Filosofia - Colaboradores
(coordenado Por Virgínia Fulber)
e Com a colaboração de autores convidados.

Fascismo
Amauri Ferreira

Tudo no Estado, nada fora do Estado, nada contra o Estado”. Assim Mussolini resumia a lógica fascista, para o agrado de uma massa amedrontada e, ao mesmo tempo, esperançosa. Mas isso não se trata de um caso isolado. O fascismo apenas expõe uma moral unificadora, que pretende espantar, a todo custo, qualquer ameaça ao “conforto” e “sossego” dos “bem sucedidos economicamente”. Através de tamanho descaramento, é evidente que esse tipo de fascismo não pode durar muito. Os dogmáticos do liberalismo, neste ponto, são muito mais astutos, já que pretendem operar a homogeneização através da democracia. Não há dúvida de que as sociedades capitalistas vivem num fascismo disfarçado de democracia, pois, afinal, por todo lado ouvimos coisas sobre os direitos humanos, das minorias, etc. Assim como os regimes totalitários surgem em decorrência de uma tristeza generalizada (fome, desemprego...), os regimes democráticos brotam do mesmo solo: as massas passam a cultivar um estranho amor pela pátria, pelo partido político, pela empresa, pelo time de futebol... A democracia realiza de forma muito mais eficiente e mais sutil a empreitada fascista, que é a homogeneização através da inclusão: inclusão dos negros, dos homossexuais, dos índios, dos loucos, das mulheres... inclusão digital, inclusão disso e daquilo, tudo em nome da humanização dos excluídos de um modelo que esmaga as diferenças. Inclusão para a mesma educação, o mesmo trabalho, a mesma família. Assim, todos os que diferem do padrão “homem, branco, cidadão, bem sucedido pessoalmente e profissionalmente” têm que correr atrás do prejuízo. Mas a inclusão democrática facilita esta busca pela identidade que falta! A democracia moderna... Eis o grande golpe burguês para manter a crença das massas numa suposta proteção do Estado. Os mass media tentam esconder, de todas as maneiras, que o Estado moderno está a serviço da acumulação do capital, para atender os interesses dos barões do capital, de modo que os representantes da massa no poder apenas são peças (que são renovadas a cada nova eleição) para manter a máquina capitalista funcionando. Mas esconder isso a todo custo, simulando objetivos para que uma vida melhor possa ser alcançada através da lógica democrática da inclusão, faz parte desse grande circo. A inclusão, de fato, é realizada através da captura de um desejo que passa a amar a identidade e o poder. O que decorre disso é que os incluídos passam a vigiar e punir... mas também são vigiados e punidos. Não é mesmo fácil ser livre num mundo assim, não é fácil manter-se numa vida revolucionária que não se confunde com um grito de “Viva a revolução!”, mas que é um constante afastamento do poder em si mesmo. Alguém que vive esmagado, impedido de ampliar suas conexões e de criar novas maneiras de viver (notem bem: criar e não ser incluído), tende a desejar o poder (eis um fascismo emergente...). Talvez a grande contribuição de Pierre Clastres, ao entender que as sociedades ditas primitivas não são sem Estado, mas contra o Estado, seja essa: é necessário que essas sociedades esconjurem, constantemente, o poder que está sempre ali, virtualmente... Já não se tem a menor idéia disso quando se grita "mais segurança!", "mais Estado!", "mais direitos iguais!". O horror, o horror de outrora dos regimes fascistas passa a ter vestes de "bom cidadão", "bom professor", "bom médico", etc. O “fascismo democrático” está nas escolas, nas empresas, na família...


Imagem - Operários (1933), de Tarsila do Amaral

Amauri Ferreira, é escritor e filósofo; coordena grupos de estudos de filosofia pela Escola Nômade.


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