Racismo Ambiental
Michèle Sato

Nos corredores dos labirintos da alma, o ano de 1982 registra o ato corajoso do reverendo cristão Benjamin Chavis, preso porque estava tentando frear o descarregamento de substâncias tóxicas próximas a uma região periférica, eminentemente de moradores negros em Carolina do Norte, Estados Unidos da América. O protesto aprisionou 500 manifestantes, encharcada pela corajosa desobediência civil em protestar contra os danos socioambientais.  Mas a tragédia deu prosseguimento, e diversos casos de injustiça ambiental foram mapeados nos mundo inteiro, explicitando uma série de doenças que afetaram a saúde humana em função da toxidade, oriunda tanto da agricultura como da industrialização.

Alguns autores consideram que a estratificação das pessoas (por raça, etnia, status, gênero ou poder) relaciona-se com o lucro transacional que promove os riscos tecnológicos, destruição ecológica e estabelece a vulnerabilidade econômica, na ausência de opções que conduz à exclusão social. Talvez por isso, o termo “Justiça Ambiental” tenha sido mais consistente na adoção das políticas brasileiras, desde que assumindo a luta racial, estende os cenários para outros segmentos sociais que sofrem os danos ambientais, como povos indígenas, povos ciganos, ribeirinhos, atingidos da barragem ou favelas, entre outros grupos considerados marginais.

Acatando as novas orientações que foram tecidas após a Constituição de 1988, um quilombola pode ser compreendido como forma associativa de uma organização social na sustentação do legado africano pelos genuínos grupos de resistência política e cultural. O quilombola Mata Cavalo localiza-se no município de Nossa Senhora do Livramento, próximo à rodovia MT-060 e possui 11.722 hectares. É dividida em seis associações distintas matriculadas em cartório: Mata Cavalo de Cima; Ponte da Estiva (Fazenda Ourinhos); Ventura Capim Verde; Mutuca; e Mata Cavalo de Baixo. As seis associações formam o complexo Quilombo Boa Vida Mata Cavalo. Grande parte dos danos ecológicos existente na área da antiga terra de sesmaria foi causada pelos fazendeiros da localidade.

O Grupo Pesquisador em Educação Ambiental (GPEA) atua com um projeto em Mata a Cavalo, aliando os 3 pilares da indissociabilidade universitária: pesquisa, docência e vivência comunitária. A dialética propositiva considera o local e o global, inscritos na orientação do biorregionalismo, com um recorte local das características fitofisionômicas, porém na relevante dimensão histórico-social do mundo. Se realmente tivermos o direito de sacudir e questionar o consagrado hegemônico, o GPEA quer estabelecer a trajetória e escolher os caminhos à transformação da realidade injusta.

Na nossa vivência em Mata Cavalo, percebemos que o conceito de violência revela-se material, com evidência na posse e uso das terras. As solicitações dos moradores carregam alguma flâmula de um mea culpa de um território mais produtivo, como necessidade de granjas, hortas, apiários ou qualquer coisa que o Banco Mundial chamaria de geração de renda. Mas esperamos que a razão material se desfaça lentamente, na recuperação do acervo cultural das identidades ali expostas, como lugares-comuns das violências que conseguem degradar a dimensão ética e moral da sociedade. O compromisso do GPEA não nega seu papel acadêmico enquanto produtor de conhecimentos, porém expande seus horizontes, abraçando a docência e a comunidade no bojo de suas proposições. René Magritte, um pintor surrealista belga, foi consistente quando expressava de que a liberdade é a possibilidade de ser, mas jamais poderá ser a obrigação de ser.

Sou licenciada em Biologia, com mestrado em Filosofia, doutorado em Ciências e pós-doutorado em Educação. Daí minha dificuldade em efetuar minha trajetória em apenas um campo do saber, desde que o entrelaçamento oferece um mosaico colorido, com fios cintilantes e franjas que se emaranham em labirintos. Sou facilitadora das redes de Educação Ambiental, com diversas experiências nacionais e internacionais. Academicamente, minha atuação tem sido na filosofia da arte, com ênfase na fenomenologia e sociopoética; e nas horas de delírio, arrisco-me à aventura das poesias e haikai. Sou movida pelo surrealismo, em especial meu preferido René Magritte, mas para além da escola da arte, aceito o surrealismo como um movimento social que orienta minhas escolhas e opções de vida.


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