


O ócio compulsório
Maria
Lindgren
Observadora da vida, sem ser expert no assunto, algumas idéias me afloram à mente, quando penso em ócio. Falo do tipo de ócio sinônimo de lazer prolongado, de dolce farniente, levada pela experiência de uma vida bastante longa, de mulher da classe média brasileira. Friso classe média porque o ócio difere e muito entre as chamadas e mal definidas classes sociais.
Não falo do ócio quase inexistente do trabalhador braçal, sobretudo, o das donas de casa pobres, de única ou dupla jornada. Aqui defino o ócio como trégua, prolongada ou não, ao labor cansativo do dia a dia, o que, para as camadas sociais mais baixas é um luxo, às vezes, apenas sonhado. Não considero como tal, por exemplo, uma parada para bate-papo, cerveja ou futebol, para quem acorda às cinco da manhã, gasta as energias em casa, no ônibus, no trabalho e precisa trocar férias por dinheiro, quando não vive de biscates, como trabalhador informal, sem carteira de trabalho. Nem chamo de ócio as olhadas rápidas na televisão da mulher dona de casa pobre.
No meu meio restrito, observo vários tipos: o ócio daqueles que aproveitam todos os dias de feriados ou férias, em viagens ditas de lazer, em geral, cansativas e rápidas; o dos que preferem ficar no aconchego do lar, ouvindo música, dormitando ou assistindo televisão de dia (para mim, a mais incômoda forma de ócio em casa); o dos que vão à praia, levam os filhos a passear nos shoppings da megalópole, encontram amigos, comem fora, vão ao cinema ou a outra forma de diversão não muito cara; dos que esquecem do computador diário e só o abrem para jogar ou se divertir, de alguma forma; o dos afortunados que podem fazem amor menos corrido... Raras pessoas, em geral os mais intelectualizados, usam o ócio para pôr em dia leituras adiadas, música não escutada com atenção ou visitas aos museus da cidade. No último caso, o ócio se prejudica pelo esforço de se deslocar de carro ou metrô ao Centro da cidade, onde se encontram os melhores museus e salas de concerto.
Há, no entanto, a gente que esquece ou ignora a importância do ócio verdadeiro, do não fazer nada, para corpo e alma, e trabalham, nos dias de folga, em diferentes atividades: lavam carro, arrumam gavetas e guarda-roupas, preparam o trabalho de depois. Refiro-me aos homens e mulheres que ainda desenvolvem uma profissão, não aos aposentados.
Mas concentro-me mais, justamente, no ócio obrigatório dos que não mais trabalham, seja por tempo de serviço cumprido, seja por idade. Setenta anos feitos e, da noite para o dia, nada mais a fazer: aposentadoria compulsória, ócio também compulsório. E então, começa aquela vida sonhada, no meio da carreira, com suspiros de desejos :” Ah, quando me aposentar...”
Talvez no início, um pouco do ócio almejado dê prazer. Ficar na cama sem hora para acordar, por exemplo, é uma das melhores sensações para quem é um grand dormant, isto é os que precisam de muitas horas de sono por dia, em oposição aos petit dormants. Depois, o dia inteiro para aproveitar o não-fazer-nada. No primeiro dia, ainda vale, no segundo, idem, no terceiro... Começa a incomodar a ponta de angústia por só ter que acordar, comer, dormir sem tempo de marcação definido. Os compromissos médicos e dentários tornam-se parte da rotina, incomodam cada vez mais ( ou menos, conforme a pessoa). E o sentimento de solidão cresce.
É preciso sair da inatividade e diluir a angústia. Os mais equilibrados (ou simplórios?) apelam para compromissos evitados por longo tempo: compras de mercado, idas ao banco vão se inserindo no calendário cotidiano. E a abertura às conversas longas com porteiros, motoristas de táxi, médicos e dentistas ao final da consulta...
Merecem menção especial as compras de mercado, tornadas diárias, e as idas ao banco, pelo menos, para receber seus proventos, uma vez por mês. O lazer remunerado pode transformar obrigações em prazer. As compras de mercado se tornam delícia aos olhos, na escolha dos produtos, à mente, na seleção dos mais adequados ao bolso e ao apetite, até mesmo à boca, na conversa com os vendedores, sobretudo se o estabelecimento oferece cafezinho de graça. Ainda mais, favorecem a movimentação das pernas e dos braços, essencial para o conforto corporal. Quanto ao banco, torna-se uma diversão a espera na longa fila da Terceira Idade para recebimento de dinheiro ou para pagamento de contas, que não querem ou não podem confiar à Internet: observações rápidas, falatório sobre as condições precárias do atendimento ou sobre os juros absurdos dos bancos brasileiros, com uma pitada de economês dos aposentados mais sabidos.
Os jornais, obrigação diária mal cumprida devido à pressa de sair para o trabalho, hoje se lêem à minúcia, apesar do conhecimento prévio das notícias pelo rádio, pela televisão, ou pela Internet, na véspera, para quem aprendeu a lidar com tecnologia de ponta.
Para aqueles que não se contentam com tão pouco, o que fazer, então? A resposta está posta nas várias opções de lazer, abertas ao público mais idoso: dança de salão, canto coral, cursos de artesanato ou enriquecimento intelectual... Ou trabalho voluntário nas comunidades pobres, nos hospitais, nas creches.
Mas aí, acaba-se o ócio e lá vem trabalho de novo.
Maria Lindgren
é escritora, ex-coordenadora pedagógica da Secretaria de Estado
de Educação do Rio de Janeiro, ex-professora docente de Português e Inglês do
Município e Estado do Rio de Janeiro, autora do livro Uma Rolha na Lágrima,
publicado em 2003 pela Ed. Mondrian/RJ, coletânea de contos e crônicas;
participação na Antologia Cuento Gotas nº VI, da Editora ABRACE, de Montevidéu, Uruguai, 2006, com dois contos: Um
encontro inusitado (em português) e Alta Fidelidad (em espanhol); colabora com
diversos sites: Cronópios, Jornal´Ecos, Portal Vânia Diniz, como colunista;
Revista Honoris Causa; Garganta da Serpente, Recanto das Letras e PD
Literatura.