Filosofia - Colaboradores
(coordenado Por Virgínia Fulber)
e Com a colaboração de autores convidados.

Vulgarização
Amauri Ferreira

Envolvida pela tecnologia, distraída pelos mais diversos aparelhos eletrônicos, a vida humana está com o seu tempo, seu corpo e sua vida, sugados. Mesmo quando se tem uma vaga idéia disso, a tentação é tão forte que, como resultado, as pessoas se adaptam, de bom grado, ao ritmo frenético de estímulos sonoros e visuais que embotam os seus sentidos para a experiência das sensações que são distintas de um cotidiano que se assemelha a um videoclipe. Alguns sintomas dessa vulgarização: dominada pela poluição sonora e visual que distrai a mente, que rouba a ocasião primordial para que as suas regiões inconscientes possam se manifestar com toda a sua riqueza, uma pessoa assim quase não amadurece – percebemos isso quando, ao reencontrarmos alguém alguns anos depois, constatamos que ele praticamente não mudou...; a capacidade de pensar é esmagada pelo péssimo vício de reduzir a vida ao utilitarismo e à necessidade de interpretar, de associar tudo; a escrita cada vez mais enxuta, objetiva, expressa por uma linguagem vulgarizada, gregária, que serve para os que não têm tempo disponível para leituras que demandem um mínimo de paciência – o que denota uma atrofia cerebral crescente; um excesso de instrução que obscurece as coisas elementares da existência (a arte, a fruição da vida, o pensamento, a alegria, os devires) – assim a instrução também serve de entorpecimento; a ignorância da importância do corpo (orgânico e intensivo) para a invenção de tudo que serve para a superação de problemas que são impostos no cotidiano, ou seja, impasses num cotidiano que se tornou insuportável de ser vivido (efeitos disso: intoxicação do corpo orgânico através de um hábito alimentar que é induzido por interesses mercadológicos – como a ingestão de alimentos e bebidas que até os cães se recusam a ingerir – e a conseqüente sensação de fome contínua... fome orgânica e também a fome psicológica, esta como sintoma de uma péssima alimentação do tempo). Percebe-se que o nível de inteligência – não erudita, mas de modo de viver – está tão baixo, que estamos caminhando para uma época em que se alguém falar ou escrever duas ou três frases que expressam alguma complexidade de idéias, será chamado de gênio... Nunca será tão fácil ser um “gênio” no meio de tanta vulgaridade.

 Amauri Ferreira, é escritor e filósofo; coordena grupos de estudos de filosofia pela Escola Nômade.


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