Filosofia - Colaboradores
(coordenado Por Virgínia Fulber)
e Com a colaboração de autores convidados.

Pensamento
Amauri Ferreira

A capacidade que temos de pensar não está dissociada das relações que o nosso corpo tece com os ambientes que freqüentamos, que moramos, que lemos, que comemos. O mais elevado estado de espírito é fruto de uma vivência nos ambientes certos – pensar nunca é algo passivo, mas, ao contrário, é uma potência da vida, e que envolve uma atividade do nosso próprio corpo, de uma fuga dos ambientes errados. Um pensador é esmagado quando se deixa levar pela afobação daqueles que não costumam pensar, quando é envenenado pelo império da insensatez que assola os homens. Daí a necessidade de vivermos nas regiões mais profundas de nós mesmos, ou seja, passamos a pensar quando mergulhamos numa natureza que já pensa em nós. Por ser distinto da banalidade, do senso comum, é inegável que há uma doce loucura no pensamento, ao ponto que podemos dizer que a força de uma idéia – e o respeito que ela exige de nós – está em alguma loucura que nos faz viver. O pensador e a sua loucura: eis os companheiros inseparáveis, que não se confundem, de nenhum jeito, com a opinião. O pensamento nos liberta da mesmice e da covardia, do gosto amargo da racionalidade, da consciência que quer prever tudo. Pensar exige coragem para dizer as coisas que não se ousa dizer, para dizer de um jeito que habitualmente a sociedade não deseja saber. E o nosso perigo é esse: deixamos de pensar quando somos engolidos pelo terrível dispositivo de anti-pensamento que serve para distrair as massas – a besteira.

Amauri Ferreira, é escritor e filósofo; coordena grupos de estudos de filosofia pela Escola Nômade.


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