

Filosofia - Colaboradores
(coordenado Por Virgínia Fulber)
e Com a colaboração de autores convidados.
Erudição
Amauri Ferreira
Os criadores não estão preocupados em “saber” mais que alguém. Sem rodeios, eles fazem uso da erudição como meio para invenções: “O que isso serve para a minha obra?”, assim perguntam eles. Conservam o olhar estrangeiro, vêem as coisas de outro jeito, dão valor às coisas que a maioria despreza, possuem uma inteligência que não tem nada a ver com a prática – uma inteligência do seu próprio tempo para amadurecer idéias, atos, metamorfoses. Afirmam os sentidos do corpo, desejam o maior contato possível com obras que alimentam o seu instinto criador, porque sabem que o conhecimento não está pronto para ser acessado, mas está associado à vida, à música, à literatura, ao mar, às montanhas, às conversas, ao amor. Os criadores têm a consciência de que a natureza é, também em nós, um continuum intensivo – eis o conhecimento que está inseparável de uma emoção que exprime a eternidade, de um supremo pensamento que está acompanhado de uma raríssima alegria e de uma perfeita confiança em si mesmo. Trata-se de um acontecimento que não faz barulho, que acontece nos lugares mais improváveis, que ninguém ao redor tem a menor noção da louca idéia que acabou de brotar ali: sem ingerir algum alucinógeno, os criadores alucinam até durante uma simples caminhada... Há uma verdade maravilhosa nesse pensamento, que a razão nem chega perto. Toda erudição de todos os tempos é incapaz de dar conta da experiência que faz com que o criador encare a existência como uma criança que brinca em um jardim.
Amauri Ferreira, é escritor e filósofo; coordena grupos de estudos de filosofia pela Escola Nômade.