

Filosofia - Colaboradores
(coordenado Por Virgínia Fulber)
e Com a colaboração de autores convidados.
ESCONDIDO
Amauri
Ferreira

“O Bebedor de Absinto”, de Edgar Degas
Quando Epicuro exortava os seus discípulos a viverem escondidos, isto é, longe da multidão, pensava isto como um meio fundamental para que eles não se misturassem com qualquer um, para que não se atirassem, apaixonadamente, em qualquer lugar. A vida sábia é conquistada quando encontramos, através das mais variadas coisas do mundo, as companhias que pertencem à nossa natureza. Viver anonimamente não é uma fuga covarde. Pelo contrário, além de ser um altivo cuidado de si, é uma grande prova de força, de uma conquista da vida corajosa.
Talvez uma das tarefas mais árduas da nossa existência é sabermos romper com as amarras, isto é, fazer morrer o que pode morrer, pois o que se tornou dispensável não pode mais ter sentido para ser carregado conosco. Tais relações venenosas com as coisas do mundo nos impedem de dispor o nosso corpo e a nossa mente para tudo o que é novo. Assim, levamos uma vida que assemelha-se à multidão – e, pior, nos preocupamos cada vez mais em viver assim. Fazemos o que os outros querem e, como é inevitável, colhemos os piores frutos em razão dessa ignorância. Perdemos tempo e forças com tarefas inúteis – ser recompensado, admirado, invejado, famoso ou, simplesmente, ser um sujeito “normal”, demanda doses absurdas de compromissos enfadonhos e de companhias insuportáveis. Tudo para preservar uma imagem que destoa completamente da nossa singularidade.
Viver para a multidão (1) torna-nos agitados, estressados, impotentes para pensar e agir. Uma vida perturbada é uma vida entregue ao gosto da multidão. Não há algo mais nocivo do que viver em um ambiente errado. Em vez de utilizarmos as nossas forças para coisas muito mais nobres, utilizamo-as para afastar de nós o que nos corrompe. Assim como um porco-espinho na multidão, tentamos encontrar atalhos, momentos de boa companhia ou momentos para ficar com nós mesmos. Mas o dever social nos chama, o telefone não pára de tocar, os compromissos são inadiáveis e, mais uma vez, o que nos daria a chance de começar a entender o processo da nossa singularização, é adiado mais uma vez, em razão de mais uma exigência da multidão. Não há dúvida de que, assim, a vida transforma-se, cada vez mais, em um grande tédio.
Amauri Ferreira, Janeiro de 2007
(1) O termo multidão, aqui, possui sentido totalmente diferente do conceito de Antonio Negri.
Imagem “O Bebedor de Absinto”, de Edgar Degas- http://www.mood.com.br/arquivo/cenarios.htm
Amauri Ferreira, é escritor e filósofo; coordena grupos de estudos de filosofia pela Escola Nômade.