



Mimetismo entre borboleta e mariposa ( fonte: google)
Sabedoria verde
Maria
Lindgren
As recém-nascidas folhas verde-água contrastam com o verde mais escuro das mais idosas da planta de flor vermelho-alaranjada. Contraste muito discreto. Ninguém as olha. Salvo eu, que respiro fundo à borda da piscina, após os exercícios matinais. Observo os movimentos quase imperceptíveis, um arrepio da planta como um todo, em contacto com a brisa da manhã do outono carioca mais primaveril do mundo.
De repente, entre um respirar e outro, prendo o fôlego espantada, para me maravilhar, logo a seguir. Como em decolagem triunfal, duas levezas alçam vôo: asas de uma borboleta verde. Juro que nunca vi nada igual. Nem mesmo na época de casa com quintal, cheia de borboletas, parte da paisagem diária das minhas janelas.
Mimetismo de borboleta só conhecia aqueles citados nas enciclopédias antigas de meu pai ou no Google de hoje. Mas verde assim, camuflada entre as folhas...
Sigo o vôo, tão rápido quanto podem os olhos de vista cansada, para além do muro branco. Um segundo, e a decepção. Criança curiosa, quero mais. Nem posso ter certeza do que acabara de ver. Será fantasia de mulher carente de realidade suave? Não, juro que vi as asas verdinhas. Quase esbarram em mim, ao alçar vôo certeiro, sem decolagem preconcebida.
Deixei de lado pensamentos tolos que acompanham os exercícios moderados. Reflito, ainda uma vez, sobre a sabedoria da natureza. Imiscuída na ramaria, ninguém percebe uma borboleta. Que danada! Ninguém lhe vai fazer mal, a não ser que o jardineiro rude jogue impetuosos jatos de água sobre as plantas.
Penso no ser humano, de imediato. Se eu, por exemplo, quisesse passar despercebida no mato, como me mimetizaria? No máximo, imitaria o que fazem os precários homens, durante os apertos de guerra no meio verde. Enfeitam os capacetes de folhagem de galhos com folhas, usam uniforme manchado de marron-esverdeado e pronto: está feita a camuflagem, para se defenderem dos inimigos ou os atacarem. Ridículos homens que nem pálida imitação da natureza conseguem.
Ridícula eu que só posso caminhar na piscina, sem ao menos nadar em imitação aos patos e cisnes.
Maria Lindgren
é escritora, ex-coordenadora pedagógica da Secretaria de Estado
de Educação do Rio de Janeiro, ex-professora docente de Português e Inglês do
Município e Estado do Rio de Janeiro, autora do livro Uma Rolha na Lágrima,
publicado em 2003 pela Ed. Mondrian/RJ, coletânea de contos e crônicas;
participação na Antologia Cuento Gotas nº VI, da Editora ABRACE, de Montevidéu, Uruguai, 2006, com dois contos: Um
encontro inusitado (em português) e Alta Fidelidad (em espanhol); colabora com
diversos sites: Cronópios, Jornal´Ecos, Portal Vânia Diniz, como colunista;
Revista Honoris Causa; Garganta da Serpente, Recanto das Letras e PD
Literatura.