

Filosofia - Colaboradores
(coordenado Por Virgínia Fulber)
e com a colaboração de autores convidados.
A Terra se
defende: faz diminuir o crescimento
Leonardo Boff
Hoje é vastamente aceita e
entrou já nos manuais de ecologia mais recentes (cf.R. Barbault, Ecologia Geral,
Vozes 2011) a idéia de que a Terra é viva. Primeiramente, ela foi proposta pelo
geoquímico russo W.Vernadsky na década de 1920 e retomada, nos anos de 1970, com
mais profundidade por J. Lovelock e entre nós por J. Lutzenberger, chamando-a
de Gaia. Com isso se quer significar que a Terra é um gigantesco superorganismo
que se autoregula, fazendo com que todos os seres se interconectem e cooperem
entre si. Nada está à parte, pois tudo é expressão da vida de Gaia, inclusive as
sociedades humanas, seus projetos culturais e suas formas de produção e consumo.
Ao gerar o ser humano, consciente e livre, a própria Gaia se pôs em risco. Ele é
chamado a viver em harmonia com ela mas pode também o romper o laço de pertença.
Ela é tolerante mas quando a ruptura se torna danosa para o todo, ela nos dá
amargas lições.
Todos estão lamentando o baixo crescimento mundial, especialmente nos paises
centrais. As razões aduzidas são múltiplas. Mas para uma visão da ecologia
radical, não se deveria excluir a interpretação de que tal fato resulte de uma
reação da própria Terra face à excessiva exploração pelo sistema produtivista e
consumista que tomou conta do mundo. Ele levou tão longe a agressão ao
sistema-Terra a ponto de, como afirmam alguns cientistas, inauguramos uma nova
era geológica: o antropoceno, o ser humano como uma força geológica destrutiva,
acelerando a sexta extinção em massa que já há milênios está em curso. Gaia
estaria se defendendo, debilitando as condições do arraigado mito de todas as
sociedades atuais, inclusive a do Brasi:do crescimento, o maior possível, com
consumo ilimitado.
Já em 1972 o Clube de Roma se dava conta dos limites do crescimento, este não
sendo mais suportável pela Terra. Ela precisa de um ano e meio para repor o que
extraimos dela num ano. Portanto, o crescimento é hostil à vida e fere a
resiliência da Mãe Terra. Mas não sabemos nem queremos interpretar os sinais que
ela nos dá. Queremos continuar a crescer mais e mais e, consequentemente, a
consumir à tripa forra. O relatório “Perspectivas Econômicas Mundiais” do FMI,
prevê para 2012 um crescimento mundial de 4,3%. Vale dizer, vamos tirar mais
riquezas da Terra, desequilibrando-a como se mostra pelo aquecimento global.
A “Avaliação Sistêmica do Milênio” realizada entre 2001 e 2005 pela ONU, ao
constatar a degradação dos principais itens que sustentam a vida advertiu: ou
mudamos de rota ou pomos em risco o futuro de nossa civilização.
A crise econômica-financeira de 2008 e retornada agora em 2011 refuta o mito do
crescimento. Há uma cegueira generalizada que não poupa sequer os 17 Nobeis da
economia, como se viu recentemente no seu encontro no lago Lindau no sul da
Alemanha. À excessão de J. Stiglitz, todos eram concordes em sustentar que o
marco teórico da atual economia não teve nenhuma responsabilidade pela crise
atual (Página 12, B. Aires, 28/08/2011). Por isso, ingenuamente postularam
seguir a mesma rota de crescimento, com correções, sem se dar conta de que estão
sendo maus conselheiros.
Mas importa reconhecer um dilema de difícil solução: há regiões do planeta que
precisam crescer para atender demandas de pobres, obviamente, cuidando da
natureza e evitando a incorporação da cultura do consumismo; e outras regiões já
super desenvolvidas precisam ser solidárias com as pobres, controlar seu
crescimento, tomar apenas o que é natural e renovável, restaurar o que
devastaram e devolver mais do que retiraram para que as futuras gerações também
possam viver com dignidade, junto com a comunidade de vida.
A redução atual do crescimento representaria uma reação sábia da própria Terra
que nos passa este recado: “parem com a idéia tresloucada de um crescimento
ilimitado, pois ele é como um cancer que vai comendo todas as células sãs;
busquem o desenvolvimento humano, dos bens intangíveis que, este sim, pode
crescer sem limites como o amor, o cuidado, a solidariedade, a compaixão, a
criação artística e espiritual”.
Não incorro em erro na crença de que está havendo ouvidos atentos para essa
mensagem e que faremos a travessia ansiada.
Leonardo Boff nasceu em Concórdia, Santa Catarina, aos 14 de dezembro de 1938. Cursou Filosofia em Curitiba-PR e Teologia em Petrópolis-RJ. Doutorou-se em Teologia e Filosofia na Universidade de Munique-Alemanha, em 1970. Ingressou na Ordem dos Frades Menores, franciscanos, em 1959. Em 8 de Dezembro de 2001 foi agraciado com o premio nobel alternativo em Estocolmo (Right Livelihood Award).É autor de mais de 60 livros nas áreas de Teologia, Espiritualidade, Filosofia, Antropologia e Mística. A maioria de sua obra está traduzida nos principais idiomas modernos.