Olhar perdido
Maria Lindgren

Tento medir o pescoço da menina assassinada. Parece-me do tamanho da argola de uma pulseira que chamávamos “escrava”. No máximo. Arrepio-me toda. Pescoço me lembra carícia, carinho, coisa boa de se sentir. Hoje, me traz a lembrança funesta de uma garotinha de 6 anos. Machucada, sufocada. E a asfixia é evitada até pelos algozes nos poucos países que ainda usam o estrangulamento como pena de morte, porque a sensação é pavorosa.  

A visão de homens e mulheres sufocados, em filmes de violência e terror ou de estrangulamento, como castigo infligido aos assassinos em pena de morte ou ainda, como exemplo aos inimigos - atitude comum entre os nazistas - acompanhou-me pela vida afora. Sempre viro a cabeça ao perceber que me esperam cenas de estrangulados, com medo de sentir, eu própria, a sensação indescritível de ir perdendo o ar aos poucos. Ainda que os punidos sejam bandidos que mataram, assaltaram, estupraram.

Ao ver e rever as cenas do assassinato da menina Isabella, basta-me o estrangulamento, para me deixar estonteada de horror. Imagino dedos fortes de adulto, como os do pai da menina (se é que se pode chamar esse algoz de “pai”), ou mesmo, mãos mais  fracas, como as da madrasta, pior do que as dos contos de fada que Isabela provavelmente conhecia, em argola flexível e inflexível, em torno do pescoço frágil. Quase vomito.

E não é só isto. Há ainda o ato de jogar pela janela. Vejo o pegar frio da tesoura, o recortar da rede de proteção, adaptando-a ao tamanho do corpo infantil. Vejo o assassino a empurrar a menina aos poucos, um dos braços dela ainda se segurando, como a pedir clemência. Vejo o resvalar para a queda final, do sexto andar de um prédio de certo status para a grama. Finalmente, vejo o olhar vazio de Isabella, ainda com resquício de vida, talvez dando tempo a pensamentos de medo, aflição, terror, dor.

Em que pensava Isabela, sem poder alçar os olhos ao céu em pedido de socorro ao Pai Celestial? No pai transfigurado de monstro? Na mãe, que não pode ajudá-la  e a deixara com os dois assassinos? No avô paterno, que protege o filho até agora, ignorando a neta? Na avó materna, única que hoje chora com a mãe? Nos meio-irmãos menores e colegas de brincadeiras de criança? Em sua infância de flor no cabelo, de dança nas festinhas que, para sempre, acabou?

Estou exausta. Canso de me imiscuir no episódio que comove demais. Corro à procura de filmes de ficção; pulo, de propósito, documentários: sobre o massacre das guerras, das tormentas da natureza, das crianças mutiladas, famintas, mortas... Todos companheiros de infortúnio de  Isabela.

Basta! Mil vezes, a fantasia.

Maria Lindgren
é escritora, ex-coordenadora pedagógica da Secretaria de Estado de Educação do Rio de Janeiro, ex-professora docente de Português e Inglês do Município e Estado do Rio de Janeiro, autora do livro Uma Rolha na Lágrima, publicado em 2003 pela Ed. Mondrian/RJ, coletânea de contos e crônicas; participação na Antologia Cuento Gotas nº VI, da Editora ABRACE, de Montevidéu, Uruguai, 2006, com dois contos: Um encontro inusitado (em português) e Alta Fidelidad (em espanhol); colabora com diversos sites: Cronópios, Jornal´Ecos, Portal Vânia Diniz, como colunista; Revista Honoris Causa; Garganta da Serpente, Recanto das Letras e PD  Literatura.


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