


Putz grila, vamos abordar o
lixo!
Por Michèle Sato,
Herman de Oliveira e Ronaldo
Senra
Vencemos o cansaço, ok, você ganhou, vamos falar sobre o 'maledeto' LIXO! A resistência em escrever sobre este tema não é somente porque é o tema mais popular da Educação Ambiental no Brasil e no mundo. O que torna o assunto enfadonho é a maneira pela qual ele tem sido orientado, seja por simples ações pontuais de coleta seletiva, em oficinas sem discussão sobre o significado do seu acúmulo, ou pela visão simplista e comportamentalista do bastar "jogar o lixo no lixo". Isso quando não humanizam o pobre coitado do porco atribuindo-lhe adjetivos indevidos, gerando predileção pelos coelhos branquinhos de olhos vermelhos por algumas crianças, e completo descaso com os animais ditos nocivos, inúteis, feios ou assombrados, assim adjetivados pelo equivocado centralismo da espécie humana sobre os demais.
A humanidade se orientou para afastar de si os restos do consumo diário, extrapolando as visões para o lixo industrial que polui águas, atmosferas, contaminando solos e até alterando vestígios fósseis. Mato Grosso tem o grande problema do lixo agrícola, além da reutilização de embalagens de venenos usados para potes de biscoitos, farinhas ou alguns alimentos. O indesejado lixo hospitalar, que além de ser portador de algumas doenças, contaminam os lixões. Há lixos ricos, como no Japão, por exemplo, onde um brasileiro pode montar seu pequeno apartamento só catando as inúmeras mobílias e peças quase intactas, porém simplesmente descartadas como restos.
Como o ecologista é "excêntrico" (pra não dizer louco), o lixo tornou-se matéria prima de oficinas da PEDAGOGIA DA RECICLAGEM, com manufatura para bolsas, porta-jóias, construção de instrumentos musicais, obras de arte, recipientes para água, vasos de plantas, fogões solares entre uma infinidade de produções da reutilização, de uma percepção diferenciada em relação ao problema pode ofertar como reorientação de sua trajetória nas sociedades, mas ele ainda continua...
Queremos propor uma PEDAGOGIA DOS 3Rs (e não somente da reciclagem), pois consideramos que primeiramente é preciso debater os modelos de desenvolvimento que causam o exagerado lixo, pautando primeiramente a sua REDUÇÃO. Isso implica dizer que menos consumo é necessário e que a rota jamais pode ser direcionada ao verbo TER, mas necessariamente ao SER mais cuidadoso com o ambiente. Inevitavelmente, porém, o lixo é gerado e assim consideraremos a REUTILIZAÇÃO do lixo, para somente na etapa final, quando o problema já tiver instalado, considerarmos a RECICLAGEM.
O olhar da pedagogia dos 3Rs deve considerar que nem toda biorregião tem serviços de saneamento, além das comunidades que vivem em lixões, à mercê de agravos da saúde e em situação de miséria socioambiental. É preciso compreender que os impactos ambientais sempre são mais fortes e prejudicam mais as comunidades pobres. Não há como abordar esta temática sem considerar as desigualdades do mundo, já que os 20%mais ricos do globo consomem e produzem 80% dos recursos planetários. Atitudes pessoais são tão importantes quanto ações coletivas, por isso, além de modificar nossos hábitos cotidianos, devemos também participar das políticas públicas, que devem ser construídas para que o planeta seja para todos e não apenas de uma pequena minoria. Putz grila, tinha tanto mais para considerar, mas acabou o espaço deste mês!
Michèle Sato, Herman de Oliveira e Ronaldo Senra são membros do Grupo Pesquisador em Educação Ambiental (GPEA) da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). [www.ufmt.br/gpea].

Foto: Sebastião Salgado, lixão de SP
Michèle Sato
Sou licenciada em Biologia, com mestrado em Filosofia, doutorado em Ciências e pós-doutorado em Educação. Daí minha dificuldade em efetuar minha trajetória em apenas um campo do saber, desde que o entrelaçamento oferece um mosaico colorido, com fios cintilantes e franjas que se emaranham em labirintos. Sou facilitadora das redes de Educação Ambiental, com diversas experiências nacionais e internacionais. Academicamente, minha atuação tem sido na filosofia da arte, com ênfase na fenomenologia e sociopoética; e nas horas de delírio, arrisco-me à aventura das poesias e haikai. Sou movida pelo surrealismo, em especial meu preferido René Magritte, mas para além da escola da arte, aceito o surrealismo como um movimento social que orienta minhas escolhas e opções de vida.
[1]
www.bibliotecadaflo
[3]
www.institutochicom
[4]
www.youtube.
[5] BERMAN, Marshall. Tudo que é sólido desmancha no ar. São Paulo: Companhia de bolso, 1989, p. 25.
Grupo
Pesquisador em Educação Ambiental, GPEA
Universidade Federal de Mato Grosso, UFMT
Av. Fernando Corrêa da Costa, sn
Coxipó, Cuiabá, MT, BRASIL
CEP: 78060-900
Tel. 55-65-3615 8443 Fax: 3615 8440
http://www.ufmt.
Rede
Mato-Grossense de Educação Ambiental - REMTEA
http://www.ufmt.
Associação Internacional de Investigadores em Educação Ambiental - NEREA
http://www.nerea-