiro. A configuração contemporânea personificaria Chico Mendes contra
os aparelhos das forças de produção, na reinterpretaçã
Novas dúvidas viriam momentos depois, na pousada do simpático antiquário "seu Jão", onde o presidente Lula anunciava a era da TV digital, em retrospectiva da história da TV brasileira entre novelas, artistas, apollo na lua e paisagens brasileiras. O cansaço chegava como feitiço da jibóia, pois a emoção do dia era intensa, desde as trilhas da floresta amazônica à casa de Chico Mendes, que misturava o cansaço físico com a fadiga emocional. Parecia que Mozart embalava com sua sonata e as primeiras imagens do meu cérebro ainda permanecia nos labirintos da casa de Chico Mendes, que aos poucos vazavam pelas janelas e na transcendência de Xapuri, a esperança copulava com um Universo de estrelas. Se o sonho era imanente nas confusões criminosas da União Democrática Ruralista (UDR), Oswald de Andrade acendia a chama do vulcão, e as labaredas enganavam o inconsciente. E ali adormeci, na cadeira de balanço que espreguiçava o direito do descanso.
A menos de 50 metros da casa de Chico Mendes, a delegacia de polícia fora abandonada, já que a justiça parece ser um artigo de luxo neste país chamado Brasil. Somente a coragem e o engenho de jovens rebeldes recriariam aquele lugar, transformando ruínas em potencial de sonhos. Clenio e Wagner San tiveram trabalho em convencer o grupo de jovens de que aquele local abandonado seria um palco ideal à arte de Xapuri, mas o trabalho maior viria depois, na hora da limpeza e na arrumação do local abandonado, que entre entulhos e vestígios de impunidade, ainda oferecia desajustes físicos em pedaços.
Tudo arrumado, afinal, Amarildo anunciava poeticamente o espetáculo da floresta no alto do telhado da delegacia, com os letreiros (não luminosos) atraindo o público: "arte na ruína". Sua voz ecoava, facilitada pela ausência de tetos e telhados, e Cildo cuspia seu desprezo à injustiça em fogo malabarista num circo que mostrava o sol em plena noite. A recepção especial veio pela poética de Clenes, que me convidava à entrada de sua viagem de fantasias.
A primeira sala emanava fitas, panos e tecidos coloridos confundidos nos corpos camaleônicos de 3 dançarinos. Disfarçados de corpos humanos, Cley, Cleu e Gino eram as brisas que se movimentavam ao sabor de notas musicais, ultrapassando barreiras físicas e tornando as paredes apenas uma ilusão, pois suas danças flutuavam no orbe de encantos. E o corpo se prosseguia em outra sala, desta vez numa prisão de grades que escondia Rômulo, mas que barreira nenhuma o privava de sua liberdade. Desenhos, gravuras e quimeras brincavam com as esculturas do San, num contraste da dor e da alegria da performance.
Xapuri mostrava sua cara na voz de Alarisse, como se Cazuza encarnasse a fome pela vida na mágica sinfonia destes jovens talentosos. João Paulo, Jaride e Romário também embalavam o rock and roll dilacerante, como se a sonoridade inquieta pudesse libertar as almas vagantes ao mundo da paz. A tênue linha que segregava solidão e conflitos enroscava na pipa que voava pelos ares no show coletivo daquela arte sensível. E a representação teatral veio por Clenice e seu filho, Leleide, Getúlio, Aito e pelo próprio Clenes. A poesia declamada deitava-se no chão, e ali as estrelas iluminavam aquele palco construído numa delegacia destroçada.
Queria ter chorado em silêncio, apreendendo cada momento como se fosse o último, na sensação vazia de que jamais presenciaria tamanho espetáculo. Mas naquele momento, compreendi que meu silêncio poderia ter interpretação contrária e balbuciei algumas frases, talvez sem nenhuma conexão sensata, mas as únicas possíveis naquele momento. A grandeza do instante veio em forma deste texto num quarto de hotel, quando a memória recusava a esquecer a coragem imaginativa de jovens arguciosos que me mostravam suas feridas, em uma das feridas arquitetônicas da história de Chico Mendes. Imanentes em suas dores, romperam grades, quebraram janelas, voaram céus e transcenderam suas angústias. Se o sonho é algo possível, ele estava ali, excitadamente apresentado naquele instante que vencia cansaços, ruínas e tempos e se consagrava na alegria mais expressiva da raça humana: a arte!
Otoniel me dá esperanças de um novo Brasil
possível, pela sua liderança política no Coletivo Jovem, que trocava narrativas
engraçadas e momentos inesquecíveis num bar em Rio Branco, como um jogo
surrealista onde o importante era trocar versos pela arte da 'com-versa'. E
porque não poderia deixar de ser diferente, esta impressão de viagem devolve a
palavra à Marina Silva, cuja poesia se encontra logo na entrada da biblioteca da
floresta. Explicitando os antagonismos, vai desvelando a esperança e costurando
os territórios vazios em minha identidade transbordante.
Do arco que empurra
a flecha
quero a força que dispara
da flecha que penetra o alvo
quero a mira que o acerta
Do alvo mirado
quero o que se fez desejado
do desejo que busca o alvo
quero o amor por razão
Sendo assim não
terei arma
só assim não faria guerra
e assim daria sentido
meu parar por este dia
Sou o arco, sou a
flecha
sou todo em metades
sou as partes que se mesclam
nos propósitos e nas vontades
Sou o arco por
primeiro
sou a flecha por segundo
sou a flecha por primeiro
sou o arco por segundo
Buscai o melhor de
mim
e terás o melhor de mim
darei o melhor de mim
onde precisar o mundo
ARCO E FLECHA
-- Marina Silva --
Rio Branco, AC - dezembro07.
Michèle Sato
Sou licenciada em Biologia, com mestrado em Filosofia, doutorado em Ciências e pós-doutorado em Educação. Daí minha dificuldade em efetuar minha trajetória em apenas um campo do saber, desde que o entrelaçamento oferece um mosaico colorido, com fios cintilantes e franjas que se emaranham em labirintos. Sou facilitadora das redes de Educação Ambiental, com diversas experiências nacionais e internacionais. Academicamente, minha atuação tem sido na filosofia da arte, com ênfase na fenomenologia e sociopoética; e nas horas de delírio, arrisco-me à aventura das poesias e haikai. Sou movida pelo surrealismo, em especial meu preferido René Magritte, mas para além da escola da arte, aceito o surrealismo como um movimento social que orienta minhas escolhas e opções de vida.
[1]
www.bibliotecadaflo
[3]
www.institutochicom
[4]
www.youtube.
[5] BERMAN, Marshall. Tudo que é sólido desmancha no ar. São Paulo: Companhia de bolso, 1989, p. 25.
Grupo
Pesquisador em Educação Ambiental, GPEA
Universidade Federal de Mato Grosso, UFMT
Av. Fernando Corrêa da Costa, sn
Coxipó, Cuiabá, MT, BRASIL
CEP: 78060-900
Tel. 55-65-3615 8443 Fax: 3615 8440
http://www.ufmt.
Rede
Mato-Grossense de Educação Ambiental - REMTEA
http://www.ufmt.
Associação Internacional de Investigadores em Educação Ambiental - NEREA
http://www.nerea-