

Filosofia - Colaboradores
(coordenado Por Virgínia Fulber)
e com a colaboração de autores convidados.
A
Perda de confiança na ordem atual
Leonardo Boff
Na perspectiva das grandes maiorias
da humanidade, a atual ordem é uma ordem na desordem, produzida e mantida por
aquelas forças e países que se beneficiam dela, aumentando seu poder e seus
ganhos. Essa desordem se deriva do fato de que a globalização econômica não deu
origem a uma globalização política. Não há nenhuma instância ou força que
controle a voracidade da globalização econômica. Joseph Stiglitz e Paul Krugman,
dois prêmios Nobel em economia, criticam o Presidente Obama por não ter imposto
freios aos ladrões de Wall Street e da City, ao invés de se ter rendido a eles.
Depois de terem provocado a crise, ainda foram beneficiados com inversões
bilionários de dinheiro público. Voltaram, airosos, ao sistema de especulação
financeira.
Estes excepcionais economistas são ótimos na análise mas mudos na apresentação
de saídas à atual crise. Talvez, como insinuam, por estarem convencidos de que a
solução da economia não esteja na economia mas no refazimento das relações
sociais destruídas pela economia de mercado, especialmente, a especulativa. Esta
é sem compaixão e desprovida de qualquer projeto de mundo, de sociedade e de
política. Seu propósito é acumular maximamente, apropiando-se de bens comuns
vitais como água, sementes e solos e destroçado economias nacionais.
Para os especuladores, também no Brasil, o dinheiro serve para produzir mais
dinheiro e não para produzir mais bens. Aqui o Governo tem que pagar 150 bilhões
de reais anuais pelos empréstimos tomados, enquanto repassa apenas cerca de 60
bilhões para os projetos sociais. Esta disparidade resulta eticamente perversa,
consequência do tipo de sociedade a qual nos incorporamos, sociedade essa que
colocou, como eixo estruturador central, a economia que de tudo faz mercadoria
até da vida.
Não são poucos que sustentam a tese de que estamos num momento dramático de
decomposição dos laços sociais. Alain Touraine fala até de fase pós-social ao
invés de pós-industrial.
Esta decomposição social se revela por polarizações ou por lógicas opostas: a
lógica do capital produtivo cerca de 60 trilhões de dólares/ano e a do capital
especulativo, cerca de 600 trilhões de dólares sob a égide do “greed is good”(a
cobiça é boa). A lógica dos que defendem a maior lucratividade possível e a dos
que lutam pelos direitos da vida, da humanidade e da Terra. A lógica do
individualismo que destrói a “casa comum”, aumentando o número dos que não
querem mais conviver e a lógica da solidariedade social a partir dos mais
vulneráveis. A lógica das elites que fazem as mudanças intrasistêmicas e se
apropriam dos lucros e a lógica dos assalariados, ameaçados de desemprego e sem
capacidade de intervenção. A lógica da aceleração do crescimento material (o
PAC) e a dos limites de cada ecossistema e da própria Terra.
Vigora uma desconfiança generalizada de que deste sistema não poderá vir nada de
bom para a humanidade. Estamos indo de mal a pior em todos os itens da vida e da
natureza. O futuro depende do cabedal de confiança que os povos depositam em
suas capacidades e nas possibilidades da realidade. E esta confiança está
minguando dia a dia.
Estamos nos confrontando com esse dilema: ou deixamos as coisas correrem assim
como estão e então nos afundaremos numa crise abissal ou então nos empenharemos
na gestação de uma nova vida social, capaz de sustentar um outro tipo de
civilização. Os vínculos sociais novos não se derivarão nem da técnica nem da
política, descoladas da natureza e de uma relação de sinergia com a Terra.
Nascerão de um consenso mínimo entre os humanos, a ser ainda construido, ao
redor do reconhecimento e do respeito dos direitos da vida, de cada sujeito, da
humanidade e da Terra, tida como Gaia e nossa Mãe comum. A essa nova vida social
devem servir a técnica, a política, as instituições e os valores do passado.
Sobre isso venho pensando e escrevendo já pelo menos há vinte anos. Mas é voz
perdida no deserto. “Clamei e salvei a minha alma”(clamavi et salvavi animam
meam), diria desolado Marx. Mas importa continuar. O improvável é ainda
possível.
Leonardo Boff é autor de Virtudes para um outro mundo possivel 3 vol.
Vozes 2005.
Leonardo Boff escreveu Teologia do cativeiro e da libertação, Vozes 1998.
Leonardo Boff nasceu em Concórdia, Santa Catarina, aos 14 de dezembro de 1938. Cursou Filosofia em Curitiba-PR e Teologia em Petrópolis-RJ. Doutorou-se em Teologia e Filosofia na Universidade de Munique-Alemanha, em 1970. Ingressou na Ordem dos Frades Menores, franciscanos, em 1959. Em 8 de Dezembro de 2001 foi agraciado com o premio nobel alternativo em Estocolmo (Right Livelihood Award).É autor de mais de 60 livros nas áreas de Teologia, Espiritualidade, Filosofia, Antropologia e Mística. A maioria de sua obra está traduzida nos principais idiomas modernos.