

Filosofia - Colaboradores
(coordenado Por Virgínia Fulber)
e Com a colaboração de autores convidados.
A impossível comensalidade
depois de Doha
Leonardo Boff

O vergonhoso fracasso da Rodada de Doha se deve
principalmente aos países ricos que quiseram garantir a parte leonina nos
mercados dos pobres. Num quadro de fome já instalada, se desperdiçou a
opotunidade de assegurar comida na mesa dos famintos. O sonho ancestral da
comensalidade que nos faz humanos, quando todos poderiam sentar-se à mesa para
comer e comungar, se torna ainda mais distante. Além da crise alimentar, nos
assolam ainda a crise energética e a climática. Se não houverem políticas
mundiais articuladas podemos enfrentar graves riscos às populações e ao
equilíbrio do planeta. Dai A Carta da Terra propor uma aliança de cuidado
universal entre todos os humanos e para com a Terra até como questão de
sobrevivência coletiva.
Os problemas são todos interdependentes. Por isso não é possível uma solução
isolada com meros recursos técnicos, políticos ou comerciais. Precisa-se de uma
coalizão de mentes e coração novos, imbuídos de responsabilidade universal, com
valores e princípios de ação, imprescindíveis para uma outra ordem mundial.
Enumeremos alguns deles:
O primeiro de todos reside no cuidado pela herança que recebemos do
imenso processo da evolução do universo.
O segundo está no respeito e na reverência face à toda alteridade,
a cada ser da natureza e às diferentes culturas.
O terceiro encontra-se da cooperação permanente de todos com todos
porque somos todos eco-interdependentes a ponto de termos um destino comum.
O quarto é a justiça societária que equaliza as diferenças, diminui as
hierarquizações e impede que se transformem em desigualdades.
O quinto é a solidariedade e a compaixão ilimitada para com todos
os seres que sofrem, a começar pela própria Terra que está crucificada e pelos
mais vulneráveis e fracos.
O sexto reside na responsabilidade universal pelo futuro da vida, dos
ecosistemas que garantem a sobrevivência humana, enfim, do próprio planeta
Terra.
O sétimo é a justa medida em todas as iniciativas que concernem a todos
já que viemos de uma experiência cultural marcada pelo excesso e pelas
desigualdades.
Por fim é a auto-contenção de nossa voracidade de acumular e consumir
para que todos possam ter o suficiente e o decente e sentir-se membros da única
família humana.
Tudo isso só é possível se junto com a razão instrumental resgatarmos a razão
sensível e cordial.
A economia não pode se independizar da sociedade pois a consequência será a
destruição da idéia mesma de sociedade e de bem comum. O ideal a ser buscado é
uma economia do suficiente para toda a comunidade de vida.
A política não pode se restringir a ordenar os interesses nacionais mas se
obriga a projetar uma governança global para atender equitativamente os
interesses coletivos.
A espiritualidade precisa ser cósmica que nos permita “viver com reverência o
mistério da existência, com gratidão pelo dom da vida e com humildade face ao
lugar que o ser humano ocupa na natueza”(Carta da Terra, introdução).
O desafio que se impõe parece ser este: passar de uma sociedade de produção
industrial em guerra com a natureza para uma sociedade de promoção de toda a
vida em sintonia com os ciclos da natureza e com sentido de equidade.
Estas são as pré-condições de ordem ética e de natureza prática que se destinam
a criar as condições de uma comensalidade possível entre os humanos.
Logicamente, se fazem necessárias as mediações técnicas, políticas e culturais
para viabilizar este propósito. Mas elas dificilmente serão eficazes se não
forem plasmadas à luz destes princípios-guias que significam valores e
inspirações.
Sábado 02 agosto 2008
Leonardo Boff nasceu em Concórdia, Santa Catarina, aos 14 de dezembro de 1938. Cursou Filosofia em Curitiba-PR e Teologia em Petrópolis-RJ. Doutorou-se em Teologia e Filosofia na Universidade de Munique-Alemanha, em 1970. Ingressou na Ordem dos Frades Menores, franciscanos, em 1959. Em 8 de Dezembro de 2001 foi agraciado com o premio nobel alternativo em Estocolmo (Right Livelihood Award).É autor de mais de 60 livros nas áreas de Teologia, Espiritualidade, Filosofia, Antropologia e Mística. A maioria de sua obra está traduzida nos principais idiomas modernos.