Renascimentos Espiralizados
Michèle Sato

Nas diversas narrativas mitológicas do mundo inteiro, o Caracol e sua dualidade entre a rigidez de sua proteção calcária e a flexibilidade de seu corpo institui a complementaridade humana entre o bem e o mal. Ele também é símbolo do sentido fálico do masculino (yang) e feminino (yin) da filosofia oriental.  Na Grécia antiga, a espiral é um pictograma universal da temporalidade, simbolizando a permanência do ser onírico em sua constante transformação. Na mitologia asteca, o caracol é a inspiração dos quatro elementos: a dinâmica lunar da fertilidade em suas fases que se revelam no céu (ar); a vida hermafrodita nas terras úmidas (terra e água); e também representa a chama da morte e seu renascimento (fogo). Como Fênix, o Caracol é símbolo de vida nova, presente também na cultura brasileira dos indígenas Bororo, e a palavra “Maiwu” ressignifica e confere outro sentido ao renascimento, ou seja, é a história pretérita da tradição, entrelaçada com a dinâmica de transformação presente e futura.

Para o poeta mato-grossense Manoel de Barros, o Caracol é um ser gente, “por intermédio de amar o escorregadio e dormir nas pedras”, além de simbolizar a nossa travessia por rios tortuosos ou ventanias turvas, que após circular em labirintos da dor, muitas vezes pousa na areia para chorar nossos vazios. Considerar os valores para um futuro sustentável, assim, é sempre essencial revisitar o passado, por meio de um permanente exercício de tomar o erro (ou a dor) como uma aprendizagem, retificando-o, ou tentando formas diferentes de trajetórias que se põem em vidas inacabadas, no continuum da existência, emergindo e submergindo, conforme os ritos de passagens na renovação de nossas identidades e desejos.

A sociedade neoliberal apregoa o sucesso, mas reconhecemos que da forma como ele é orientado, poucas pessoas conseguem alcançá-lo. No campo educativo mundial, é acelerado, e veemente, o discurso para que optemos pela década da educação para o desenvolvimento sustentável. Sem uma definição consistente que responda ao que seja o desenvolvimento sustentável, as pessoas necessitam verificar os produtos, pra que a concreção seja apresentada como uma meta atingida. A proposta de um processo educativo que vise a formação permanente é descartada, porque há pressa para se alcançar o produto final.

Na academia, os resultados da pesquisa são extremamente valorizados, afinal é o fruto da semente que plantamos no chão árido de nossos desejos. Nem sempre, entretanto, os frutos são saborosos. Destarte, é oportuno considerar a umidade, as ventanias, o trato da germinação e o crescimento da árvore, antes de tomá-la somente em sua forma finalizada. Assim, a maneira como descrevemos a metodologia da pesquisa poderá nos revelar se os resultados estão consistentes, ainda que longe de serem ideais.

Mas os labirintos se formam: Haverá os defensores da educação para o desenvolvimento sustentável, onde ao final de uma década poderemos ver o produto desta orientação; e aqueles que, lutando na resistência contra a cultura hegemônica, preferem considerar o processo continuum da educação ambiental. No conflito, é preciso reconhecer que as identidades de diversos grupos sociais podem parecer invisíveis, mas que fazem parte sociedade global. Para cada grupo, será necessário reconhecer que existe uma realidade única, com sua gente e sua cultura, e que juntos, formam a Terra.

Quais seriam os princípios e valores dos educadores ambientais para um futuro sustentável? Primeiramente reconhecer de que o futuro que se projeta ao caminho adiante tem íntima conexão com o passado e que dependendo de nossas ações imediatas, todo ciclo temporal se altera. A educação ambiental é fruto de lutas pretéritas que construíram identidades autônomas e revisitar seus princípios demarca que momentaneamente podemos se fixar, ainda que seja por meio de fluxos.

Segundamente, e talvez aqui resida o grande desafio, é de reconhecer o limite como potencial de aprendizagem e é possível que a educação ambiental não tenha resolvido os problemas da humanidade. Mas... Haverá alguma área do saber que, sozinha, conseguiu este sucesso? Na espiral de dúvidas e incertezas, se permitirmos acolher o obstáculo como parte do processo, talvez seja mais fácil encontrar o caminho adiante. É possível que a trajetória não seja aquela que conduza à verdade ou ao grande sucesso. Mas sobremaneira, são nos vãos de nossos labirintos, que teremos que encontrar um espelho que traga refletido o lado que escolhemos para lutar.

No ciclo metafísico da temporalidade que não se impõe em linha reta, mas alcança as espirais de idas e voltas, nem só a evolução se faz presente, mas a involução, a devolução, a expansão e a contração de universos identidários. O inacabado permite, assim, se esconder dentro da casinha do Caracol quando o medo nos espreita, e simultaneamente, acolher o outro que sofre também. E juntos, transcenderem a dor para alçar vôos em órbitas cósmicas, tocar estrelas e dançar nas notas musicais sob a regência de algum violino vermelho.

Por fim, os princípios de uma vida digna implicam em perceber que a vida pulsa numa espiral de possibilidades e não há como construir nossas casinhas sem considerar o que existe ao seu derredor. Sem esquecer o que está escondido, o mistério é também parte das relações identidárias, num mundo que tem ambientes sem fronteiras, e que se define na própria indefinição, no caos do obstáculo ou no acaso da esperança. O que medimos na educação ambiental está na sua própria imensurabilidade em conseguir mantermo-nos inteiros, após as estações de cortes. Afinal, na concêntrica orientação do Caracol, a morte nem sempre é o fim, mas é um corajoso renascimento de nossos desejos.

 

MAIWU
(do Bororo, renascer)
-- Michèle Sato –

o pretérito circula
na espiral de labirintos
no tempo sem fim

na dor que hoje vaza
na rigidez dos erros
na penumbra da casa

mas no caracol esperança
o sorriso cintila
ao renascimento do amanhã

 

Arte: Michèle Sato (photoshop)

 

 

Michèle Sato

Sou licenciada em Biologia, com mestrado em Filosofia, doutorado em Ciências e pós-doutorado em Educação. Daí minha dificuldade em efetuar minha trajetória em apenas um campo do saber, desde que o entrelaçamento oferece um mosaico colorido, com fios cintilantes e franjas que se emaranham em labirintos. Sou facilitadora das redes de Educação Ambiental, com diversas experiências nacionais e internacionais. Academicamente, minha atuação tem sido na filosofia da arte, com ênfase na fenomenologia e sociopoética; e nas horas de delírio, arrisco-me à aventura das poesias e haikai. Sou movida pelo surrealismo, em especial meu preferido René Magritte, mas para além da escola da arte, aceito o surrealismo como um movimento social que orienta minhas escolhas e opções de vida.

[1] www.bibliotecadafloresta.com.br

[2] www.geoglifos.com.br

[3] www.institutochicomendes.blogspot.com.br

[4] www.youtube.com/watch?v=QfJymHU5Nt4&eurl, In: www.altino.blogspot.com/.

[5] BERMAN, Marshall. Tudo que é sólido desmancha no ar. São Paulo: Companhia de bolso, 1989, p. 25.

Grupo Pesquisador em Educação Ambiental, GPEA
Universidade Federal de Mato Grosso, UFMT
Av. Fernando Corrêa da Costa, sn
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Tel. 55-65-3615 8443    Fax: 3615 8440
http://www.ufmt.br/gpea/index.htm

Rede Mato-Grossense de Educação Ambiental - REMTEA
http://www.ufmt.br/remtea/index.htm

Associação Internacional de Investigadores em Educação Ambiental - NEREA
http://www.nerea-investiga.org/default.htm


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