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Apelo de uma Mãe
Lurdinha Danezy
Piantino
Gestão
Compartilhada na Educação?
Ou ”Não adianta, quem manda sou EU!”
Sou Lurdinha, e sou mãe, mãe de três filhos, dois deles ainda estudam em escola pública do DF. O mais novo, Lucio, tem doze anos e tem síndrome de Down.
Desde que Lucio nasceu, luto diariamente pela sua inclusão na sociedade, primeiro preparando sua autonomia através das oportunidades que foram criadas para a promoção do seu desenvolvimento e depois acompanhando, bem de perto, sua vida escolar para garantir que tivesse o respeito necessário que toda pessoa merece.
Luto, todos os dias da minha vida pela promoção social do meu filho e de toda pessoa socialmente instituída como deficiente e, nessa luta, a educação é o alicerce que permite participação e atuação social.
A inclusão é um processo e, no seu decorrer, tivemos muitas conquistas, mas desde que o atual governo assumiu temos visto várias delas serem destruídas pelas arbitrariedades ou pela incompetência dos seus dirigentes.
Na tentativa de frear os desmandos da Secretaria de Educação formamos uma comissão de pais e representantes de entidades que lutam pelos direitos da pessoa com deficiência e desde março do corrente ano estamos participando de reuniões com representantes da Secretaria de Educação tendo, algumas vezes, contado com a presença do próprio secretário Senhor Valente.
Nosso grupo passou horas discutindo e preparando propostas que foram apresentadas à Secretaria de Educação e esta, ao estabelecer as regras, não considerou nossas reivindicações..
O ano foi passando e nos deparamos com outras arbitrariedades. A maior delas é a forma como o governo definiu a eleição para diretores e vice-diretores.
Ao tomarmos conhecimento do chamado Processo de Gestão Compartilhada apresentado pelo governo e, percebendo que poderia ser um processo fraudulento, autoritário e mentiroso decidimos nos posicionar e procuramos, mais uma vez, o diálogo com o governo.
Como forma de divulgar as eleições, o Governo distribui um folheto “explicativo” sobre o Processo Seletivo de Gestão Compartilhada.
As eleições foram marcadas para dia 16 de dezembro, domingo, seria feita via Web (web?) através da distribuição de login (login?) e senhas que seriam entregues aos eleitores em Audiência Pública , a realizar nos dias e horários estabelecidos pelo governo com o tempo de 30 minutos para cada candidato apresentar as propostas.
Mais uma vez não fomos ouvidos e o processo continuou.
Nossas previsões foram acontecendo, uma a uma.
Devido às denúncias de fraude como venda ou troca de senhas por cestas-básicas, o governo decidiu distribuir as senhas somente no dia da eleição, ou seja, domingo, dificultando a participação dos maiores interessados,
Será que os pais de alunos das escolas públicas, na sua maioria composta de classe média baixa, muitos deles analfabetos, sabem o significado da expressão Gestão Compartilhada? Onde está a democracia no processo eleitoral?
Estará o governo realmente interessado na participação de professores, alunos, pais e comunidade na escolha dos diretores?
Hoje saiu uma portaria no Diário Oficial onde torna clara a intenção do governo em nomear diretores.
O processo que já começou capenga e vem, a cada dia mais, apresentando a sua inconsistência como processo democrático.
Enquanto pais, tentamos uma aproximação com a SE para melhorar a escola dos nossos filhos e conseqüentemente o futuro deste país. Infelizmente não é essa a intenção do governo. Nossas crianças não têm o direito à educação de qualidade e nossas reivindicações não foram ouvidas.
A inclusão de pessoas socialmente instituídas como deficientes é uma FARSA.
O Processo de Gestão Compartilhada é uma FARSA.
Até quando os pais terão que lutar pela melhoria da qualidade de ensino? Até quando teremos que gritar e ter nossas vozes abafadas pelos interesses de políticos que não têm compromisso com o povo?
Sai governo, entra governo e a qualidade do ensino piora, a educação está cada vez mais sucateada.
Lamentavelmente o governo Arruda é mais um governo que, pelo visto, não terá a coragem para fazer as mudanças necessárias para que finalmente tenhamos EDUCAÇÃO DE QUALIDADE, com professores de qualidade com remuneração compatível com sua responsabilidade e comprometidos com a educação.
Onde está a alma dos governantes?
Estranho e lamento o fato do Sindicato dos Professores não se envolver nem acompanhar o processo convocando professores e pais para a luta contra o autoritarismo e as arbitrariedades exercidas pelo governo.
Lamento pelos nossos filhos e lamento por nós.
Como mãe peço aos Senhores Governantes, que também são pais, que reconheçam a necessidade e importância da melhoria na qualidade de ensino e da participação de todos na eleição para diretores.
A eleição é justa, deve ser exercida com seriedade, lisura e tempo. Pensem nas crianças, jovens e adultos. Pensem nas pessoas com deficiência e em seus pais. Pensem no Brasil e na democracia e repensem o processo eleitoral. Dêem o tempo necessário para que comunidade e escola possam discutir e entender e exercer o direito, há muito roubado, do exercício da democracia na escolha das pessoas que participam da formação dos nossos filhos.
Pensem no apelo de uma mãe e façam a diferença.
É UMA PENA SENHOR SECRETÁRIO, PENSEI QUE O SENHOR FOSSE VALENTE.(esta é exclusiva para o senhor, não vai para imprensa)
Lurdinha Danezy
Piantino – Mãe
Fone: 92975885
ldanezy9@gmail.com
Lurdinha Danezy Piantino atualmente preside a AMEM - Associação "Mães em Movimento" que tem como objetivo, promover o desenvolvimento das pessoas socialmente instituídas como deficientes, apoiando às famílias, inclusive nas escolas. Escreveu o livro que foi indicado para o Prêmio Jaboti "Cadê a síndrome de down que estava aqui? O gato comeu"
Resposta do Sr. Valente - Secretário de Educação do Distrito federal
Prezada Senhora Lurdinha
Confesso-me estupefato com o que acabo de ler.
Evidentemente que a senhora tem todo o direito de fazer aquilo que o seu coração manda, mas não consigo me identificar na série de afirmações que a senhora faz.
Lamento que uma pessoa esclarecida como a senhora seja capaz de acreditar que neste Governo seja preciso "frear os desmandos da Secretaria de Educação". Desmandos? Que desmandos se a coisa que mais primamos, e a senhora é testemunha, é o diálogo franco, aberto e transparente? O que talvez a senhora não tenha pensado é que, em uma democracia, quase sempre as nossas idéias iniciais acabam sendo adaptadas as da maioria e o que li foi um texto despótico.
A senhora fala que a comissão de pais deu uma série de sugestões que não foram acatadas pela Secretaria. Eu lhe pergunto: quais? Depois que marcamos o início do nosso trabalho conjunto, jamais um pai me procurou para reclamar do seu andamento. Fica simples, então, neste momento, ir para a imprensa alardear que não houve atenção às sugestões. O que seria lógico supor, se o objetivo do diálogo fosse mesmo a construção de soluções, o que hoje, depois de ler o seu texto, sou forçado a duvidar, é que, em alguma coisa não andando bem no diálogo com a equipe técnica, eu fosse contatado para receber a reclamação. Tal fato jamais aconteceu nem mesmo nas nossas diversas conversas telefônicas ocorridas nos últimos dias.
Outra afirmação absolutamente descabida é a de que a forma de definição da eleição para diretores e vice-diretores foi feita com “arbitrariedades" !
Só posso imaginar que uma afirmação como esta carregue o rancor de não ver aprovadas na sua totalidade as suas pretensões, o que, insisto, é um anseio absolutamente incompatível com um ambiente democrático onde TODOS devem se curvar diante da vontade da maioria. Aliás, é exatamente isso o que fizemos no Governo. O projeto inicial de Gestão Compartilhada foi amplamente discutido com a comunidade e terminou aprovado de uma forma muito diferente da sua concepção inicial e, tenho certeza, muito melhor.
A senhora afirma "Mais uma vez não fomos ouvidos e o processo continuou" e eu lhe pergunto: quando a senhora não foi ouvida? A sugestão de retroceder no processo proposto pelo TRE de eleição pela internet foi da senhora. Confesso que não concordo com a sua tese. Entendo-a como um enorme retrocesso e a educação poderia, juntamente com o TRE, ter feito a diferença neste processo e oferecido uma enorme contribuição à sociedade na modernização do processo de eleição. No entanto, mesmo não concordando, entendi que era preciso ouvir a sociedade e lutar para que nada pudesse macular a lisura do processo que, com tanto esforço, desencadeamos.
Seria muito mais fácil, senhora Lurdinha, continuarmos escolhendo os diretores das escolas de acordo com nossas vontades, mas o Governo, que a senhora acusa no seu texto, optou pelo processo democrático, que a senhora faz questão de desconhecer. É claro que ocorrem erros ao longo do processo, mas a simplificação que a senhora tenta trazer é totalmente inadequada, para usar um eufemismo.
As afirmações irônicas que a senhora faz quando se refere as expressões (web?) ou (login?) carregam, para qualquer leitor minimamente esclarecido, um forte preconceito contra as pessoas de mais baixa renda. A senhora imagina que eles não sejam capazes de compreender o que lêem? Não posso acreditar, ainda mais vindo de uma pessoa como a senhora, que imagino esclarecida, e que tantas dificuldades já enfrentou pela vida.
A senhora afirma que suas previsões foram acontecendo, uma a uma. Quais, dona Lurdinha? Quais?
Quando a senhora pergunta se os pais dos alunos serão capazes de entender o que é Gestão Compartilhada a senhora quer dizer que estamos diante de pessoas que, por não terem o mesmo poder aquisitvo que nós, não são capazes? Ou pior, que são menos inteligentes? Ou o que seria ainda mais escandaloso, que não estão a nossa altura, que são seres inferiores? Só para lembrar, Hitler pensava desta forma. Não posso crer que a senhora pense desta maneira.
A sua pergunta a seguir "Estará o governo realmente interessado na participação de professores, alunos, pais e comunidade na escolha dos diretores?” já foi respondida: se estivéssemos dispostos a continuar como parasitas de cargos públicos, teríamos nos fechado nas nossas salas e não precisaríamos ter ido as ruas propor, discutir e aprovar um processo de escolha de dirigentes, inédito no país, alicerçado em dois pilares básicos para a melhoria da escola pública, quais sejam: a capacidade de gestão, avaliada na prova objetiva e de títulos, e a liderança perante a comunidade escolar, entendida aí a comunidade inteira e não apenas professores e funcionários, avaliada a partir de um processo eleitoral comandado pelo próprio TRE.
A crítica que a senhora faz com relação a portaria publicada no Diário Oficial é estarrecedora. A senhora não sabia que a lei que aprovou a Gestão Compartilhada previa que naquelas escolas onde não houvesse candidatos inscritos ou que as equipes inscritas não tivessem sido aprovadas na prova objetiva e de títulos, a escolha seria do Secretário? E, a partir da leitura da Portaria, a senhora não conseguiu identificar que o que este Secretário fez foi exatamente tornar claro e transparente para a sociedade quais seriam os critérios utilizados para efetivar esta escolha? Ou a senhora imagina que o ideal seria chamar alguns "iluminados na calada da noite" e pedir a eles indicações de algum amigo? Certamente, senhora Lurdinha, o Governador Arruda não compactuaria com uma atitude destas. O que ele sempre pede aos seus Secretários é exatamente transparência e diálogo.
Suas afirmações de que o processo "já começou capenga” carecem do mínimo de respaldo técnico. Capenga????? Onde? Um processo onde 570 escolas, de um total de 610 tiveram candidatos inscritos pode ser considerado capenga? Por favor, senhora Lurdinha!!
A acusação de que o Governo não tem intenção de, a partir do diálogo com todos os segmentos da sociedade, melhorar a escola pública é totalmente descabida e denota, mais uma vez, um tom autoritário que perpassa todo o seu texto e que, confesso, deixa-me estupefato. O que fizemos neste tempo todo? Pergunto se a senhora sabe de alguém que deixou de ser recebido por mim? Quando a senhora e o grupo de pais que a acompanhava, recentemente, foi me procurar para tratar de questões ligadas à educação especial, a primeira coisa que fiz foi providenciar a constituição de um grupo de trabalho que incluísse as demais Secretarias de Governo e os próprios pais. Isso não é democrático? Ou seria melhor que, naquele pequeno grupo resolvêssemos tudo. Talvez esta fosse a sua intenção e, pensar que tal fato possa corresponder a realidade deixa-me ainda mais espantado.
Farsa, dona Lurdinha, que a senhora indica como sendo a Inclusão de alunos com deficiência ou o próprio processo de Gestão Compartilhada, são suas afirmações, carregadas de um rancor que não identifico a origem. Até ontem a senhora ligava no meu celular (e eu mesmo atendia) para me dar sugestões de encaminhamento dos vários processos da Secretaria de Educação e agora, por certo porque nem todas as suas vontades eram consensuais e puderam ser atendidas, a senhora nos acusa de farsantes?
Por fim, dona Lurdinha, a resposta a sua pergunta “Até quando os pais terão que lutar pela melhoria da qualidade de ensino?” é: SEMPRE!!!!!. Sempre, dona Lurdinha. Jamais um pai ou uma mãe, com um mínimo de responsabilidade, terá o direito de deixar de lutar pela melhoria da qualidade de ensino dos seus filhos porque este é um valor intangível e inalcançável, sempre propenso a melhorias.
Quanto a sua observação dirigida apenas a mim, e que tem correspondência com o meu sobrenome, apenas tenho a lhe dizer que ser "Valente", no meu modo de ver o mundo, é agir exatamente da forma que eu sempre agi: com lisura, transparência, honestidade e respeito no trato com as pessoas. Lideranças, dona Lurdinha, não se criam por imposições pessoais, mas pelo exemplo de conduta em todas as situações.
Lamento, profundamente, por tudo o que a senhora escreveu.
Esta é a resposta inteira que estará na imprensa em resposta ao seu texto.
Valente.
Secretário de Educação do Distrito federal