

Filosofia - Colaboradores
(coordenado Por Virgínia Fulber)
e com a colaboração de autores convidados.
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A dificil busca da autorealização |
Hoje vigora vastamente uma erosão
de valores éticos que normalmente eram vividos e transmitidos pela família e
depois pela escola pela sociedade. Essa erosão fez com que as estrelas-guia do
céu da ética ficassem encobertas por nuvens de interesses danosos para a
sociedade e para o futuro da vida e do equilíbrio da Terra.
Não obstante esta obscuridade, importa reconhecer também a emergência de novos
valores ligados à solidariedade internacional, ao cuidado para com a natureza, à
transparência nas relações sociais e à rejeição de formas de violência política
repressiva e da transgressão dos direitos humanos. Mas nem por isso diminuiu a
crise de valores, especialmente no campo da economia de mercado e das finanças
especulativas que são as instâncias que definem os rumos do mundo e o dia-a-dia
dos assalariados, vivendo sob permanente ameaça de desemprego.
As crises recentes denunciaram máfias de especuladores instalados nas bolsas e
nos grandes bancos cujo volume de rapinagem de dinheiros alheios quase levou à
derrocada todo o sistema financeiro mundial. Ao invés de estarem na cadeia,
depois de pequenos rearanjos, tais velhacos voltaram ao antigo vício da
especulação e do jogo de apropriação indébita dos “commons”, dos bens comuns da
humanidade(água, sementes, solos, energia etc).
Esta atmosfera de anomia e de vale-tudo que se espraia também na política, faz
com que o sentido ético fique embotado e as pessoas diante da geral corrupção se
sintam impotentes e condenadas à amargura ácida e à resignação humilhante. Neste
contexto muitos buscam sentido na literatura de auto-ajuda, feita de cacos de
psicologia, de sabedoria oriental, de espiritualidade com receitas para a
felicidade completa, ilusória, porque não se sustenta nem se apoia num sentido
realista e contraditório da realidade. Outros procuram psicólogos e psicanlistas
que recebem dicas melhor fundadas. Mas no fundo, tudo termina com os seguintes
conselhos: “dada a falência das instâncias criadoras de sentido como as
religiões e as filosofias, devido à confusão de visões de mundo, da
relativização de valores e do vazio de sentido existencial, procure você mesmo
seu caminho, trabalhe seu Eu profundo, estabeleça você mesmo referências éticas
que orientam sua vida e busque sua auto-realização. “Auto-realização”: eis uma
palavra mágica, carregada de promessas.
Não serei eu que vá combater a “auto-realização” depois de escrever “A águia e a
galinha: uma metáfora da condição humana”(Vozes 1999), livro que estimula as
pessoas a encontrarem em si mesmas as razões de uma auto-realização sensata.
Esta resulta da sábia combinação da dimensão de águia e da de galinha. Quando
devo ser galinha, quer dizer, concreto, atento aos desafios do cotidiano e
quando devo ser águia que busca voar alto para, em liberdade, realizar
potencialidades escondidas. Ao articular tais dimensões, cria-se a possibilidade
de uma autorealização bem sucedida.
Penso que esta autorealização só se consegue se incorporar seriamente três
outras dimensões. A primeira é a dimensão de sombra. Cada um possui seu lado
auto-centrado, arrogante e outras limitações que não nos enobrecem. Esta
dimensão não é defeito mas marca de nossa condição humana, feita da união dos
contrários. Acolher tal sombra, cuidar que seus efeitos maléficos não atinjam os
outros, nos faz humildes, compreensivos das sombras alheias e nos permite uma
experiência humana mais completa e integrada.
A segunda dimensão é a relação com os outros, aberta, sincera e feita de trocas
enriquecedoras. Somos seres de relação. Não há nenhuma autorealização cortando
os laços com os demais.
A terceira dimensão é alimentar certo nível de espiritualidade. Com isso não
quero dizer que a pessoa deva se inscrever em alguma confissão religiosa. Pode
até ocorrer mas não é imprescindível. O importante é abrir-se ao capital
humano/espiritual que, ao contrário do capital material, é ilimitado e feito de
valores como a verdade, a justiça, a solidariedade e o amor. É nesta dimensão
que emerge a questão improstergável: que sentido tem, afinal, minha vida e o
inteiro universo? Que posso esperar? A volta ao pó cósmico ou ao abrigo num
Útero divino que me acolhe assim como sou?
Se esta última for a resposta, a autorealização traz profundidade e uma
felicidade íntima que ninguém pode tirar.
Leonardo Boff nasceu em Concórdia, Santa Catarina, aos 14 de dezembro de 1938. Cursou Filosofia em Curitiba-PR e Teologia em Petrópolis-RJ. Doutorou-se em Teologia e Filosofia na Universidade de Munique-Alemanha, em 1970. Ingressou na Ordem dos Frades Menores, franciscanos, em 1959. Em 8 de Dezembro de 2001 foi agraciado com o premio nobel alternativo em Estocolmo (Right Livelihood Award).É autor de mais de 60 livros nas áreas de Teologia, Espiritualidade, Filosofia, Antropologia e Mística. A maioria de sua obra está traduzida nos principais idiomas modernos.