


Sabe mamãe?
Paola Rhoden
Hoje compreendi que não fui um filho exemplar.
Sabe por quê? Porque quando era criança, você dizia – Calce os sapatos, não ande descalço - eu não calçava; vista um agasalho que está frio - eu não vestia; não coma doces demais - e eu comia.
Quando era adolescente, você dizia – olhe com quem anda, as companhias nos levam a fazer coisas, e algumas vezes nem sempre fazemos a coisa certa - mas eu não ouvia; não beba - eu bebia; não corra com o carro - e eu corria; cuidado com as drogas - mas fui experimentar.
Quando adulto, e a senhora já velhinha, eu lhe dizia: Não sei o que os velhos acham de viver tanto, será que não percebem que incomodam? Eu preciso viver minha vida!
E quando a senhora me perguntava alguma coisa com sua voz mansa, com cuidado para não me irritar, algo que lhe dizia respeito, e com certeza seria importante para a senhora, mas não o era para mim, eu respondia com aspereza sem nem mesmo ouvir direito sua pergunta, e gritava:
- Será que não posso ter paz? Nem ir almoçar eu posso? Vou dar uma saidinha e tenho que ficar lhe dando explicações?
E a senhora calada voltava para o seu canto, ao silêncio que minha ignorância a obrigava ficar.
Quantas vezes não lhe dei o abraço que a senhora esperava, quantas vezes não respondi o ‘até logo meu filho’ ao sair para o trabalho. Tantas vezes deixei de ver o seu rosto sofrido, sofrimento causado pela minha aspereza e falta de respeito. Quantas vezes fingi não ver as lágrimas furtivas em seus olhos sempre meigos.
Quantos beijos eu lhe dei na vida? Não me lembro. Foram poucos. Afinal não tinha tempo para essas coisas. Tanta vezes deixei de amá-la!
Hoje, aqui sentado ao lado de seu caixão, olhando seu rosto sereno como sempre, mas já sem lágrimas, vendo seu pequeno e magro corpo que nunca mais irá me incomodar, então tomo consciência de que nunca mais a verei.
Será que adianta lhe pedir perdão?
Perdão pelos beijos não dados, pela falta de respeito, pelo excesso de orgulho, mesmo sabendo que a senhora tem o direito de não perdoar?
Não a conheço bem! Não me permiti conhecê-la. Nunca estive muito ligado em seus sentimentos, não sei se me perdoará.
Mas mesmo assim, depois de tudo, espero que um dia me perdoe!
Sabe mamãe? Eu a amo!
Paola Rhoden colecionou diplomas e certificados que lhe capacitaram a exercer os cargos de sobrevivência. Mas o verdadeiro aprendizado obteve no convívio entre pessoas das mais diversas culturas, as quais lhe ensinaram muito mais com suas experiências do que os bancos escolares lhe possam ter transmitido. Essa sabedoria obtida no dia a dia, ela coloca nas páginas que escreve. Nascida no Estado do Paraná , Brasil, foi por necessidade do trabalho que morou em diversas cidades brasileiras. Essas caminhadas pela vida, lhe proporcionaram a oportunidade de um aprendizado que lhe valeu muito nas estórias e histórias que escreveu. Foi premiada em concursos literários, tendo alguns textos publicados em antologias. Editou dois livros.