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Espaço Ecos entrevista a
médica, escritora e Poeta Lílian Maial
Entrevista concedida à Vânia Moreira Diniz
1 - Lílian querida, você nasceu no Rio de Janeiro e como transcorreu sua infância?
R - Olá, Vânia! Nasci no Rio, mais precisamente na Tijuca, e tive uma infância simples, onde fui muito moleca, de brincar na rua, andar de bicicleta, soltar pipa, brincar de pique-esconde, queimado, jogar bolinha de gude, andar a cavalo na pracinha, essas coisas. Tive algumas perdas ainda muito menina, mas cativar uma amiga desde a tenra infância, amizade essa que perdura até hoje, e que me ajudou a atravessar fases difíceis.
2 - Qual a lembrança mais remota que você consegue alcançar?
R - Minha avó materna me ensinando a me aplicar vacina para asma, via subcutânea. Ela era enfermeira e cuidava de mim, enquanto minha mãe trabalhava. Eu me recordo muito bem dela, embora a tenha perdido aos 5 para 6 anos de idade. Foi quem me inspirou para fazer Medicina.
3 - Que profissão seus pais exerciam?
R- Meu pai, como todo bom árabe, trabalhava com comércio até a idade madura, quando decidiu seguir Direito. Infelizmente faleceu no mês seguinte à formatura, aos 51 anos, de morte súbita. Minha mãe foi secretária a vida toda. Lutaram sempre com muita dificuldade, mas foram muito felizes e me passaram valores inestimáveis.
4-Como médica, houve algum fato que a predispôs ou realmente sentiu essa vocação espontaneamente e sem uma razão determinada?
R- Como citei, minha avó materna foi fundamental no meu gosto pela área da Saúde. Além disso, meu pai quis ser médico, mas não pôde continuar os estudos quando jovem, porque precisou trabalhar desde novo. Ele tinha muita vontade que eu fosse médica, e sei que dei muito orgulho a ele com a minha escolha. O mais engraçado é que pelo fato de eu precisar aprender a lidar com seringas, por conta da asma acentuada na infância, todo mundo dizia que eu “levava jeito, que certamente seria médica”... mal sabiam que eu tinha que lidar com aquilo, para meu alívio do sofrimento...
5 - Escrevendo desde criança sentia isso como necessidade?
R - Ah, sim! Escrever era como pensar alto, era como dialogar com a outra que me habitava, aquela que guardava os segredos todos, as insanidades, as verdades, conhecia as mentiras, me escancarava as dores, disfarçava olheiras e me entendia. E era através dos versos que eu gritava o que a voz calava.
6 - E quais os primeiros autores que leu?
R - Por incrível que pareça, Machado de Assis, Érico Veríssimo e Henriqueta Lisboa. Na escola que eu freqüentei o primeiro grau, desde cedo era costume a leitura quinzenal de um clássico. Eu achava chato Veríssimo, mas me apaixonei por Machado de Assis e a Lisboa. Logo depois, lá pelo que hoje seria a sétima e oitava séries (no meu tempo era ginásio), foi a vez de Eça de Queiroz.
No segundo grau, veio uma paixão forte por Cecília Meireles e Fernando Pessoa, autores que li a obra na íntegra. Mais próximo ao vestibular, fui descobrindo as maravilhas de Guimarães Rosa, João Cabral de Mello Neto, Autran Dourado, Jorge Amado, Lygia Fagundes Teles, Clarice Lispector.
7 - Qual o livro que mais a impressionou?
R - Não houve um que tenha me impressionado mais. Os que me iniciaram no mundo de viagens foram: Dom Casmurro, Um Certo Capitão Rodrigo e Os Maias. Na poesia, toda a obra de Cecília e Pessoa.
8 - A partir de 1998 começou a expor seus trabalhos na Internet. Como tudo começou?
R - Você vai rir, mas creio que todos os “poetas virtuais” como que começaram de maneira semelhante. Eu já possuía microcomputador desde 1996, mas não tinha Internet, usava apenas para trabalhos médicos e apresentações. Um dia, numa revista, veio um CD de instalação de uma oferta de teste de um provedor. Resolvi testar e gostei. Assinei e comecei a usar para pesquisas médicas e literárias. Comecei a entrar em sites de literatura e verifiquei que havia poemas bem ruinzinhos, outros bons, e arrisquei enviar um ou outro, e tive ótima receptividade. A partir daí, não parei mais, e fui estudando e praticando, fazendo amizades com os que, como eu, também se aventuravam a expor o que produziam.
9 - Participou de muitas antologias, quais foram elas? Acho que seus leitores gostariam que você mesmo contasse.
R - Comecei com a antologia de um dos primeiros sites que publiquei, que foi o Ponto de Vista, em 1999. Em 2000 já publicava o meu primeiro livro de poemas, o “Enfim, renasci!”. Depois, a antologia EROS de poemas sensuais, pela PD Literatura. Antologia Cantinho do Poeta, em 2001. Antologia Palavras Azuis vols I e II. Me filiei à REBRA (Rede de Escritoras Brasileiras) e já participei de 4 antologias, uma por ano. Teve ainda a Antologia Poetrix, a Antologia VMD (risos), Antologia Ateneu... acho que estou esquecendo algumas... risos.. e organizei um e-book de poetrix, com excelentes poetrixtas do MIP (Movimento Internacional Poetrix).
10 - Começou a se interessar pelo poetrix em que época e porque sentiu essa atração? A “Antologia Poetrix” foi lançada em muitos estados , não é verdade?
R - Poetrix é uma paixão antiga, que já dura bem uns 6 anos... conheci a Sara fazib numa lista de literatura, e ela me apresentou ao terceto tropical, que o poeta baiano Goulart Gomes denominou poetrix, após dissidência de grupo de haikais. Foi amor à primeira vista. O danado do poetrix é um vício. O bom poetrix é dificílimo de ser conseguido, exigindo exercícios de concisão e semântica contínuos. O Movimento Internacional Poetrix tornou-se uma realidade, e hoje é (re)conhecido no mundo inteiro. Freqüentei uma oficina de poetrix por uns 3 anos, liderada pelo Goulart, de onde saíram os maiores nomes do poetrix no Brasil e em Portugal. O lançamento foi um sucesso na Bahia, Ceará, São Paulo, Rio, Minas.
11 - Como coordenadora Do Movimento Internacional Poetrix- seção Rio de janeiro o que mais a realizou?
R - O que mais me realizou (e ainda realiza) é perceber a difusão do poetrix por todo o país. Lembro-me de uma conferência em São Paulo, há uns 4 anos, quando alguns jornalistas e críticos literários bombardearam a mesa, composta por nós, os representantes regionais, alegando que poetrix não existia, que era invenção de moda do baiano, numa postura agressiva e preconceituosa. Quando citamos poetas do quilate de Leminsky como poetrixtas que faziam poetrix sem saber, quase fomos fuzilados. Hoje em dia, poetas que curtem tercetos já aceitam e praticam o poetrix abertamente. Ele veio pra ficar.
12 - Seu primeiro livro, realmente muito lindo, “Enfim renasci” foi publicado em que ano e qual a sensação que sentiu ao recebê-lo?
R - Ele foi publicado em julho de 2000, reunindo 135 poemas (eram 3 livros originalmente) da safra de 1996 a 1999. Participei ativamente da elaboração de cada etapa do livro, desde sua revisão, diagramação, editoração, escolha de capa, tudo! No dia em que fui chamada na editora para abrir a primeira caixa, foi como um trabalho de parto. O editor me deixou abrir a caixa sozinha e pegar no colo o primeiro volume. Não preciso dizer que me emocionei, acariciei, cheirei e até lambi o livro, como se faz com a cria. Podem se passar décadas, posso publicar dezenas de outros livros, mas nunca esquecerei do cheiro do meu primeiro livro e de sua textura.
13 - O Título foi inspirado em algumas poesias do livro ou em uma fase de sua vida?
R - O título teve a ver com um profundo mergulho que dei para dentro de mim, quando quebrei a armadura, rompi o casulo, saí da casca e renasci. Como diz o poema-título, num parto ao inverso...
14 - Faz parte da REBRA, e foi e está sendo importante para você a participação nessa maravilhosa rede?
R - Sem dúvida! A literatura brasileira sempre discriminou a mulher, e a REBRA vem fazendo um belo trabalho de divulgação do talento feminino, tanto em verso, quanto em prosa. E são muitos! Se você tiver o cuidado de ler todas as antologias que a REBRA lançou nesses poucos anos de existência, verá que talento é o que não falta às mulheres escritoras do nosso país, espalhadas pelos estados e até pelo mundo.
15 - Poderia falar de sua colaboração em tantos sites da internet?
R - A Internet abre muitas portas para quem curte escrever. Você pode estar presente em sites de amigos, em sites próprios, em revistas eletrônicas e jornais. Através da Internet descobri que podia escrever contos, crônicas, poemas, cordel e até artigos políticos e de cunho social. Já escrevi (e ainda escrevo) para diversos desses sites (inclusive os de Vânia Moreira Diniz...), com participações como poeta, escritora e médica, contribuindo também com dicas de saúde.
16 - O que acha da internet para a divulgação e nascimento de escritores e Poetas?
R - Uma faca de dois gumes. A Internet abre as portas para muita coisa, facilita ler e ser lido, mas também costuma atrofiar outras. Explico: quando se começa a escrever, se quer a aceitação, o elogio, a certeza de que se faz algo de bom. Acontece que acabamos nos tornando amigos dos outros escritores, e a crítica, tão necessária ao aprimoramento, desaparece, até por receio de se magoar o “amigo”. Assim, segue-se escrevendo textos cada vez menos criticados, e a cada dia aumentando a produção, com a conseqüente queda da qualidade. Sofri isso na pele. Você se sente “cobrado” em sua produção pelas listas e sites, e acaba liberando textos e poemas que deveriam ser melhor trabalhados. Um bom poema deve ser guardado e relido inúmeras vezes, retocado, burilado, lapidado, até poder ser liberado. Poucos fazem isso na rede. A maioria escreve de pronto e publica. Resultado: poemas sem cunho literário, medíocres, pueris, com vocabulário pobre e até erros crassos de concordância. Então nos atrofiamos, deixamos de estudar e de procurar a famigerada crítica, por pura vaidade e acomodação.
17 - Qual o sonho que mais perseguiu ou persegue sua fantasia?
R - Traduzir poemas e publicar no exterior. Descobri que muitos de meus poemas ficam lindos em espanhol, por exemplo, e que a Espanha adora a poesia brasileira...
18 - Como poeta, escritora, médica e extraordinária figura humana, poderiam nos dar seu conceito de felicidade? O que é ser feliz?
R - Felicidade é algo que já deixou muito filósofo de cabelo branco, passando uma vida inteira tentando descobrir o que é. Segundo Schöpenhauer, seria a “ausência de dor”. Não havendo dor de qualquer espécie, há felicidade. Mas, cá pra nós, quando é que o ser humano está sem algum tipo de dor? Sem ser tão radical, diria que felicidade é você saber exatamente seu lugar na natureza. Se você reconhece seu papel no mundo, você está bem consigo mesmo e, portanto, feliz. O difícil é conseguir entender que você é o grão de areia e o oceano, que é a poeira e o cosmo, que é o verso e o poema todo, que é humana e é deus.
Minha querida Lílian, o espaço agora é seu, sem limites , se quiser falar aos seus leitores ou dizer algo especial nesse momento em que o mundo apresenta tantos contrastes. E muito obrigada por ter concedido essa entrevista ao Jornal Ecos, que se orgulha muito de sua participação.
R - Eu é que agradeço o convite a você, Vânia, que desde o meu começo na Internet acreditou no meu trabalho, ofereceu sua amizade, seu carinho, seu apoio. São pessoas como você e outras tantas que me surgiram, que dão a força necessária pra continuar e aprimorar, que confirmam que “tudo vale a pena, se a alma não é pequena”.
Aos leitores, objeto da minha pena, agradeço a fidelidade, a troca de experiências, as dicas, os recados, o respeito, a visita aos meus sites e blogs, a compra dos livros... risos...
Aos brasileiros, de maneira geral, que estejam atentos às armadilhas da mídia, ao “pão e circo” que se nos impõem, às verdadeiras intenções dos gritos e dos silêncios repentinos, ao que está por trás do que está sempre tão evidente. Que se agrupem e discutam os rumos do país, que não deixem para os outros a decisão do que é de nossa responsabilidade. Que não voltemos as costas aos problemas da nação, como se não tivéssemos nada a ver com isso, porque é do nosso voto, da nossa propaganda boca-a-boca, da nossa discussão, que sairão os novos representantes da nação, os condutores do futuro imediato do país e, portanto, de nossas vidas.
Grande abraço e meus agradecimentos,
Lílian Maial