Filosofia - Colaboradores
(coordenado Por Virgínia Fulber)
e Com a colaboração de autores convidados.

Amor Capital
Amauri Ferreira

"Ter obrigação de amar, como via da salvação, como medo de perder o outro, como prestação de contas à sociedade (“oh, como ele se preocupa com os outros”), é algo que soa estranho, antinatural. Beethoven foi obrigado a amar a música? Nietzsche sentiu-se obrigado a amar o conhecimento? Dever amar é moral; querer amar é ético, ou melhor, poder amar é algo para ser conquistado. Portanto, ser ético é uma conquista... Toda conquista exige esforço, foco no que se passa: amar a relação que se compõe conosco pode ser uma via para entendermos aquilo que nos torna mais capazes de sermos produtivos, de gozarmos com as nossas próprias criações, afirmando também o outro naquilo que ele pode, não naquilo que ele deve..." Amauri

A reprodução da falta é o modo que as sociedades capitalistas se constituem: nelas, o indivíduo é valorizado pela sua capacidade de subserviência às “verdades” que fundamentaram a modernidade. A lei que protege as propriedades, a “liberdade” como trabalhador, eleitor e consumidor, fizeram com que esse animal domesticado atingisse um nível de impotência absolutamente inédito na história humana: tornou-se um animal que deseja, cada vez mais, ser mimado. Suas exigências desconhecem limites. Como ele adora promessas! Como ele insiste em enganar os seus instintos! Esse animal passivo está habituado a sempre exigir algo em troca - algo que está relacionado, evidentemente, a um aumento de prazer. É assim, por exemplo, com a relação empregador-empregado: quanto mais o empregado dedica-se aos objetivos da instituição, mais mimado fica. E como isso funciona! O empregado existe somente para gerar riquezas para o seu empregador: quanto maior o capital, maior o investimento na produção, na aquisição de sofisticados equipamentos técnicos, na expansão nos negócios, no investimento em publicidade, nas ações motivadoras para os funcionários, etc. A roda não pode parar de girar: produzir por produzir. Trata-se do coração do capital: mas isso não é confessado...

Relação entre passivos: um é passivo porque acredita que uma vida prazerosa pode ser conquistada através da exploração da mão-de-obra disponível no mercado, apelando, cinicamente, para os mais diversos dispositivos de manutenção da produção de capital, como, por exemplo, os graus de hierarquia, as premiações, os salários, as advertências e suspensões, tornando-se evidente a distinção do que é um “bom” e um “mau” funcionário para a instituição; o outro é também passivo, porque submete-se ao modelo de “bom” funcionário, investindo as suas energias (e seu dinheiro) na sua contínua educação funcional (educação para produzir capital), na esperança de diminuir as chances de ser demitido. Dores pelo corpo, insônia, depressão, isso tudo tem um preço: com o salário que recebe, o passivo quer - é fácil perceber - ter momentos de descanso e prazer... passivamente! Bem-vindo ao mundo do consumismo! Quanto mais dinheiro em mãos, maior prazer! A indústria pornográfica, os aparelhos eletroeletrônicos, os automóveis, as viagens e uma enorme quantidade de opções prazerosas estão à disposição para quem tem condições de adquiri-las. Não há dúvida que o consumo de álcool e outras substâncias que têm efeito anestésico são muito bem-vindos para manter as pessoas reproduzindo capital: executivos que, de tão estressados, consomem substâncias tóxicas para agüentar um ritmo de vida cada vez mais desumano; operários que se entopem de bebidas alcoólicas fora do expediente, mas na segunda-feira estarão na porta da fábrica, prontos para mais um dia de trabalho. Portanto, para aquele que não sabe o que é agir, sempre falta algum objeto: é assim para o capitalista, para o funcionário, para quem está excluído do mercado de trabalho (e, nesse caso, a posse dos objetos de prazer através dos furtos, roubos e assassinatos, pode nos dar a idéia de que o capitalismo está produzindo o que irá destruir-lhe: a miséria incontrolável e a ira dos excluídos).

2.

O processo de apropriação é também o motor da maioria das relações amorosas: o objeto desejado, o objeto que falta, o objeto perfeito, o objeto que irá fornecer maior felicidade. O foco está sempre no objeto. Quando não o possui, exige-se para si aquilo que o outro goza: no desespero, deseja-se até roubá-lo, nem que para isso tenha que matar. Na posse do objeto dos sonhos e absolutamente submetido às paixões, o indivíduo passivo quer ter a certeza que o outro lhe ama. “Diga, diga logo que me ama! Outra vez! Mais alto! Diga que você me ama!”. Ele quer provas irrefutáveis de um afeto que é tão estranho a ele: quer gestos e palavras que não deixam a menor dúvida de que é amado. “Sim, agora eu sei que você me ama!”. Finalmente, sente-se mais seguro. O caos foi controlado. O Sol voltou a brilhar. Tudo poderá ser planejado: filhos, casamento, casa para viverem juntos, velhice a dois... Mas um “amor” assim não é eterno, pois as “provas” nunca serão definitivas: logo surge um sentimento de tristeza aqui, uma decepção ali. “Mas se você me amasse, não teria feito aquilo!”. As provas, já que possuem validade, passam a ser exigidas diariamente. “Quero que você diga que me ama todos os dias!”. E mesmo quando essa exigência é seguida à risca, surge um vazio, um tédio. “Eu não agüento mais tanta mimação! Vou pedir um tempo!”. Exigências, cobranças, insatisfação com o outro: aquele que é passivo sempre luta contra a realidade, pois ele quer moldar o outro ao seu desejo, quer que o outro cumpra o papel que é exigido socialmente: seja o papel de “homem”, de “mulher”, de “marido”, de “esposa”, de “pai”, de “mãe”, de “funcionário público”, de “médico”, de “professor”, de “arquiteto”, de “intelectual”, de “artista”, de “escritor”... Quando há adaptação ao modelo, torna-se menos complicada a tarefa de separar o competente do incompetente, o bom do ruim. E quem é que deseja adaptar os outros ao modelo? Sempre, sempre ele, o indivíduo preguiçoso, o que não é ativo, o que quer ser abastecido... Mas ele, que exige tanta competência, também já está adaptado ao modelo de tirano: eis que, no mundo moderno, o próprio capitalista é também um servo, pois ele também é um produto, tornando-se uma peça indispensável para o funcionamento da máquina de acumulação. A palavra “senhor”, nesse caso, é apenas uma representação de uma força que não é dominante nele.

Portanto, acredita-se que escrever “errado” não é uma atitude que se espera de um escritor; desobedecer um programa pedagógico “correto” não é uma atitude que se espera de um professor; estar desempregado não é uma situação que se espera de um pai; não se preocupar com a educação dos filhos não é uma atitude que se espera de uma mãe; não mandar flores, não escrever cartas amáveis, não dizer “eu te amo”, não são atitudes que se espera de um marido; não estar sempre atraente e bonita não são atitudes que se espera de uma esposa. Desejar que alguém comporte-se de maneira “adequada” é uma postura de poder sobre o outro, de agir sobre o desejo do outro, de submeter o outro aos seus próprios interesses mesquinhos, é negar ao outro a livre expressão da sua singularidade, induzindo-o a agir de maneira agradável e dócil, acusando-o das atitudes insensatas, introduzindo o terrível sentimento de culpa. “Sim, eu sou culpado. Eu errei. Perdoe-me! A partir de agora serei obediente!”. Dessa forma, o indivíduo passivo tem uma relação íntima com o poder. Não é assim que todo déspota age? Não é o déspota que deseja usufruir as riquezas que os outros lhe fornecem? Não é ele quem pune os que não se adaptam aos seus desejos e recompensa os que melhor se adaptam?... É preciso ter coragem para chegar ao ponto de admitir isso: o déspota tão amaldiçoado, tão medonho, tão funesto, tão detestável, vive em nós... Nós, os modernos; nós, os democratas; nós, os justos; nós, os cidadãos de bem: o progresso, a ciência, a democracia, a justiça e outras “verdades”, estão a serviço da reprodução de capital. Isso não é confessado...

3.

Houve um afeto de prazer que foi experimentado, que deu nova energia para viver, mas que não passa de uma pura recordação, que o ressentido deseja conservar viva na sua memória. Se ele atribui a causa desse afeto a um objeto - e esse objeto não existe mais -, ele ressente o afeto de prazer ligado àquela imagem, acreditando que, dessa forma, o seu desejo não é preenchido, surgindo uma carência afetiva que pode tomar proporções desastrosas. Uma pessoa, um doce, algumas gramas de cocaína, uma aposta no bingo, um televisor de última geração, uma vitória do time de futebol, enfim, objetos, imagens, afetos que podem transformar-se na única cura das dores de um angustiante tempo presente... Como é difícil vivê-lo! Como é difícil ser ativo! Como é difícil ser o autor da própria obra!

É pelo ressentimento que age, por exemplo, a publicidade. Não há anúncio publicitário que não ligue uma imagem a um aumento de potência. O que a publicidade quer dizer para nós é que a nossa vida, tal como nos encontramos, pode ser potencializada, melhorada, prazerosa, se consumirmos uma determinada mercadoria. Isso funciona sempre como uma promessa de uma vida melhor que está – adivinhem! - ao nosso alcance. A felicidade está no “outro mundo”? Não, está neste mundo! Nele, teremos, no mínimo, algum instante de prazer, pois para o ressentido um instante de prazer é melhor do que nenhum prazer... “Que alegria! Encontrei o amor da minha vida!”. Ao obter a tão desejada mercadoria, cai-se num vazio, pois a sensação de prazer é efêmera demais e o objeto perde o seu encanto. Não há mais sentido para ficar bem vestido, cuidar da aparência: o casamento vira um inferno, o “príncipe encantado”, charmoso e perfumado de outros tempos, transformou-se num consumidor voraz de álcool, tornando-se barrigudo e fedorento. O encanto foi totalmente desfeito. A realidade é mais dura. Mas o encanto funcionou como tinha que funcionar: como objetivo a ser alcançado, como sentido de vida. Sim, pois para o ressentido a vida ganhou um sentido! Avante na conquista do que lhe dará prazer! desejo como falta!... O capitalismo agradece!

4.

Ter obrigação de amar, como via da salvação, como medo de perder o outro, como prestação de contas à sociedade (“oh, como ele se preocupa com os outros”), é algo que soa estranho, antinatural. Beethoven foi obrigado a amar a música? Nietzsche sentiu-se obrigado a amar o conhecimento? Dever amar é moral; querer amar é ético, ou melhor, poder amar é algo para ser conquistado. Portanto, ser ético é uma conquista... O tipo dominante - o ressentido - faz apenas uma imagem do amor e da alegria: ele ainda não entendeu o que é o amor. Toda conquista exige esforço, foco no que se passa: amar a relação que se compõe conosco pode ser uma via para entendermos aquilo que nos torna mais capazes de sermos produtivos, de gozarmos com as nossas próprias criações, afirmando também o outro naquilo que ele pode, não naquilo que ele deve... O amor universal - amor a tudo que vive - não é um mandamento: é uma postura de vida, um aprendizado, um exercício de potência mesmo. Não aprendemos a amar em nenhuma escola, mas pelas nossas próprias experiências, pelas relações que nos produzem... “Amor ao destino”, de Nietzsche: para chegarmos a isso, para vivermos isso, não existe fórmula milagrosa, promessa, “alma gêmea”, mercadoria: é preciso estar aberto a todas as experiências que, queiramos ou não, passamos. Já não é mais um efêmero prazer ligado a uma paixão que é necessário conservar, mas é o prazer ligado à potência de agir, de conectar-se com o real, de singularizar-se. A vida, com todo o seu o acaso, não é uma inimiga para ser acusada, mas uma doadora de presentes. Afinal, existe maior dádiva do que viver no tempo presente, onde tudo está mudando?

 

- Amauri Ferreira tem produções na Escola Nômade de Filosofia

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Amauri Ferreira, é escritor e filósofo; coordena grupos de estudos de filosofia pela Escola Nômade.


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