

Filosofia - Colaboradores
(coordenado Por Virgínia Fulber)
e Com a colaboração de autores convidados.
Cultura, Ética, Vida
Francisco
Fuchs
Este texto é uma introdução provisória às vinte notas sobre cultura recentemente reunidas no ponto cinza. Essas notas são o resultado de um esforço inicial para pensar a cultura, entendida como ação do homem sobre o homem para produzir o homem (e, quem sabe, o além do homem).
O tema da cultura, tal como eu a defino (inspirado na segunda dissertação da Genealogia da Moral e em certos trechos de Nietzsche et la philosophie), tem sido nestes últimos dois anos uma obsessão para mim.
Em primeiro lugar, essa "redefinição" do termo cultura me leva ao centro de um debate que me é caro: aquele que opõe ética e moral. Para mim é bastante evidente que a cultura como tal remete a um esforço ético que nada tem a ver com as limitações morais. Pois a ação do homem sobre o homem para produzir o homem, quando bem sucedida, tem como resultado a produção de um homem que produz a si mesmo. Ora, um homem que produz a si mesmo ultrapassou necessariamente as preocupações meramente sexuais, digestivas e simbólicas que poderiam fazer dele um perigo para os seus semelhantes. Certamente que esse homem trepa, almoça e não recusa um elogio ou outro, mas sua vida já não é mais regida pela genitália, pelo estômago ou pelo desejo de reconhecimento. Ele descobriu um plano em que só existem signos e afetos como puras intensidades. Que erro ter dito o "e". Seus signos se tornaram puras potências afetivas ao mesmo tempo em que seus afetos não são mais reprimidos, mas conquistaram a dimensão do signo como dádivas intensivas num campo social dado.
E é essa relação de si consigo mesmo, é essa ação do homem sobre si mesmo que o habilita a entrar por sua vez no movimento da cultura, ou seja, a tornar-se um agente da cultura. Mais do que a realização de um "ciclo", trata-se da transmissão de um movimento. Sabemos muito bem, e por experiência, como é patético o homem que jamais se deu ao trabalho de fabricar a si mesmo (ou que fez um trabalho pela metade) e que ainda assim crê ter o direito de fabricar outros homens. (Pensemos, por exemplo, no personagem Tom, de Dogville). Afinal, é precisamente aí, na vigência dessa hipocrisia essencial, que a lei moral toma o lugar do cultivo ético: a palavra de ordem usurpa a cultura da alegria e do entendimento, da alegria e da visão. Erro fatal, erro milenar pelo qual pagamos - e muito caro - até hoje. Não existem "falsos moralistas". A moral é que é, nela mesma, essencialmente falsa: uma violência permanente. A essa violência moral, o homem da cultura opõe a crueldade ética, que não visa a obediência a leis ou a realização de uma essência, mas tão somente a conquista de uma potência - humana e mesmo sobre-humana.
Por outro lado, e eis aqui um ponto um tanto surpreendente, o pensamento da cultura, tal como vem sendo definida aqui, acaba levando a uma espécie de identificação entre cultura e vida. Esse ponto é abordado no último tópico da série (cultura e sexo), que sugere uma passagem da dimensão ética para a dimensão ontológica (se é que existem realmente duas dimensões distintas). Pode-se esboçar essa identificação com a seguinte fórmula: a vida é a ação do vivo sobre o vivo para produzir o vivo. E nem mesmo podemos dizer que os unicelulares assexuados, formas primitivas de toda vida, são uma objeção a essa fórmula, pois já vimos que a cultura supõe em seu movimento a ação de si sobre si mesmo.
Tudo neste trabalho, por ora, não passa de um esboço. Gostaria de encerrar esta já longa nota com uma observação no mínimo curiosa. Aliás, diga-se de passagem, é por causa deste tipo de observação (que estou prestes a fazer) que eu me vejo cada vez mais longe da Academia. Pensar livremente me dá muito mais prazer do que ficar eternamente medindo palavras.
Qual é a palavra essencial do cristianismo? O amor. Aliás, para o cristianismo, o amor é um mandamento, ou seja, uma lei, uma obrigação (não custa notar que D. H. Lawrence escreveu um belíssimo conto no qual Cristo se retrata a esse respeito: The man who died.) Muito bem. O amor. É sem dúvida uma bela mensagem, mas um tanto vaga. Há muitos amores preguiçosos, indulgentes - e há inclusive amores que matam. Muita bobagem já foi feita em nome do amor. E eu creio que o problema essencial está aqui: o amor não implica necessariamente produção (de si ou de outrem). O amor, o amor é amoroso, o amor é lindo - e nada mais. Estamos cheios de amor - mas a miséria (todo tipo de miséria) só aumenta. Assim, parece-me que é preciso dar um passo além: ultrapassar Cristo. Nietzsche disse que Cristo morreu jovem demais e que, tivesse vivido mais tempo, teria se retratado, pois era nobre o bastante para isso.
E, com efeito, o pensamento da cultura é muito mais poderoso e efetivo do que o amor cristão, pela simples razão de que o amor está implicado no produzir, mas o produzir não está implicado no amor. O homem da cultura, o homem que age sobre o homem para produzir o homem (e não para explorá-lo, violentá-lo, enchê-lo de obrigações e leis) é, por definição, um homem amoroso. Ele nem precisa mencionar o seu amor, pois está exercendo-o o tempo todo. Ele não precisa religar-se, pois já está ligado o tempo todo. Em uma palavra, aquilo que a religião promete (ou exige) como um ideal, a prática da cultura produz como uma realidade concreta. De um só golpe, nos livramos da água suja da moral e da religião e ainda resgatamos o bebê: a alegria e a inocência de produzirmos uns aos outros como a nós mesmos.
Francisco Fuchs é mestre
em filosofia pela UFRJ e fuma cigarros de palha. Sua dissertação pode ser
baixada neste endereço:
http://pontocinza.wordpress.com/bergson/