Filosofia - Colaboradores
(coordenado Por Virgínia Fulber)
e Com a colaboração de autores convidados.

Ignorância
Amauri Ferreira

Ignorância

Acreditar que um cérebro, um órgão qualquer, um corpo, em suma, estão separados das relações com o mundo traz consequências fundamentais para a construção de uma cidade. Alguém é adoecido por viver num meio violento: vemos, por exemplo, uma criança aprisionada quando habita um espaço constrangedor que reduz sua locomoção, que impede a experimentação com o seu corpo, convivendo com adultos já adoecidos socialmente. Será difícil imaginar o que uma criança assim pode se tornar? O que chamam estupidamente de “mente criminosa” não seria apenas o produto de uma cidade que violenta continuamente a vida? Pois é essa violência que gera a outra, esta última apenas como efeito da primeira, inegavelmente mais grave e que não é percebida pelos homens, pois até os mais instruídos entre eles continuam a gritar pela lei para se protegerem dos “maus” indivíduos. Muitos médicos, psicólogos, professores, arquitetos e outros tantos diversos especialistas continuam a ignorar as relações do nosso corpo com o ambiente que vivemos – certamente eles trabalhariam a favor da vida se, ao invés de se limitarem à instrução, conquistassem o pensamento. A organização de uma cidade é o resultado da ignorância ou do conhecimento de seus habitantes – e o mesmo podemos dizer com relação aos seus governantes. Toda mudança radical é absolutamente necessária para o futuro de um povo que está enfraquecido – por isso que para uma cidade ser construída a favor da vida implica a urgência de educar os homens para o pensamento, libertando-se de um governo que somente faz proliferar ainda mais a ignorância, onde os homens preferem julgar em vez de pensar cada manifestação da vida como produto das relações... A violência é filha da ignorância.

 

 

Amauri Ferreira, é escritor e filósofo; coordena grupos de estudos de filosofia pela Escola Nômade.


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