


Um Instante de Liberdade
Michèle Sato
|
|
Se você correu,
correu, correu tanto |
A lírica acima evidencia um trabalho imenso realizado, que infelizmente não alcança os resultados esperados. Um provérbio popular diria: “nadei tanto para morrer na praia”! Mas contrariando o “filósofo” Raul Seixas, este enredo não pertence somente ao século XXI, pois o legado do mito de Sísifo já foi contado por Homero, nos vestígios da civilização ocidental. A origem do nome Sísifo vem de sophos (sabedoria), especialmente aqueles conhecimentos maquiavélicos, mordazes ou que são competentes em iludir a mais dura das criaturas céticas. Sísifo era inteligente e que até Zeus foi enganado por ele, e este lhe deu um castigo eterno, obrigando-o a empurrar uma enorme rocha da base da montanha ao seu topo, num esforço que desprendia quase toda a sua energia. Ao topo da montanha, entretanto, a rocha rolava abaixo pela ação da gravidade, e um novo ciclo continua em tempo infinito.
A luta ecologista assemelha-se muito à história Sisifiana, desde que ela parece ser pouco audível e nossas experiências parecem ser pedras sobre pedras. Empurramos a pedra, mas ela rola para abaixo destituída pelo sistema que continua orientando o grande “sucesso” humano. No vasto imaginário das pessoas do mundo inteiro, o desenvolvimento foi tido como objetivo de vida, mas esquecemos que ele pode ser a negação do envolvimento educativo e ambiental, e que é emergencial dar uma guinada conceitual à existência planetária.
Entretanto, um fio de esperança surge aos que ainda acreditam no movimento ecologista. Albert Camus não se importava o castigo eterno dado ao Sísifo, mas ele se interessava exatamente naquele instante da descida do morro, quando o instante era marcado como entremeio para que o ciclo de seu castigo se perpetuasse na eternidade. É o semblante sofrido do retorno que lhe possibilita vencer o destino, e ainda que por um único instante, ele vence o peso da rocha, supera suas próprias energias vitais e abate a fatalidade do castigo eterno, permitindo que o instante processual de sua labuta seja uma meta cumprida.
Talvez Camus tenha sido um pensador que lutava para tentar suavizar as dores do mundo, pois reconhecendo a enormidade da violência civilizatória dá um assopro para que a poesia se encha de esperança, ainda que por um único instante. Nossa luta processual não se interessa somente pelo final, e na vaga solidão da memória ecologista, mas essencialmente da liberdade rebelde dos educadores ambientais, o instante permite acreditar que nossa luta jamais será em vão: “Sonhemos sempre, nada nos custa” (CAMUS, 1975, p.451*).
(*) CAMUS, Albert. Prometeu nos infernos. In: SPITTELER et al. Biblioteca mitológica - Prometeu Moderno. Porto: Res Editora, 1975, p. 435-475.
BEIJA-MULHER
Michèle Sato
na escuridão da
imaginação
a asa voa na música noturna
andante assai
molto vivace
entre o esplendor
da beleza
o tremor da delicadeza
voam as notas
rimam linguagens
as folhas dançantes
trazem a mulher da noite
resvalam os sonhos
beijam os pássaros
na viagem ao mundo
o poder da música noturna
opus allegro
finale
cantabile

Andréa Ferraz:
Beija-mulher (para Mimi)
Sou licenciada em Biologia, com mestrado em Filosofia, doutorado em Ciências e pós-doutorado em Educação. Daí minha dificuldade em efetuar minha trajetória em apenas um campo do saber, desde que o entrelaçamento oferece um mosaico colorido, com fios cintilantes e franjas que se emaranham em labirintos. Sou facilitadora das redes de Educação Ambiental, com diversas experiências nacionais e internacionais. Academicamente, minha atuação tem sido na filosofia da arte, com ênfase na fenomenologia e sociopoética; e nas horas de delírio, arrisco-me à aventura das poesias e haikai. Sou movida pelo surrealismo, em especial meu preferido René Magritte, mas para além da escola da arte, aceito o surrealismo como um movimento social que orienta minhas escolhas e opções de vida.