Filosofia - Colaboradores
(coordenado Por Virgínia Fulber)
e Com a colaboração de autores convidados.

Inclusão
Amauri Ferreira

A divisão do mundo em duas realidades, a teoria e a prática, enquanto estão sustentadas por uma moral, por uma irresistível vontade de corrigir os homens, torna-se nociva porque a insubordinação à verdade é julgada como “minoria”, “deficiência”, “corrupção”. As tentativas de converter o que é diferente, o que é julgado como falso, a um princípio de verdade, de superioridade, atravessam a história da humanidade há séculos: potências como a filosofia, a arte, a ciência e a religião aparecem enredadas na antiga noção do Bem universal. A posse da verdade, que se acredita como princípio do mundo sensível, justifica a necessidade de impor aos homens certos hábitos, modos de perceber e de desejar, que atendem interesses que são inerentes ao ressentimento: mesmo que se diga que há “neutralidade” ou “desinteresse” na imposição de uma verdade, o que se pretende com isso é apaziguar aquilo que é julgado como causa do “mal”, ou seja, aquilo que faz o caos emergir. Através da “comprovação científica”, o homem do ressentimento acredita ser mais cômodo e mais justo para ele, e para a sociedade, aplicar uma teoria que serve para interpretar as manifestações mais estranhas da vida – desse modo, ao amarrar a diferença, age de acordo com um saber acessado pelas muitas horas de estudos e de pesquisas durante a sua formação acadêmica (nesse sentido, o conhecimento passa a se confundir com o acesso a uma verdade). O seu sentimento de superioridade e o orgulho da sua “sabedoria” torna-o fascista, que ama exercer a sua autoridade. O grande golpe do poder consiste em fazer que os homens acreditem que a verdade é o princípio, como se ela sempre existisse e que poucos (geralmente os que são formados pelas universidades de maior prestígio) podem acessá-la. Mas a vida escapa, segue escapando e sempre escapará das seguidas tentativas de docilizá-la por parte dos que aplicam um saber em nome do “bem comum”. Os homens de bem - e sua pretensão de neurotizar todos - pensam de modo semelhante ao que diz Elisabeth Roudinesco: “A psicanálise funciona muito bem. Entretanto, é verdade que não curamos bem a psicose, embora tenhamos nos desenvolvido muito nesse tema também. Os loucos hoje buscam na psicanálise um complemento, já que os psiquiatras só querem saber de medicamentos” *. Essa vontade de inclusão, de igualdade a partir de um modelo que é imposto por ser o “melhor” para todos, tem, para nós, duas faces: uma manifesta e outra latente. A que se manisfesta é o desespero para eliminar o que escapa do modelo. Por isso a necessidade de incluir para excluir: por mais que os discursos sejam de “inclusão da diferença”, a diferença que é incluída é sempre superficial (diferenças de raça, de classe social, de sexo, de mobilidade física, etc.). Desse modo, a inclusão das supostas “diferenças” pretende impedir que a diferença real se expresse através da criação de maneiras de aprender, de trabalhar, de escrever, de falar, enfim, de se relacionar com o mundo sem referência exterior à vida, sem estar amarrado a um modelo de educação, de trabalho, de família, de consumo. Quem reage a essa imposição é marginalizado pelo sistema ou se adapta ao bem que não foi inventado por ele, mas imposto do exterior (na educação atual, o mais nítido exemplo dessa adaptação violenta é o fenômeno Ritalina, “a droga da obediência”). Já a outra face, latente, é quando se transmuta as políticas de inclusão em algo que faz a vida passar, fugir, tecer conexões que rompem com aquilo que a moral da igualdade mais teme. O feitiço, então, volta-se contra o próprio feiticeiro. Nos parece que, de todas as políticas de inclusão (é possível fazer um uso potencializador de muitas delas), a digital é, nesse sentido, a mais interessante. O Wikileaks, por exemplo, nos mostra que o desejo jamais estará destinado a estagnar-se: contra isso ele reage, escapa, flui, produz realidade. A alternativa à marginalidade e à adaptação é, portanto, criada através de um coletivo desejante de anônimos, maravilhosamente anônimos, que, ao se expandir, obriga a humanidade a agir e, talvez, até romper a casca que a sufoca.

 

Amauri Ferreira, é escritor e filósofo; coordena grupos de estudos de filosofia pela Escola Nômade.


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