


Reiner: um agradecimento
Michèle Sato
Era um dia quente destes qualquer em Mimoso, um vilarejo em Santo Antônio de Leverger. As águas pantaneiras me mostravam os reflexos do sol misturados com as aguapés e o enorme tuiuiú desviava dos fios de eletricidade, em postes bêbados, vacilando à mercê da solidão, ainda que a rica vegetação teimasse em camuflar os sinais da vida urbana. Ávida para conhecer a terra do Marechal Rondon, começaria meu primeiro projeto em educação ambiental. Migrante, mal sabia que as brisas que assopravam em Mimoso nem sempre traziam sabores adocicados. A primeira reunião me pareceu salgada, pois um líder me chamava de ingênua, afirmando que Mimoso tinha fome e para saciar a justiça social, o ambiente seria a vítima para que os custos sociais fossem prioritários. “educação Ambiental é coisa de romântico”, afirmava Carlos Reiner, morador de Mimoso, naquela ocasião, diretor da escola Santa Claudina. Vagaroso como o Caracol de Manoel de Barros, o projeto avançava no diálogo entre o conhecimento universal e o local, tendo Mimoso com ponte do estofo do cosmos.
Tímido, mas escalando os céus, o projeto parecia como a pequena lua que ainda estava ofuscada pela escuridão da noite. Foi se soltando aos poucos, querendo abrir os horizontes fechados para forjar um clareado natural, longe de fumaças, ou luzes artificiais destas lâmpadas sonâmbulas das ruas. Por várias vezes, ela pediu socorro às iluminações das estrelas, e possivelmente às brisas para que as nuvens também pudessem dar licença à sua presença, talvez insegura, mas corajosa por teimar na felicidade. Aos poucos foi ganhando o brilho do céu, tornando o tom escuro em semitons mais claros.
As essências da Educação Ambiental talvez fossem mal compreendidas no início, mas a poética estava predestinada na natureza e cultura pantaneira. Pequenos Projetos Ambientais Escolares Comunitários foram construídos, fortalecendo diálogo entre o currículo da escola e o currículo da vida. As águas lambiam as bordas da baía Mariana, cujo mito aparecia no entardecer e vôos de garças. Os olhos distantes acompanhavam o mosaico que trançava esperanças, muitas vezes desfiando cansaços após a pesquisa empírica.
Numa festa da comunidade, após uns 4 anos de diálogos com Mimoso, Carlos Reiner pegaria o microfone para fazer seu discurso. Na sua primeira frase, meu coração já batia em ritmo extasiado e seu prolongamento foi quase foi inaudível quando ele revelava sua própria identidade: “nós educadores ambientais”... Tremulou sua voz pelo mal de Parkson que o acometia. Continuou seu discurso elogioso ao projeto, narrando os fenômenos, os resultados, os ‘causos’ e também as assombrações. E finalizou: “Temos que reconhecer que Mimoso jamais pode se despedir da Educação Ambiental, pois foi ela que nos ensinou que a vida digna só pode existir se tivermos cuidados ambientais”.
Uma vez um renomado jornalista me perguntou qual tinha sido meu maior prêmio. Narrei-lhe esta história e ainda que a Educação Ambiental seja inacabada, sem pretensão de resolver todos os dilemas de Mimoso, acredito que as faces da lua de Cesar de Andrade (fotografia) revelem a trajetória estabelecida em Mimoso, e Carlos Reiner, para mim, ainda é uma proposta educativa que hoje pulsa no céu para ajudar a abrilhantar o mundo.
Obrigada, querido Carlos!

João Gomes: Carlos Reiner
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Mimoso
O começo
foi só o silêncio
Cheiros,
sabores ou tatos
Era
preciso pintar outra tela
Se na
Terra a pedra contorcia
Mas foi
na luta esplendorosa
Que no
céu agreste de Mimoso
Michèle
Sato: Mimoso |
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MICHÈLE SATO teve seu primeiro projeto em Educação Ambiental em 1994, em Mimoso, ocasião que chegava em Mato Grosso. No caminhar com bons resultados do projeto, o livro lançado fruto das pesquisas ali realizadas carrega as palavras de Luiz Passos Augusto Passos: “Michèle tem a alma acorrentada em Mimoso”. Possivelmente também em Carlos Reiner.
Michèle Sato
Sou licenciada em Biologia, com mestrado em Filosofia, doutorado em Ciências e pós-doutorado em Educação. Daí minha dificuldade em efetuar minha trajetória em apenas um campo do saber, desde que o entrelaçamento oferece um mosaico colorido, com fios cintilantes e franjas que se emaranham em labirintos. Sou facilitadora das redes de Educação Ambiental, com diversas experiências nacionais e internacionais. Academicamente, minha atuação tem sido na filosofia da arte, com ênfase na fenomenologia e sociopoética; e nas horas de delírio, arrisco-me à aventura das poesias e haikai. Sou movida pelo surrealismo, em especial meu preferido René Magritte, mas para além da escola da arte, aceito o surrealismo como um movimento social que orienta minhas escolhas e opções de vida.
[1]
www.bibliotecadaflo
[3]
www.institutochicom
[4]
www.youtube.
[5] BERMAN, Marshall. Tudo que é sólido desmancha no ar. São Paulo: Companhia de bolso, 1989, p. 25.
Grupo
Pesquisador em Educação Ambiental, GPEA
Universidade Federal de Mato Grosso, UFMT
Av. Fernando Corrêa da Costa, sn
Coxipó, Cuiabá, MT, BRASIL
CEP: 78060-900
Tel. 55-65-3615 8443 Fax: 3615 8440
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Rede
Mato-Grossense de Educação Ambiental - REMTEA
http://www.ufmt.
Associação Internacional de Investigadores em Educação Ambiental - NEREA
http://www.nerea-