

Filosofia - Colaboradores
(coordenado Por Virgínia Fulber)
e Com a colaboração de autores convidados.
Conhecimento e
liberdade em Spinoza *
Por Amauri Ferreira
* trecho extraído do livro Introdução à filosofia de Spinoza
Como é impossível que o homem não seja uma parte da natureza, não haveria, em um primeiro momento, qualquer possibilidade de ele ter uma vida livre. Como há, apenas em um certo sentido, uma oposição entre os indivíduos (já que um indivíduo pode decompor outro), restaria ao homem encontrar a sua liberdade em outro mundo, transcendente. Impotente para regular e refrear as paixões, restaria ao homem negar o testemunho dos sentidos do seu corpo e crer na imortalidade da sua alma.
Como combate à todo modo de viver que nega o corpo – e as paixões –, Spinoza nos diz que a liberdade não está em outro mundo, mas neste mundo mesmo. Viver de modo livre consiste, basicamente, na efetuação da capacidade que a nossa mente possui para regular e refrear as paixões. A potência do intelecto corresponde à liberdade humana. Conhecimento e liberdade.
Essa potência de conhecer adequadamente, pelo segundo gênero de conhecimento, exprime-se da seguinte maneira: a nossa mente passa a ligar as imagens ou afecções do corpo humano à ordem do entendimento. A idéia adequada apenas surge quando podemos selecionar as afecções que combinam com a nossa relação característica: “Durante o tempo em que não estamos tomados por afetos que são contrários à nossa natureza, nós temos o poder de ordenar e concatenar as afecções do corpo segundo a ordem própria do intelecto” (Ética, 5, Prop. 10). Deixamos de amar ou odiar uma causa exterior quando a nossa mente liga a produção desses afetos-paixões às suas causas reais, ou seja, às causas relacionadas à conveniência ou não de um certa mistura entre o nosso corpo e outros corpos: “Se separamos uma emoção do ânimo, ou seja, um afeto, do pensamento da causa exterior, e a ligamos a outros pensamentos, então o amor ou o ódio para com a causa exterior, bem como as flutuações de ânimo, que provêm desses afetos, serão destruídos” (Ética, 5, Prop. 2). De um conhecimento imaginário, que é fonte das ilusões da consciência, a nossa mente passa a ligar a produção dos afetos-paixões às causas reais, ou seja, ao encadeamento infinito de corpos do modo infinito mediato. Dos infinitos corpos que existem na natureza, alguns podem combinar ou não com a nossa natureza (noção comum menos geral). A nossa mente produz uma idéia clara e distinta dos afetos-paixões, o que nos faz padecer menos das excitações e das tristezas: “Portanto, um afeto está tanto mais sob nosso poder, e a mente padece tanto menos, por sua causa, quanto mais nós o conhecemos” (Ética, 5, Prop. 3, cor.); “[...] segue-se que cada um tem o poder, se não absoluto, ao menos parcial, de compreender a si mesmo e de compreender os seus afetos, clara e distintamente e, conseqüentemente, de fazer com que padeça menos por sua causa” (Ética, 5, Prop. 4, esc.). Portanto, quanto mais a mente conhece a produção das paixões, mais ela é capaz de ordenar as afecções a seu favor. Trata-se de um conhecimento dos afetos-paixões que somos capazes.
Como é possível perceber, o remédio para as paixões não está, portanto, na crença em um mundo transcendente ou em algum salvador, mas sim na potência que a nossa mente tem para compreender, para formar as noções comuns. Através do entendimento, podemos evitar a ambição, a gula, a embriaguez, o ódio, a inveja, a comiseração, a vingança e outras paixões que são nocivas: passamos a refrear essas paixões através do desejo ativo de firmeza. Portanto, o remédio para as paixões chama-se conhecimento: “E, por isso, não se pode imaginar nenhum outro remédio que dependa de nosso poder que seja melhor para os afetos do que aquele que consiste no verdadeiro conhecimento deles, pois não existe nenhuma outra potência da mente que não seja a de pensar e de formar idéias adequadas” (Ética, 5, Prop. 4, esc.). Como há uma capacidade real da nossa mente para conhecer e ordenar as afecções do corpo, ao efetuarmos isso, ficamos alegres com a nossa própria potência.
Quando a mente conhece as coisas adequadamente concebe tudo como necessário, pois tudo na natureza segue uma ordem desejante: “A mente compreende que todas as coisas são necessárias, e que são determinadas a existir e a operar em virtude de uma concatenação infinita de causas. Portanto, à medida que compreende isso, a mente padece menos dos afetos que provêm das coisas e é menos afetada por elas” (Ética, 5, Prop. 6, dem.). O homem livre não se deixa abalar pelos afetos de esperança e medo porque a sua mente concebe as coisas de modo eterno (um afeto mais forte), o que lhe faz viver de modo tranqüilo e sereno: “Tudo o que a mente concebe sob a condução da razão, concebe-o sob a mesma perspectiva da eternidade ou da necessidade, e é afetada pela mesma certeza. [...] Portanto, à medida que a mente concebe as coisas segundo o ditame da razão, ela é afetada da mesma maneira, quer se trate da idéia de uma coisa futura ou passada, quer de uma coisa presente” (Ética, 4, Prop. 62, dem.). A mente compreende que o encadeamento das coisas é necessário, independente das vicissitudes do tempo, pois considera algo sempre presente nas coisas, isto é, a produção desejante da natureza. A diferença fundamental entre o homem livre e o homem que está na servidão é que este, por viver de modo ignorante, padece das paixões produzidas no encadeamento desejante de todas as coisas (é o lamuriento, o ressentido, o homem-Estado, etc.), e aquele, por ter idéias adequadas, age e interfere no encadeamento desejante, gerando uma variação no que estava estabelecido, de modo a favorecer a sua potência.
É evidente que existe apenas composição na natureza, mesmo nos encontros que decompõem partes do nosso corpo ou que nos aniquila (noção comum mais geral). Por exemplo: a morte pode ser um mau encontro para mim, mas é um bom encontro para o veneno que a produz, já que ele se compõe com algumas partes do meu corpo. O nascimento, a morte e tudo que se passa conosco apenas são efetuados porque há uma relação constante de movimento e repouso, de velocidade e lentidão entre os corpos. Afinal, a natureza não age por finalidade, não age em vista do nosso bem. Ora, o conhecimento do segundo gênero implica um conhecimento sob um certo aspecto de eternidade: a existência das coisas é uma verdade eterna. Nunca haverá interrupção na produção da existência das coisas.
A mente que é ativa padece menos dos afetos de tristeza
Quando somos livres, agimos diretamente nos encadeamentos dos corpos ao modificar as condições dadas, o que produz as condições de efetuação de tudo o que pode derivar da nossa própria potência. Por sermos ativos, padecemos menos dos afetos de tristeza que surgem nesse encadeamento. Dessa maneira, a tristeza pela perda de um bem, por exemplo, torna-se menor quando a ligamos a muitas e diferentes causas que a produziram: “Com efeito, vemos que a tristeza advinda da perda de um bem diminui assim que o homem que o perdeu dá-se conta de que não havia nenhum meio de poder conservá-lo” (Ética, 5, Prop. 6, esc.). Nós somos uma parte da natureza, cuja potência é apenas uma parte da infinita potência da substância, portanto, é impossível não sermos afetados por acontecimentos que são contrários ao nosso esforço: “A potência humana é, entretanto, bastante limitada, sendo infinitamente superada pela potência das causas exteriores. Por isso, não temos o poder absoluto de adaptar as coisas exteriores ao nosso uso. Contudo, suportaremos com equanimidade os acontecimentos contrários ao que postula o princípio de atender à nossa utilidade, se tivermos consciência de que fizemos nosso trabalho; de que nossa potência não foi suficiente para poder evitá-las; e de que somos uma parte da natureza inteira, cuja ordem seguimos. Se compreendemos isso clara e distintamente, aquela parte de nós mesmos que é definida pela inteligência, isto é, a nossa melhor parte, se satisfará plenamente com isso e se esforçará por perseverar nessa satisfação” (Ética, 4, Apêndice, cap. 32).
Mesmo pelo conhecimento imaginário experimentamos uma tristeza menor por simplesmente imaginarmos um número maior de causas de algo que aconteceu conosco. Assim, a tristeza causada pela morte de um idoso, por exemplo, torna-se menos intensa (por ser possível imaginarmos um número maior de causas) do que a tristeza pela morte de um jovem, ou, então, a morte de alguém por uma doença pode nos afetar menos do que a morte de alguém por assassinato: “Um afeto é mau ou nocivo apenas à medida que impede a mente de poder pensar. Por isso, o afeto que determina a mente a considerar muitos objetos ao mesmo tempo é menos nocivo do que outro afeto, tão forte quanto o primeiro, que ocupa a mente na contemplação de um só ou de poucos objetos, de tal maneira que ela não possa pensar em outros“ (Ética, 5, Prop. 9, dem.). Também através da imaginação, quando sofremos um mau encontro e a nossa mente considera um número menor de causas, padecemos mais, nos entristecemos mais: é o luto, a ira, a vingança. Passamos a imaginar que a causa da nossa tristeza está na “má intenção” de alguém. Retomamos a fórmula de Spinoza: na tristeza ficamos sempre impotentes para pensar e agir, por isso ela é uma paixão nociva. Enquanto estamos sob o domínio da tristeza, desejamos acusar, encontrar culpados, nos vingar. Eis o ponto fundamental que caracteriza o homem que está na servidão: quando não entendemos a ordem comum da natureza, negamos a vida e o acaso, e sentimo-nos injustiçados por um prejuízo que tivemos.
Através do segundo gênero de conhecimento, compreendemos que a ordem é sempre a mesma. Existem causas reais que vão ao infinito, seja da nossa doença (causada por um vírus que foi contraído por causa de uma mudança na temperatura do ambiente, ou pela má alimentação, etc.), seja da morte de um indivíduo provocada por alguém que estava dominado pelo ódio e pela vingança. Ora, é evidente que há uma produção social da tristeza, à medida que o poder (constituído pelos homens tristes) precisa da tristeza das pessoas para ser desejado: eis a denúncia de Spinoza. Se numa determinada sociedade há muitos indivíduos que vivem submetidos às relações que não combinam com a sua natureza, é evidente que, durante a maior parte da vida, eles tenham um constrangimento cada vez maior da sua potência de agir e de pensar, e tornam-se cada vez mais ignorantes dos afetos que são capazes, excedendo, muitas vezes, a capacidade de serem modificados; além disso, por viverem tristes e impotentes, estão muito vulneráveis aos afetos de ódio, ira, vingança e outras paixões nocivas, isto é, estão também muito próximos de desejar eliminar a causa imaginária dos seus males, mesmo que seja através da morte de alguém. Um indivíduo que vive atolado em um modo de vida triste (nas relações profissionais, na família, na escola, etc.), pode imaginar a causa da sua tristeza em qualquer um que lhe dê motivo para isso e, dominado pela ira, pode querer eliminar a suposta causa da sua tristeza. Spinoza destrói a concepção de que existiria uma essência do mal e do bem nas coisas e nas pessoas. Há, apenas, bons e maus encontros. A alegria, a tristeza, o desejo, e outros afetos-paixões são produzidos nas relações. Não há dúvida de que os índices de homicídio de uma sociedade são sempre sintomas da sua decadência, de uma reprodução incessante da tristeza. Tal sociedade, ao organizar os indivíduos de diversas maneiras utilitárias, esmaga a singularidade de cada um deles.
Portanto, quando a mente liga às causas reais, padece menos. A tristeza pela perda de um bem é apenas uma passagem que não chega a contaminar: assim, quando somos livres, é muito mais difícil que da tristeza surja um ódio, porque compreendemos que existem causas reais dos afetos-paixões que são produzidos em nós. Sabendo disso, podemos evitar o afeto de ódio para com os outros e, além disso, tentamos, quando é possível, evitar que os outros nos odeiem. Quando somos ofendidos por alguém, sabemos que aquele que nos ofendeu ligou, imaginariamente, a causa da sua tristeza a uma ação efetuada por nós e, por isso, apesar de nos entristecer com a ofensa, não chegamos a odiá-lo porque entendemos que há causas na relação (misturas que não combinaram) que produziram o afeto de tristeza na outra pessoa. Dessa forma, como o ódio não surge em nós, o ódio daquele que nos ofendeu não será alimentado. Isso tudo está de acordo com a ordem de produção das coisas da natureza: “[...] e que os homens agem, como as outras coisas em virtude da necessidade da natureza” (Ética, 5, Prop. 10, esc.). Enfim, o homem livre afirma o acaso e a vida e, por isso, padece menos das paixões: ele transmuta as paixões em ações porque pensa. Tem leveza, tem alegria, tem pensamento.
** filósofo e escritor, ministra cursos e coordena grupos de estudos pela Escola Nômade. Contato: amauri@escolanomade.org
Amauri Ferreira, é escritor e filósofo; coordena grupos de estudos de filosofia pela Escola Nômade.