

Filosofia - Colaboradores
(coordenado Por Virgínia Fulber)
e com a colaboração de autores convidados.
A
Páscoa da Terra Crucificada
Leonardo Boff
A páscoa é uma festa comum a
judeus e a cristãos e encerra uma metáfora da atual situação da Terra, nossa
devastada morada comum. Etimologicmente, páscoa significa passagem da escravidão
para a liberdade e da morte para a vida. O Planeta como um todo está passando
por uma severa páscoa. Estamos dentro de um processo acelerado de perda: de ar,
de solos, de água, de florestas, de gelos, de oceanos, de biodiversidade e de
sustentabilidade do própro sistema-Terra. Assistimos estarrecidos aos terremotos
no Haiti e no Chile, seguidos de tsunams. Como se relaciona tudo isso com a
Terra? Quando as perdas vão parar? Ou para onde nos poderão conduzir? Podemos
esperar como na Páscoa que após a sexta-feira santa de paixão e morte, irrompe
sempre nova vida e ressurreição?
Precisamos de uma olhar retrospectivo sobre a história da Terra para lançarmos
alguma luz sobre a crise atual. Antes de mais nada, cumpre reconhecer que
terremotos e devastações são recorrentes na história geológica do Planeta.
Existe uma "taxa de extinção de fundo" que ocorre no processo normal da
evolução. Espécies existem por milhões e milhões de anos e depois desparecem. É
como um indivíduo que nasce, vive por algum tempo e morre. A extinção é o
destino dos indivíduos e das espécies, também da nossa.
Mas além deste processo natural, existem as extinções em massa. A Terra, segundo
geólogos, teria passado por 15 grandes extinções desta natureza. Duas foram
especialmente graves. A primeira ocorrida há 245 milhões de anos por ocasião da
ruptura de Pangéia, aquela continente único que se fragmentou e deu origem aos
atuais continentes. O evento foi tão devastador que teria dizimado entre 75-95%
das espécies de vida então existentes. Por debaixo dos continentes continuam
ativas as placas tectônicas, se chocando umas com as outras, se sobrepondo ou se
afastando, movimento chamado de deriva continental, responsável pelos
terremotos.
A segunda ocorreu há 65 milhões de anos, causada por alterações climáticas,
subida do nivel do mar e arquecimento, eventos provocados por um asteróide de
9,6 km caido na América Central. Provocou incêndios infernais, maremotos, gases
venenosos e longo obscurecimento do sol. Os dinossauros que por 133 milhões de
anos dominavam, soberanos, sobre a Terra, desapareceram totalmente bem como 50%
das espécies vivas. A Terra precisou de dez milhões de anos para se refazer
totalmente. Mas permitiu uma radiação de biodiversidade como jamais antes na
história. O nosso ancestral que vivia na copa das árvores, se alimentando de
flores, tremendo de medo dos dinossauros, pôde descer à terra e fazer seu
percurso que culminou no que somos hoje.
Cientistas (Ward, Ehrlich, Lovelock, Myers e outros) sustentam que está em curso
um outra grande extinção que se iniciou há uns 2,5 millhões e anos quando
extensas geleiras começaram a cobrir parte do Planeta, alterando os climas e os
níveis do mar. Ela se acelerou enormemente com o surgimento de um verdadeiro
meteoro rasante que é o ser humano através de sua sistemática intervenção no
sistema-Terra, particularmente nos último s séculos. Peter Ward (O fim da
evolução, 1977, p.268) refere que esta extinção em massa se nota claramente no
Brasil que nos últimos 35 anos está extinguindo definitivamente quatro espécies
por dia. E termina advertindo:"um gigantesco desastre ecológico nos aguarda".
O que nos causa crise de sentido é a exitência dos terremotos que destroem tudo
e dizimam milhares de pessoas como no Haiti e no Chile. E aqui humildemente
temos que aceitar a Terra assim como é, ora mãe generosa, ora madrasta cruel.
Ela segue mecanismos cegos de suas forças geológicas. Ela nos ignora, por isso
os tsunamis e cataclismos são aterradoras. Mas ela nos passa informações. Nossa
missão de seres inteligentes é descodificá-las para evitar danos ou usá-las em
nosso benefício. Os animais captam tais informações e antes de de um tsunami
fogem para lugares altos. Talvez nós outrora, sabíamos captá-las e nos
defendíamos. Hoje perdemos esta capacidade. Mas para suprir nossa insuficiência,
está ai a ciência. Ela pode descodificar as informações que previamente a Terra
nos passa e nos sugerir estratégias de autodefesa e salvamento.
Como somos a própria Terra que tem consciência e inteligência, estamos ainda na
fase juvenil, com pouco aprendizado. Estamos ingressando na fase adulta,
aprendendo melhor como manejar as energias da Terra e do cosmos. Então a Terra,
através de nosso saber, deixará que seus mecanismos sejam destrutivos. Todos
vamos ainda crescer, aprender e amadurecer.
A Terra pende da cruz. Temos que tirá-la de lá e ressuscitá-la. Então
celebraremos uma páscoa verdadeira, e nos será permitido desejar: feliz Páscoa.
Leonardo Boff é autor de Nossa ressurreição na morte, Vozes 2007.
Leonardo Boff
nasceu em Concórdia, Santa Catarina, aos 14 de dezembro de 1938. Cursou
Filosofia em Curitiba-PR e Teologia em Petrópolis-RJ. Doutorou-se em Teologia e
Filosofia na Universidade de Munique-Alemanha, em 1970. Ingressou na Ordem dos
Frades Menores, franciscanos, em 1959. Em 8 de Dezembro de 2001 foi agraciado
com o premio nobel alternativo em Estocolmo (Right Livelihood Award).É autor de mais
de 60 livros nas áreas de Teologia, Espiritualidade, Filosofia, Antropologia e
Mística. A maioria de sua obra está traduzida nos principais idiomas modernos.