

Filosofia - Colaboradores
(coordenado Por Virgínia Fulber)
e Com a colaboração de autores convidados.
A Cultura e a Morte
Francisco
Fuchs
Como
vimos, a palavra cultura remete ao cultivo (agrícola e do espírito) e ao culto
(veneração). Cultivo e culto: essa ambigüidade do termo cultura reflete uma
ambigüidade - absolutamente decisiva - do próprio devir da cultura. O autor
extraordinário desperta gratidão e admiração: do esforço que ele soube realizar
resultou um dom, uma dádiva, sua obra, criação por meio da qual podemos criar ou
recriar a nós mesmos. Essa veneração que o autor extraordinário e sua obra
atraem para si não deixa de ser benéfica ao movimento da cultura: pense-se em
todos os jovens cuja respiração fica suspensa à simples menção de um desses
grandes criadores e que em virtude dessa veneração irão dedicar-se com afinco ao
estudo de obras que ainda são incapazes de entender plenamente. Entretanto, essa
compreensão da cultura como culto é uma faca de dois gumes e possui uma
contrapartida que pode ser mortal para a própria cultura. Todo culto é um culto
ao passado, e ainda que esse passado seja concebido e mesmo vivido como
presente, é de passado que se trata. Mesmo que esse passado acumulado seja - no
sentido próprio da palavra - fundamental, não é nele que se irá encontrar seja a
atividade, seja o sentido da cultura.
Se o
passado é fundamento, o presente é fundação. Tudo se passa como se a cultura
como culto (veneração) não passasse de um truque para atrair os jovens para o
movimento da cultura. Mas esta é menos um fundamento do que uma fundação. Sem
dúvida a fundação alimenta-se do passado, mas se existe algo como uma pedra de
toque da cultura, ela não está no passado ou no culto ao passado. Pensar a
cultura como fundação remete ao outro sentido da palavra cultura: o cultivo, ou
seja, criação ou produção. Todo cultivo supõe uma realidade seminal: semente,
esperma, óvulo, mundo dos não-nascidos, útero do que ainda não veio a ser. Tanto
os revolucionários que pretendem abolir o passado quanto os conservadores que
desejam viver nele erraram, de longe, o alvo; mas se o erro dos revolucionários
é pueril, o erro dos conservadores é fatal para a cultura e para a própria vida.
O culto à obra e ao autor extraordinários obscurece inteiramente o movimento da
cultura (a fundação) e seu sentido: o fundado, o homem de amanhã ou o além do
homem.
O homem
da cultura diz: nós somos estúpidos: ainda não fomos longe o suficiente. Sequer
somos homens; como ousaríamos sonhar com o além-do-homem?
O sacerdote diz: somos todos, irremediavelmente, pecadores.
Quando falta a crueldade ética da cultura, vinga a recriminação moral do
sacerdote.
Segundo
Bergson, há uma relação diretamente proporcional entre o movimento e a
consciência. Renunciando ao movimento, os vegetais renunciaram também à
consciência, que neles permanece adormecida, latente ou virtual. E algumas das
mais belas páginas de Bergson são aquelas que mostram como os animais que se
fecharam em carapaças ou se dedicaram ao parasitismo tiveram que pagar, pelas
soluções que encontraram, o preço do adormecimento da consciência.
No entanto, é também Bergson que nos dá a pensar que uma consciência é tanto
mais intensa quanto mais fluxos distintos consegue complicar em si mesma, e
sobretudo, tanto mais intensa quanto mais ela consegue diferir de si mesma (a
alteração puramente interna como grau máximo do movimento, "eu é um outro").
Assim, no caso dos homens, esses animais tão peculiares, pode-se conceber que
alguém encerrado em sua cadeira de rodas ou prejudicado por uma doença
degenerativa qualquer possa viver os mais intensos fluxos de consciência.
Ainda assim, e para além desses casos extremos que revelam o sucesso do trabalho
da cultura, permanece válida a relação geral entre consciência e movimento. E
talvez devêssemos nos perguntar, num mundo em que tudo é produzido para nos
deixar inertes - os carros, as escadas rolantes, as televisões, todo o conforto
sedentário da vida moderna - e também obesos - as massas, o açúcar, as delícias
gordurosas - se não seria mais interessante inventar estratégias para fabricar
um corpo movente. Não, não se trata de saúde, esse ideal moderno que
substituiu a salvação. Trata-se de intensificação da consciência.
O mundo
da cultura (da ação do homem sobre o homem) supõe um delicioso paradoxo. Hoje
sabemos que, ao contrário do que supunha boa parte da história da filosofia, o
homem não pensa "naturalmente": ao contrário, o pensamento só pensa (só se põe
em movimento) quando é forçado a pensar. Porém quanto mais o jovem se
torna desconfiado e crítico em relação ao mundo da cultura, mais ele quer ter
certeza de que "não será enganado" pelos seus agentes (professores, escritores,
etc.) No entanto, esse jovem (por hipótese) ainda não pensa, e assim não tem
como saber se o próprio agente da cultura pensa. Daí a importância por ele
atribuída ao saber. Para o aluno em sala de aula qualquer nome
francês ou alemão, por mais obscuro que seja, terá mais importância do que o
homem que está em pé à sua frente. No nosso sistema de ensino, o professor
ideal é apenas um "transmissor de conhecimento". Elephant talk. Os alunos
provavelmente sairão dali sem ter aprendido a pensar, porém sabendo um monte de
teorias, e provavelmente confundirão "saber um monte de teorias" com "pensar".
Os professores, por sua vez, se sentirão muito cômodos repetindo teorias (pensar
lhes traria muitas rugas). Esse sistema de ensino é o que Gregory Bateson chamou
de "beijo da morte". Diante desse quadro, o pensador tem ao menos duas
alternativas. Ele pode trabalhar os problemas por conta própria, diretamente,
sem referir-se necessariamente aos outros pensadores que o forçaram a pensar
aqueles problemas, mas nesse caso ele dificilmente se tornará um professor, e é
provável que não seja levado a sério (se chegar a sê-lo) senão depois de morto;
ou ele pode mascarar os "seus" problemas nas referências a outros autores,
capturando assim o desejo daqueles alunos que têm "sede de saber" (pelas
referências), mas também o desejo daqueles que querem pensar (pelos problemas
neles mesmos). As duas saídas são igualmente vitais, mas a segunda é sem dúvida
mais engenhosa, pois torna o pensador imune aos ataques dos que não suportam que
se grite que o rei está irremediavelmente nu.
A vida humana poderia ser o seguinte: gozar uns dos outros.
Gozar, isso não tem um sentido exclusivamente sexual. É um erro derivar a
cultura da sexualidade (sublimação), pois pode-se afirmar precisamente o
contrário. Todo ser pluricelular é nele mesmo cultura, cultivo, coletividade.
São muitas vidas atualizando, em nível químico, molecular, o dom e o contra-dom.
Onde o biólogo molecular vê um fluxo de enzimas - e é isso que se espera dele -
o filósofo vê, e sem metáfora, um fenômeno de cultura.
Ou então seria preciso atribuir um novo sentido à sexualidade, tomá-la como uma
potência de relação "em geral" ao invés de fechá-la no prazer local, no prazer
de órgãos (ou organelas). Conversar é praticar o ato. Cultura e sexualidade
seriam dois aspectos de uma mesma potência de relação: num mesmo movimento, a
cultura deixa de ser "repressão" e "sublimação" para tornar-se produção de
vida, e o sexo deixa de ser mera satisfação orgânica para tornar-se dom e
contra-dom.
Nesse sentido, sexo é cultura e cultura é sexo. Até aqui eu vinha definindo
cultura como "ação do homem sobre o homem para produzir o homem". Mas dois
unicelulares sexuados não trocam informação genética sem ao mesmo tempo produzir
um ato de cultura: uma ação da célula sobre a célula para produzir a célula. Na
trepada de unicelulares há comunicação, coletivização, integração a um todo em
devir permanente, e acima de tudo, a criação conjunta de algo novo. Não deixa de
ser surpreendente que esses termos remetam indiferentemente à cultura e ao sexo,
pois estamos acostumados a perceber cultura e sexo (ou cultura e natureza) de
maneira dualista. Não existe cultura, por um lado, e sexo, pelo outro. O que
existe é uma mesma potência de relação que une corpos para produzir novos
corpos, e almas para produzir novas almas.
Torna-se inevitável invocar a noção de diferença de potencial. Não é o filósofo
que se mete num domínio que "não é o dele" quando invoca uma noção científica, é
a ciência que não pode, em primeiro lugar, delimitar de antemão o alcance das
noções científicas que ela inventa. A noção de diferença de potencial aplica-se
igualmente (isto é, rigorosamente e sem metáfora) aos fluxos moleculares,
baseados em disparidades químicas, e aos fluxos de signos e idéias num campo
social, baseados nas disparidades entre as gerações mais velhas e as mais novas
e em outras disparidades ainda mais profundas.
A vida humana poderia ser isso. Mas não queremos gozar uns dos outros, queremos
gozar uns nos outros. Ao invés de produzir um campo social de gozo coletivo,
somos produzidos num campo social de miséria coletiva, e não é à toa que
enlouquecemos. Somos ensinados a explorar, a usar e consumir aquilo que nos
cerca, a viver em função de meios e fins ao invés de viver em função de uma
produtividade, ensinados a separar a força do outro do que ela pode ao invés de
produzir algo no encontro. E a propaganda nos ordena o gozo, mas ninguém nos
explica que o gozo é da ordem da produção e não da ordem do consumo. O sistema
capitalista não é apenas contranatura, ele também é contracultura, e no pior dos
sentidos. A cultura, tal como o sexo, exige tempo, esforço, cooperação, cultivo,
dom. A vida é a arte do arrepio, a arte de produzir signos e carícias.
Francisco Fuchs é mestre
em filosofia pela UFRJ e fuma cigarros de palha. Sua dissertação pode ser
baixada neste endereço:
http://pontocinza.wordpress.com/bergson/

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