O Bazar
Maria Lindgren

O nome da loja não importa. O significado, sim: bazar, sustento de família, por longos anos. E de família exigente! Quem hoje pensa numa loja de-tudo-um-pouco para ter muito lucro, de certo, ouve um expressivo:

- Tá louco! Desde quando quinquilharia garante fortuna?!

A loja de Seu Arlindo começara pequena, em 1930 e poucos. Uma porta apenas. Para crescer, dividir-se com um sócio e tornar-se quatro portas, com grande depósito nos fundos. Sem jamais perder o jeito de nascença: típica loja do interior, em bairro comum, de cidade de tamanho médio.

Bem postado ao lado de uma padaria de muito movimento, porque única nos arredores, o bazar farejou as sobras do sucesso e as ingeriu sem arrependimento. No bairro sem frescura, deu certo.

Os pãezinhos e as baguetes de cheiro cálido e fina crosta amarronzada em cima e à volta do miolo branco de farinha pura, os biscoitos de receita misteriosa, os quindins de todas as Yayás cantadas por Carmem Miranda, as broas de milho e, sobretudo, os sonhos e as cavacas, se não reproduzissem a aldeia portuguesa do dono, atraíam a gula brasileira a escorrer saliva. Resultado: homens, mulheres e crianças saciavam-se na padaria e passavam pelo bazar. Difícil resistir. Sempre uma falta em casa: carretel de linha, lã de tricô e crochê,  panela de ferro, prego, martelo, caneca, urinol...

Em três anos, o Bazar fincou pé. E cresceu. Fez vitrine, com amostragem dos artigos mais vistosos. O que não cabia, por tamanho ou destinação inapropriada, como o urinóis, por exemplo, estendia-se ou escondia-se por toda a loja. O Bazar vendia  varejo, mas valia-se mesmo do comércio com o interior carente de mercadoria, naquele tempo de estrada de ferro e nenhuma pavimentação de rodovias.

Seu Arlindo pegava o trem, a mala cheia de amostras, selava contratos com os comerciantes pequenos, ajudando-os a servirem à população interiorana. Sem curso de administração de empresa, nem de comércio, o imigrante português se saía a contento. A “burra”, como diziam os antigos, inflava de dinheiro. Para deleite do sócio indolente, além do seu próprio e da família.

Numa das saidas comerciais, sem nunca ter sabido de desfile de moda, o imigrante de aldeia pobre sentiu o mal-vestir das moças e senhoras do interior do Estado: algodão estampado e nenhum requinte. No frio, casaquinho de tricô feito a mão, meia soquete e olhe lá. Tratou de comprar tecidos em grandes peças: algodão, linho, cetim, seda, lã fina, rendas...E vendia-os a metro, calculando, a olho seguro, de quanto cada freguesa precisava. Sucesso imediato, em terras de raros atrativos. 

A excitação do consumo de coisa mais fina não parou no interior. Na loja-sede, Seu Arlindo-faz-tudo escolheu para o balcão dos tecidos os rapazes mais ajeitados, de melhor porte. Destinou ao atacado e varejo de material mais pesado e corriqueiro, os moços toscos de vestir e ser.

Acomodou, numa ilha de madeira cercada de artigos de venda por todos os lados, a caixa e o sócio, que só fazia vigiar cifras, dar bronca nos empregados.

- Ó pá! Veja lá o que faz com a seda branca! Isso custa dinheiro! Ó Arlindo, dá um jeito na prateleira atrás de você. Vai cair tudo!

Em pouco tempo, acorriam ao bazar as donas de casa e sua filhas meninas e mocinhas, em alarido diário. Criança pequena não, para não interromper com brincadeiras e correrias a seriedade excitante do tatear, escolher, comprar. O bazar tornara-se vício.

As adolescentes, essas bem assanhadas em tempo de puritanismo, perdiam-se na troca de olhares de sedução e nos sorrisos pseudo-envergonhados com os moços, casados ou não. Eles, é claro, lhes correspondiam, em fingimento interesseiro: ganhavam comissão nas vendas.

As madames, costureiras das roupas femininas da casa, não poupavam louvores ao que consumiam. Ao fim de horas, com ar de satisfação superior, comandavam:

- Seu Arlindo, põe na conta!

Cada família, uma conta especial, cobrada, com sutileza, ao final de cada mês. À vista, somente os eventuais trabalhadores da classe popular, de família sem nome no bairro.

Os dois imigrantes, um, bom de trabalhado, outro, bom de contabilidade, sócios por casual encontro da colônia portuguesa, acertaram em cheio.

Eles nunca apareciam em coluna social do jornal da cidade, nem eram chegados a festas pagãs. Católicos de irmandade. De onde o bazar tirava inspiração para tanto acerto de vendas, ninguém sabia. Um loja sem especialização, atulhada de mercadorias, bem de cara para a rua feia, defronte à Matriz.

- Vai ver que eles aprenderam com as mulheres dos portugueses ricos. Elas estão sempre nos trinques, de roupa de seda e jóias.

 Ou talvez as viagens anuais do sócio de Seu Arlindo à Santa Terrinha o tornassem respeitado. Europa, afinal de contas! Ainda que o homem se enfiasse em sua Quinta.

O fato é que o jeito inato de Seu Arlindo tocava o Bazar, ia sempre mais além. A loja passou a oferecer camisas  masculinas e tecido para ternos. Em poucos anos, quem havia começado pobre enriqueceu. 

Seu Arlindo, casado e com filhos, podia envelhecer sem medo: futuro garantido em ações de fábricas de renome e aluguel de imóveis. Sabia que a família estaria amparada. Para tanto, se esfolara no trabalho.

Envelheceu, realmente. Na manhã de seu aniversário de oitenta anos, telefone a tilintar sem parabéns e a notícia:

- Bom dia, Seu Arlindo. Vou passar a tomar conta do bazar pro meu avô. A gente tem que modernizar esse bazar fora de moda, a começar pelo nome. Daqui pra frente, loja especializada em eletrodomésticos. Todo mundo tá comprando televisão, né mesmo? Não se pode bobear.

Soou firmeza a voz atrevida do neto do seu sócio aposentado no negócio de atacado e varejo. Torrente de palavras impedia Seu Arlindo de retrucar. Nem balbuciar.

O senhor empertigado encurvou as costas, saiu da sala em passo lento, arrastado, pegou o rosário gasto de madeira em uma das mãos, a mão da mulher na outra e... chorou.

Maria Lindgren
é escritora, ex-coordenadora pedagógica da Secretaria de Estado de Educação do Rio de Janeiro, ex-professora docente de Português e Inglês do Município e Estado do Rio de Janeiro, autora do livro Uma Rolha na Lágrima, publicado em 2003 pela Ed. Mondrian/RJ, coletânea de contos e crônicas; participação na Antologia Cuento Gotas nº VI, da Editora ABRACE, de Montevidéu, Uruguai, 2006, com dois contos: Um encontro inusitado (em português) e Alta Fidelidad (em espanhol); colabora com diversos sites: Cronópios, Jornal´Ecos, Portal Vânia Diniz, como colunista; Revista Honoris Causa; Garganta da Serpente, Recanto das Letras e PD  Literatura.


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