Filosofia - Colaboradores
(coordenado Por Virgínia Fulber)
e Com a colaboração de autores convidados.

Cultura,ética vida II
Francisco Fuchs 

E, com efeito, o pensamento da cultura é muito mais poderoso e efetivo do que o amor cristão, pela simples razão de que o amor está implicado no produzir, mas o produzir não está implicado no amor. O homem da cultura, o homem que age sobre o homem para produzir o homem (e não para explorá-lo, violentá-lo, enchê-lo de obrigações e leis) é, por definição, um homem amoroso. Ele nem precisa mencionar o seu amor, pois está exercendo-o o tempo todo. Ele não precisa religar-se, pois já está ligado o tempo todo. Em uma palavra, aquilo que a religião promete (ou exige) como um ideal, a prática da cultura produz como uma realidade concreta. De um só golpe, nos livramos da água suja da moral e da religião e ainda resgatamos o bebê: a alegria e a inocência de produzirmos uns aos outros como a nós mesmos.

 

A morte, definida como cessação do metabolismo de um corpo orgânico, não interrompe a corrente de ações que o atravessaram. Para pensar a cultura como potência é preciso escapar ao esquema de Freud segundo o qual a libido ora investe no eu, ora no objeto; afinal, investir o desejo na cultura é precisamente investir em fluxos intensivos para além do sujeito e do objeto. Nesse sentido, a cultura possui uma estreita relação com a morte, aqui entendida como a morte do próprio eu e de seus objetos simplesmente possíveis. A cultura é emissão de fluxos, fluxos de fala, de escrita, fluxos de sons e imagens, fluxos de signos que atravessam um campo social em todas as direções sem possuir um eu como origem ou tomar um objeto como fim. Nem causalidade nem finalidade, mas lances de dados intermináveis porque jogados numa mesa que reverbera ao infinito. A cultura, assim entendida, é a um só tempo a cura da má consciência do eu e do ressentimento face ao objeto: grande saúde que torna a pequena morte, a morte orgânica, um mero detalhe incontornável. Pode-se entender nesse sentido a afirmação de Spinoza segundo a qual podemos aumentar indefinidamente a proporção daquilo que é eterno em nossa alma, e sobretudo a de Bergson, segundo a qual a vida está no movimento que a transmite.


Pode causar espanto a idéia de que a morte orgânica, essa que apavora os passantes até nos mais ensolarados dias, seja não mais do que um pequeno acidente sem a menor importância. No entanto, desde o momento em que nos damos conta de que somos nada mais do que um lugar de passagem - quer em termos culturais, quer em termos orgânicos - esse temor imemorial perante a morte transmuta-se numa imperturbável serenidade. E talvez essa alquimia seja, em termos práticos, o propósito mais evidente da cultura: transformar um animal frágil e assustadiço em uma potência que não teme a própria morte. A finalidade da cultura não é a obra - ela mesma lugar de passagem - mas esse estranho animal que se percebe como um elo, entretanto único, insubstituível, de uma cadeia para além do orgânico. O Estado, a Religião e o Capital podem muito bem contentar-se com homens limitados, servis e bem comportados, ou ao contrário produzir seus heróis sedentos de glória; mas o produto da Cultura, o signo de seu êxito incontestável, é esse animal triunfante, vazio e radiante como a própria luz.

 

É o pequeno eu que teme pela sua morte e inventa para si sobrevivências morais, transmigratórias ou celestes. É ele que se compraz com o poder e o reconhecimento. É ele que mergulha nos jogos do capital para mascarar sua impotência absoluta. Mas o movimento da cultura não cessa de produzir a morte do pequeno eu. Ali onde transparece o a-fundamento e o afundamento do eu, a cultura é uma força viva; lá onde o eu triunfa, a cultura está morta ou claudicante, subjugada por forças de outra natureza. Não, a cultura não se exprime no conhecimento de nomes, formas e fórmulas, e sequer no conhecimento enquanto tal. Ao contrário, ela se exprime na conquista de uma potência que está muito além do eu e suas propriedades. Inversamente, esse homem soberano, criador, esse iluminado luminoso que é a finalidade da cultura só se torna possível se a cultura é uma força viva. Mas é isso que se apresenta no campo social capitalista? Seria o capitalismo a morte da própria cultura?

 

Pensar a morte da cultura é penetrar num circo de horrores virtual. Ou bem se é transportado para uma cena totalitária em que os elos da cadeia já não possuem nenhuma autonomia e em que toda ação - e o próprio pensamento como ação - é concebida como função de uma totalidade; ou bem imagina-se um cenário de dispersão desses mesmos elos, que já não agem senão em função de si mesmos e deixam de constituir um todo. Percebe-se aqui a clássica oposição entre a supressão totalitária do eu e sua exaltação no sistema capitalista. No caso totalitário a supressão do eu individual é correlata à exaltação de um eu coletivo: Estado, Raça, Classe, Povo, Nação; no outro, a exaltação do eu individual exprime a pulverização do campo social, curiosamente acompanhada por uma série de paródias (dos ideais totalitários) que funcionam como uma liga imaginária daquilo que está radicalmente desligado; a idéia de Família, por exemplo, tão explorada pela publicidade e tão venerada por aqueles que já notaram que o campo social caminha para uma dispersão absoluta e não são capazes de conceber nenhuma alternativa. Mas os exemplos de "ligas imaginárias" poderiam multiplicar-se ao infinito, pois onde reina a dispersão qualquer coisa pode funcionar como território: uma seleção ou time de futebol, um grupo de rock, um sala de bate-papo, uma comunidade no orkut...

 

Tal como foi descrita, a morte da cultura é um acontecimento de longa duração. Trata-se aí, no entanto, de um registro ainda muito molar, de um acontecimento de grandes proporções. Mas a vida da cultura acontece primordialmente num outro plano, microscópico, molecular, no plano das pequenas intervenções, das minúsculas ações do homem sobre o homem. A composição de uma sinfonia, a aula de geografia na escola e a palmada no traseiro de uma criança são, nesse plano, equivalentes. Nenhuma dessas ações que moldam a informe matéria humana pode ser considerada a priori como sendo mais importante do que a outra: afinal, a sinfonia em questão pode muito bem ser uma lástima, mas a aula de geografia e o corretivo podem ser essenciais na formação do sábio ou do compositor de amanhã. E tudo isso se torna ainda mais evidente se nos lembrarmos que a finalidade da cultura não é a obra mas o próprio homem (ou o além do homem). Assim, qualquer tia que dá aulas numa escola primária - e qualquer mãe - são tão importantes para o trabalho da cultura quanto um Beethoven ou um Spinoza.

 

Se a cultura vive nos acontecimentos mais comezinhos, é também neles que ela morre suas mil pequenas mortes. O compositor ruim, a tia entediada, mal preparada e mal paga, a mãe preocupada antes de mais nada com o seu emprego esmaecem a cultura lá onde ela deveria ser pura transmissão de vida. E este é, com efeito, um dos pontos mais essenciais no pensamento da cultura: esta não é apanágio de alguns, mas um movimento ou um trabalho pelo qual todos os homens, sem exceção, são responsáveis. Ser homem significa em primeiro lugar ser um agente da cultura. Ainda que alguns desses agentes, em função da potência de seu trabalho, irradiem suas ações mais longe no tempo e no espaço, é absurdo pensar que a cultura dependa somente deles. Ao contrário, trata-se de um emaranhado de signos em que as mais altas intensidades passam pelas mais baixas e vice-versa. Sim, só os graus extremos importam, mas isso não equivale a dizer que Nietzsche é mais importante do que uma tia, e sim que nenhuma tia deveria ignorar Nietzsche.
 

Obviamente, o trabalho de cultura depende acima de tudo do investimento de desejo de cada agente da cultura. Mas esse investimento se torna mais e mais penoso se esse esforço não encontra no campo social um terreno propício à cultura. Sim, a cultura morre um pouco toda vez que seu agente se apaixona por sua própria imagem e se toma como causa do movimento que o atravessa. Mas essa morte narcísica da cultura não é nada se comparada à sua morte mercantil. Quando o fluxo de signos é mediado por um fluxo de dinheiro, quando o acesso à cultura se confunde com o acesso aos bens de consumo em geral, subtrai-se a uma enorme parcela da humanidade as próprias condições de possibilidade de gozar dessa gigantesca corrente de signos. Afinal, o trabalho da cultura não termina na mãe, na tia e nem mesmo em Nietzsche. Cultura é invenção de novas possibilidades de vida, e isso se faz a partir do que se recebeu da mãe, da tia e de todo o pensamento humano ao qual somos capazes de nos abrir. Infelizmente, essa mercantilização da cultura é ainda um sintoma e mal dá uma idéia da potência de contracultura que o capitalismo exprime.
 

A burguesia nasceu revolucionária, negando os privilégios da aristocracia feudal. Suas palavras de ordem eram a acumulação de capital e o trabalho, o esforço produtivo: tempo é dinheiro. Mas hoje o capitalismo já está consolidado e globalizado, e o desafio é trazer para o mercado todos aqueles que, mantendo-se à margem, poderiam ameaçar o sistema. Assim, nos meios de comunicação de massa - os porta-vozes do capitalismo - a palavra de ordem é outra: viver é gozar e gozar é consumir. Ora, para consumir é preciso integrar-se ao sistema, é preciso, de um modo ou de outro, trabalhar. Mas o trabalho não pode ser absorvente demais, desgastante demais. Há que haver tempo suficiente para o gozo como consumo. O que nos primórdios era um elogio do esforço - da aplicação como investimento do desejo - tornou-se um elogio da lei do menor esforço, que encontra sua expressão mais acabada no mercado financeiro: não mais a aplicação como investimento de suor, mas a aplicação como produção de capital a partir do capital. Obviamente, um elogio não substitui o outro, e ambos coexistem no capitalismo atual (como já coexistiam desde o início): quem não tem capital investe suor. E para integrar ao sistema todos aqueles que estão à margem, o capitalismo promove uma captura de desejo que funciona em dois registros: a produção da falta - pela propaganda de mercadorias e serviços cada vez mais sofisticados - e a oferta de crédito. Como dizia Zaratustra, os últimos homens inventaram a felicidade.

Em latim, a palavra cultura remete primeiramente ao cultivo (agrícola). Em sentido figurado, ela remete ao cultivo do espírito. Por fim, ela remete ao culto no sentido de veneração. Cultivar implica esforço: preparar o terreno, selecionar as sementes, plantar e colher. Assim, se a cultura nada mais é do que a ação do homem sobre o homem, deve-se pensar essa ação como sendo um esforço (e mesmo uma crueldade) para produzir um homem capaz de esforçar-se. Um homem incapaz de esforço é incapaz de levar adiante a tarefa da cultura. Em certo sentido, ele sequer é um homem. Totalmente absorto em suas funções digestivas e sexuais, ele irá tomar o campo social como um simples meio para sua satisfação privada. Não é por uma razão moral qualquer que se deve repreender o homem que trepa com suas próprias filhas. Deve-se repreendê-lo, isso sim, porque ao invés de fazer com elas um esforço de cultura capaz de produzir os homens (as mulheres) de amanhã, ele está fazendo delas um mero objeto de seu gozo privado. Esse exemplo extremo mostra com muita clareza que o papel da cultura não é ensinar as crianças a ter prazer (algo que elas certamente aprenderão por sua própria conta), mas a esforçar-se. Ou então elas jamais aprenderão que o esforço pode proporcionar um gozo ainda mais intenso do que os prazeres digestivos e sexuais.

Não basta caracterizar a mercadoria como modificação da natureza, elaboração de uma matéria-prima. Sem dúvida a produção do objeto envolve a transformação de uma matéria qualquer, mas o que ela exprime, na verdade, é a cultura. Em outras palavras, o que as mercadorias - os objetos materiais resultantes do trabalho humano - exprimem é a ação do homem sobre o homem. Todo produto do trabalho é cultura: sangue coagulado, suor cristalizado, esforço materializado (que não seria ele mesmo concebível sem a cultura), mas também ação (virtual) sobre outro homem, trabalho da cultura e gozo latente. Quem produz um objeto age sobre si mesmo, modifica-se a si mesmo através de seu esforço. Quem consome esse objeto abre-se à ação de outro homem, e com isso também modifica-se a si mesmo. Por fim, quando produtor e consumidor coincidem, há uma ação sobre si mesmo mediada pelo objeto. Todo o esforço produtivo da humanidade - e não apenas o esforço "cultural" num sentido mais estrito - é cultura, ação do homem sobre o homem.

Francisco Fuchs é mestre em filosofia pela UFRJ e fuma cigarros de palha. Sua dissertação pode ser baixada neste endereço:
http://pontocinza.wordpress.com/bergson/


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