


Inferno em minutos
Maria
Lindgren
Casulo ideal para sufocar claustrofóbicos como eu.
Barulho ensurdecedor: pancadas tom-tom-tom, ta-tá-tá, ruídos rom-rom-rom, pausa, tudo de novo ad infinitum azucrinam-me a mente, tornam-me aparvalhada. Quero voltar a pensar. Preciso transformar a zoeira em pensamento criativo ou, pelo menos, dispensar os fragmentos de cenas, que esqueço adiante. Nunca me entrego à "miséria do mundo". Como é, então, que me deixo imbecilizar deste modo, por sensações desconfortáveis?! Estou afinal, entregando os pontos, fraca mulher de muitos quilos?!
Respiro curto, com medo de sentir dor. Conto a respiração até oito, depois mais oito, assim por diante - hábito adquirido em muitas flexões de ginástica ou passos a pé. Por que oito, não sei. Maldito casulo! Não posso mover nadinha: estou amarrada com correias...
Sinto um pé gelado, o direito. Câimbra iminente. Pior é que sei: câimbra só passa com movimento. Paralisada, faço o quê, Santo Deus! Se continua, tenho que gritar. E quem vai me socorrer, encerrada neste caixão metálico cilíndrico?! Desisto de ser múmia conservada através dos séculos, neste preciso instante. Quero mais é ser incinerada morta, se me jurarem que não vou sentir mais nada.
Agora, é o pescoço. Como dói! Puseram-me algo colado à face esquerda: não consigo virar a cabeça nem de leve, e o olho não enviesa tanto assim. Até tento, mas o olhar cai na escuridão.
Os ombros, ah! meus pobres ombros! Não carregam o mundo, como os de Drummond. Limitam-se à carga comum dos seres humanos sofredores: começam a chiar também. Dor chata, do tipo toma uma aspirina e pronto. Comprimido interditado por óbvias razões, há que se agüentar.
Vozes ao longe parecem abreviar o torpor seguinte.. E se forem fantasmas de delírio? Quem me garante existência real, onde o sofrimento impera? A voz de mulher precede a picada na veia: vão me matar, por certo.. Quero defender-me com a sensação de ter ficado alzheimerada de vez. Não dá. Volto ao quase normal da confusão interna.
Lembro-me das torturas mais habituais dos presos políticos, jamais sofridas, bastante temidas. Choque elétrico ou pau-de-arara? Estou mais para o segundo tipo, com as juntas desengonçadas. Logo eu que amo os movimentos de extensão da fisioterapia ou pós-ginástica! Alívio nenhum. Só malestar.
Decido percorrer a abóbada terrestre a meu dispor. Bem merecia a outra, a estrelada. Destinaram-me a de menor valia, que fazer?! Observo cada encaixe: feito a capricho de São José, carpinteiro de Jesus. Nenhum riscado ou rasura.
E o tom-tom, ta-tá, ra-rá prosseguem espalhafatosos, regulares, com a missão de me enlouquecer. Penso no filme da cantora Björk, revisto há dias. Aquele que foi premiado com Oscar. Ou não foi? Talvez eu possa imitar a heroína cega e improvisar um musical em cima do ritmo aterrorizante. Será que me enforcam de castigo? Desisto: não sou talento da música pop, nem de outra qualquer. Minha voz arranhada de há muito não se alceia mais.
Que tal um science-fiction repleto de efeitos especiais? Mas não assisto a Aliens, Senhores dos Anéis e tantos outros. Parei em ET e olhe lá. Portanto, nada de floreios.
O raio da picada da injeção sinistra arde primeiro, depois, coça. Deve ser esparadrapo causador de alergia. Sempre a mesma reação de pele. Será que eu não teria direito àquele hipo-alergênico da moda? De repente, saio do casulo. Põem-me sentada, vapt-vupt, sem apoio. Zonza, corpo suado, doído por inteiro, calço a duras penas as sapatilhas de plástico em estranho fru-fru, receosa de cair. Consigo ouvir em eco:
- Pronto. Acabou o exame. Quando sair, entregue as chaves.
Maria Lindgren
é escritora, ex-coordenadora pedagógica da Secretaria de Estado
de Educação do Rio de Janeiro, ex-professora docente de Português e Inglês do
Município e Estado do Rio de Janeiro, autora do livro Uma Rolha na Lágrima,
publicado em 2003 pela Ed. Mondrian/RJ, coletânea de contos e crônicas;
participação na Antologia Cuento Gotas nº VI, da Editora ABRACE, de Montevidéu, Uruguai, 2006, com dois contos: Um
encontro inusitado (em português) e Alta Fidelidad (em espanhol); colabora com
diversos sites: Cronópios, Jornal´Ecos, Portal Vânia Diniz, como colunista;
Revista Honoris Causa; Garganta da Serpente, Recanto das Letras e PD
Literatura.