

Filosofia - Colaboradores
(coordenado Por Virgínia Fulber)
e Com a colaboração de autores convidados.
O massacre de Realengo II e III parte
Francisco
Fuchs
Uma semana depois da chacina, temos bem mais informações a
respeito de seu autor e de suas motivações. Temos, por exemplo, este
novo e importante vídeo (liberado ontem
pela TV Folha) em que Wellington fala explicitamente dos "bons" e dos "maus".
Antes de entrar no mérito da questão, façamos uma recapitulação do que já
sabemos sobre o caso. Wellington Menezes de Oliveira foi adotado e, ao que tudo
indica, sabia disso. Durante sua época de aluno na Escola Municipal Tasso da
Silveira, ele foi vítima de bullying ou, em bom português, de
assédio escolar - chegando a ter sua
cabeça enfiada num vaso sanitário. O comerciante
Rodrigo Pereira, tio de uma das meninas
assassinadas, afirmou que a prática de assédio escolar é comum naquele colégio e
que ele mesmo já foi vítima dela. Por fim, sabemos que Wellington não era
artista, nem filósofo, nem cientista, e que produziu a si mesmo (ou foi
produzido) a partir de idéias de fundo religioso.
Começemos nosso trabalho fazendo uma análise do texto proferido por Wellington
no vídeo mencionado acima.
A maioria das pessoas me desrespeita. Acham que sou um idiota. Se aproveitam
de minha bondade. Me julgam antecipadamente. São falsas, desleais. Descobrirão
quem sou da maneira mais radical, numa ação que farei pelos meus semelhantes,
que são humilhados, agredidos, desrespeitados em vários locais, principalmente
em escolas e colégios, pelo fato de serem diferentes, de não fazerem parte do
grupo dos infiéis, dos desleais, dos falsos, dos corruptos, dos maus. São
humilhados por serem bons.
Wellington divide o gênero humano em "maus" e "bons". Religiosos de todas as
denominações se apressaram a negar que o assassino de Realengo tenha
compreendido até mesmo os fundamentos mais básicos de suas respectivas
religiões, porém é inegável que a operação realizada por Wellington encontra seu
fundamento na religião e na moral religiosa. Não é que apenas a religião
e a moral dividam os homens em "maus" e "bons". Apenas para mencionar dois
exemplos, Spinoza e Nietzsche também fazem esse tipo de distinção; entretanto,
tudo indica que as referências de Wellington não são essas. Mas voltemos à
análise do texto. Para referir-se aos "maus", Wellington se serve de quatro
adjetivos diferentes: "infiéis", "desleais", "falsos", "corruptos". Note-se de
passagem que, no curto bilhete de suicídio do matador, encontraremos também os
adjetivos "impuro", "fornicador" e "adúltero". Levando-se em conta que, mesmo
somados, os dois textos mencionados mal ultrapassam meia página, é preciso
admitir que Wellington dispunha de uma considerável riqueza lingüística quando
se propunha a caracterizar os "maus".
E os bons? Quem são eles? Como Wellington os caracteriza? Afora a locução "fiel
seguidor de Deus" (utilizada no bilhete de suicídio), não há, nos textos de
Wellington, adjetivos que caracterizem os bons em sua bondade. Isso não
significa que os "bons" não estejam devidamente caracterizados. Os bons são
"humilhados", "agredidos", "desrespeitados". Creio que o leitor já percebeu onde
quero chegar: para o matador de Realengo, os bons são definidos pelas ações
dos maus. Não há nada que defina de maneira intrínseca e positiva a sua
bondade. Eles são definidos pelas ações de outrem. Em resumo, os bons se
definem a partir do que eles não são, eles se definem a partir dos maus e
de suas ações.
Deixo como indicação de leitura a primeira dissertação do livro A Genealogia
da Moral, de Nietzsche.
A rebelião dos escravos na moral começa quando o próprio ressentimento se torna criador e engendra valores: o ressentimento daqueles seres aos quais está vedada a autêntica reação, a reação da ação, e que se contentam com uma vingança imaginária. Enquanto toda moral nobre nasce de um triunfante sim dito a si mesmo, a moral dos escravos diz não, previamente, a um "fora", a um "outro", a um "não-eu"; e é esse não que constitui sua ação criadora." (Nietzsche, A genealogía da moral, parte I, 10)
Todos vocês já tevem ter visto os cinco
vídeos - realizados pelo próprio atirador
de Realengo - que foram liberados no dia 14, um dia depois da postagem anterior.
Todos são esclarecedores, sobretudo
o mais longo, de seis minutos e meio.
Também surgiram algumas anotações do atirador.
Como pretendo encerrar este assunto em apenas duas postagens, não vou me deter
numa análise desses documentos. É hora de tentar uma síntese,
mesmo que provisória, encaminhando o tema para uma síntese ainda mais abrangente
- que será realizada, claro, na postagem final. E como me parece que uma (boa)
síntese só pode ser concebida e realizada a partir de um problema, vou
iniciar a minha a partir de uma pergunta bastante singela: por que, logo depois
da comoção inicial com o massacre - e mesmo durante essa comoção - a
maior parte das pessoas parecia querer livrar-se desse tema incômodo e, por
assim dizer, varrê-lo para debaixo do tapete?
Creio que a pertinência do próprio problema dificilmente poderia ser
questionada. O poder executivo, instado por uma autoridade católica, arrogou-se
o direito de rapidamente
decretar o fim de um luto que, afinal de
contas, não lhe pertencia. Sintomático, eu diria. Permitir que o luto e as
homenagens se prolongassem (por exemplo) até o domingo seguinte não faria mal a
ninguém.
O poder legislativo, por sua vez, apressou-se a discutir o tema do controle das
armas de fogo, como se a mera disponibilidade de armas de fogo fosse uma
variável essencial da tragédia. O que eles fariam se o massacre fosse perpetrado
com facas, como aconteceu várias vezes na China? Passaríamos a cortar o pão com
cartões de crédito? Em seu afã de serem lembrados de maneira positiva pelos seus
eleitores num momento tão grave (e tão fartamente televisionado), nossos
congressistas parecem não ter compreendido que levantar o problema das armas
numa hora como essa só ajudaria a escamotear os verdadeiros problemas; a não ser
que fosse precisamente essa a sua intenção, mesmo que inconsciente.
A mídia, por sua vez, apressou-se a chamar especialistas - sobretudo psiquiatras
forenses - capazes de diagnosticar a doença mental de Wellington; o que, se
pensarmos bem, era simplesmente a obtenção de um aval científico para o que o
senso comum já dizia desde o primeiro momento: o atirador só podia ser um louco.
Por fim, vários cidadãos, sobretudo jovens, identificaram no bullying ou
assédio escolar o principal fator da tragédia, ao passo que outros, em número
bem menor, identificaram como decisivas as supostas vinculações do atirador com
terroristas islâmicos.
Hoje, pouco mais de três semanas depois da chacina, não é exatamente esse o
quadro que temos do massacre de Realengo? (1) Um portador de esquizofrenia
paranóide, (2) vítima pretérita de bullying, (3) possivelmente manipulado ou
influenciado por religiosos fanáticos que querem dominar o mundo (aqui, é claro,
temos apenas uma suposição), (4) não encontrou dificuldades para armar-se até os
dentes e assassinar doze crianças a sangue frio. Em resumo, era um pobre louco
que se levava demasiadamente a sério e que, aproveitando-se da facilidade de
acesso a armas ilegais, resolveu vingar-se de seu sofrimento em pessoas que nada
tinham a ver com ele. Fato lamentável, porém único neste país, e cuja repetição
é extremamente improvável. Caso encerrado.
Encerrado? Mas por que tanta pressa? Será que já fizemos os nossos melhores
esforços para compreender tudo que está envolvido nesse massacre? Eu estou
convencido que não, e vou fazer meu próprio esforço na próxima postagem.
Francisco Fuchs é mestre
em filosofia pela UFRJ e fuma cigarros de palha. Sua dissertação pode ser
baixada neste endereço:
http://pontocinza.wordpress.com/bergson/