

Filosofia - Colaboradores
(coordenado Por Virgínia Fulber)
e com a colaboração de autores convidados.
A Grande Perversão
Leonardo Boff
Para
resolver a crise econômico-financeira da Grécia e da Itália foi constituído, por
exigência do Banco Central Europeu, um governo só de técnicos sem a presença de
qualquer político. Partiu-se da ilusão de que se trata de um problema econômico
que deve ser resolvido economicamente. Quem só entende de economia acaba não
entendendo sequer a economia. A crise não é de economia mal gerida, mas de ética
e de humanidade. Estas tem a ver com a política. Por isso a primeira lição de um
marxismo raso é entender que a economia não é parte da matemática e da
estatística mas um capítulo da política. Grande parte da obra de Marx é
dedicada à desmontagem da economia política do capital. Quando na Inglaterra
ocorreu uma rise semelhante à atual e se criou um governo de técnicos Marx fez
com ironia e deboche duras criticas pois previa um total fracasso como
efetivamente ocorreu. Não se pode usar o veneno que criou a crise como remédio
para curar a crise.
Chamaram para chefiar os respectivos governos da Grécia e da Itália gente que
pertencia aos altos escalões dos bancos. Foram os bancos e as bolsas que
provocaram a presente crise que quase afundou todo o sistema econômico. Esses
senhores são como talibãs fundamentalistas: acreditam de boa fé nos dogmas do
mercado livre e no jogo das bolsas. Em que lugar do universo se proclama o ideal
do greed is good, em português, a cobiça é coisa boa? Como fazer de um
vício (e digamos logo, de um pecado) uma virtude? Estes estão sentados em Wall
Street de Nova York e na City de Londres. Não são raposas que guardam as
galinhas mas as devoram. Com suas manipulações transferiram grande fortunas para
poucas mãos. E quando estourou a crise foram socorridos com bilhões de dólares
tirados dos trabalhadores e dos pensionistas. Barack Obama se mostrou fraco,
inclinando-se mais a eles que à sociedade civil. Com os dinheiros recebidos
continuaram a farra já que a prometida regulação dos mercados ficou letra morta.
Milhões de pessoas vivem no desemprego e na precarização, especialmente jovens
que estão enchendo as praças, indignados, contra a cobiça, a desigualdade
social e a crueldade do capital.
Gente que tem a cabeça formada pelo catecismo do pensamento único neoliberal vai
tirar a Grécia e a Itália do atoleiro? O que está ocorrendo é a sacrificação de
toda uma sociedade no altar dos bancos e do sistema financeiro.
Já que a maioria dos economistas dos stablisment não pensam (nem
precisam) vamos tentar entender a crise à luz de dois pensadores que no mesmo
ano, 1944, nos EUA nos deram uma chave esclarecedora. O primeiro foi um filósofo
e economista húngaro-canadense Karl Polanyi com sua clássica obra A Grande
Transformação. Em que consiste? Consiste na ditadura da economia. Após a
Segunda Guerra Mundial que ajudou a superar a grande Depressão de 1929, o
capitalismo deu um golpe de mestre: anulou a política, mandou ao exílio a ética
e impôs a ditadura da economia. A partir de agora não teremos como sempre houve
uma sociedade com mercado mas uma sociedade somente de mercado. O
econômico estrutura tudo e faz de tudo mercadoria sob a regência de uma cruel
concorrência e de uma deslavada ganância. Esta transformação dilacerou os laços
sociais e aprofundou o fosso entre ricos e pobres dentro de cada pais e no nível
internacional.
O outro nome é de um filósofo da escola de Frankfurt, exilado nos EUA, Max
Horkheimer que escreveu a Eclipse da razão (por português de 1976). Ai se
dão as razões para a Grande Transformação de Polanyi que consistem
fundamentalmente nisso: a razão já não se orienta mais pela busca da verdade e
pelo sentido das coisas, mas foi seqüestrada pelo processo produtivo e rebaixada
a uma função instrumental “transformada num simples mecanismo enfadonho de
registrar fatos” Lamenta que “justiça, igualdade, felicidade, tolerância, por
séculos julgadas inerentes à razão, perderam as suas raízes intelectuais”.
Quando a sociedade eclipsa a razão, fica cega, perde o sentido de estar juntos
e se vê atolada no pântano dos interesses individuais ou corporativos. É o que
temos visto na atual crise. Os prêmios Nobel de economia, mas humanistas, Paul
Krugman e Joseph Stiglitz repetidamente escreveram que os players de Wall
Street deveriam estar da cadeia como ladrões e bandidos.
Agora na Grécia e na Itália a Grande Transformação ganhou outro nome: se chama a
Grande Perversão.
Leonardo Boff nasceu em Concórdia, Santa Catarina, aos 14 de dezembro de 1938. Cursou Filosofia em Curitiba-PR e Teologia em Petrópolis-RJ. Doutorou-se em Teologia e Filosofia na Universidade de Munique-Alemanha, em 1970. Ingressou na Ordem dos Frades Menores, franciscanos, em 1959. Em 8 de Dezembro de 2001 foi agraciado com o premio nobel alternativo em Estocolmo (Right Livelihood Award).É autor de mais de 60 livros nas áreas de Teologia, Espiritualidade, Filosofia, Antropologia e Mística. A maioria de sua obra está traduzida nos principais idiomas modernos.