

Filosofia - Colaboradores
(coordenado Por Virgínia Fulber)
e Com a colaboração de autores convidados.
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Introspecção |
Quem pode ver a obra em processo,
por introspecção, é somente o autor. Fora isso, o mundo não pode vê-la em seu
processo – quando a vê, vê mal, quando geralmente percebe apenas o que, na obra,
permite que algo possa ser associado a alguma coisa já existente e familiar. Mas
o mundo também não vê o autor, não pode sequer suspeitar da sua existência – ele
é estranho demais para os códigos vigentes. Ver o autor seria identificá-lo,
vulgarizá-lo, o que poderia bloquear a obra em processo. Mas se o mundo não pode
ver o autor é porque, de fato, o autor, como agente causal, não existe: ele é
apenas um meio de transmissão de afetos, de pensamentos, de desejos. Chamamos de
introspecção esta consciência de si como meio de passagem para potências
inesgotáveis do eterno que é a vida. Escrever por introspecção, falar por
introspecção, viver por introspecção, faz brotar alguma realidade muito original
de nós – realidade que não quer dizer nada, mas quer apenas... brotar e seguir,
brotar e seguir, brotar e seguir... O homem mal começou a pensar, é ainda um
iniciante na arte de pensar, ainda não está maduro para ter uma consciência que
é, ao mesmo tempo, modesta e rica, que torna o pensador imperceptível no mundo
das identidades que fazem dos homens objetos de consumo. A introspecção leva o
autor a perceber a sua própria obra em processo, no que ela está se tornando,
assim também no que ele está se tornando... Uma parte dela, certamente, já
existe, já está salva, porém, ele é imperceptível o suficiente para não ser
enganado por sua obra realizada (a vaidade como sintoma de envenenamento),
tampouco é incomodado pelas distrações que o fariam desviar dessa dupla
produção, que inevitavelmente caminham juntas: a produção da obra e a produção
de si... Isto não deve parar.
Amauri
Ferreira, é escritor e filósofo; coordena grupos de estudos de filosofia pela
Escola Nômade.