

Filosofia - Colaboradores
(coordenado Por Virgínia Fulber)
e Com a colaboração de autores convidados.

Caminhar
Amauri Ferreira
Caminhar é um ato solitário. O caminhante tem sede por
exploração. Durante o seu percurso em terras desconhecidas, ele é acompanhado
por sensações que lhe fazem cantar, interiormente, músicas imaginadas e
inventadas, e que são cada vez mais intensas quando o seu corpo exprime um novo
ritmo alcançado. Ele percebe que durante a experiência de caminhar sem um rumo
definido, a sua memória é convocada para dançar junto com o seu corpo.
Não, a solidão do caminhante não é uma covardia, como provavelmente muitos podem
imaginar. Trata-se, na verdade, de uma permissão para que a sua solidão seja
povoada por imagens, ritmos, afetos, memórias e percepções, que parecem exalar
de alguém que, gradualmente, abandona uma desarmonia de movimentos que
condicionavam o seu corpo para, somente assim, conquistar a liberdade de criar
novos movimentos. Podemos dizer que o caminhante é inevitavelmente um amante do
conhecimento. Em razão disso, ele recorre à escrita para expressar os seus
pensamentos que já nasceram caminhando. Afinal de contas, o caminhante-escritor
sabe que o sentido mais elevado da escrita é o de mudar a vida de quem lê
os seus escritos. E, além disso, ele também sabe que a leitura, por ser um ato
solitário, necessita de uma escrita honesta, isto é, uma escrita
que ajude o leitor a amar a sua própria solidão.
Amauri Ferreira, é escritor e filósofo; coordena grupos de estudos de filosofia pela Escola Nômade.