

Filosofia - Colaboradores
(coordenado Por Virgínia Fulber)
e com a colaboração de autores convidados.
Como lidar com os anjos e os demônios interiores
Leonardo Boff
O ser humano constitui uma unidade
complexa: é simultaneamente homem-corpo, homem-psiqué e homem-espírito.
Detenhamo-nos no homem-psiqué, vale dizer, no seu mundo interior, urdido de
emoções e paixões, luzes e sombras, sonhos e utopias. Como há um universo
exterior, feito de ordens-desordens-novas ordens, de devastações medonhas e de
emergâncias promissoras, assim há também um mundo interior, habitado por anjos e
os demônios. Eles revelam tendências que podem levar à loucura e à morte e
energias de generosidade e de amor que nos podem trazer autorealização e
felicidade.
Como observava o grande conhecedor dos meandros da psiqué humana C.G. Jung: a
viagem rumo ao próprio Centro, devido a estas contradições, pode ser mais
perigosa e longa do que a viagem à Lua e às estrelas.
Há uma questão nunca resolvida satisfatoriamente entre os pensadores da condição
humana: qual é a estrutura de base de nossa interioridade, de nosso ser
psíquico? Muitas são as escolas de intérpretes.
Resumindo, sustentamos a tese de que a razão não comparece como a realidade
primeira. Antes dela há todo um universo de paixões e emoções que agitam o ser
humano. Acima dela há inteligência pela qual intuimos a totalidade, nossa
abertura ao infinito e o êxtase da contemplação do Ser. As razões começam com a
razão. A razão mesma é sem razão. Ela simplesmente está aí, indecifrável.
Mas ela remete a dimensões mais primitivas de nossa realidade humana das quais
se alimenta e que a perpassam em todas as suas expressões. A razão pura
kantiana é uma ilusão. A razão sempre vem impregnada de emoção e de paixão, fato
aceito pelo moderna epistemologia. A cosmologia contemporânea inclui na idéia
do universo não apenas energias, galáxias e estrelas mas também a presença do
espírito e da subjetividade.
Conhecer é sempre um entrar em comunhão interessada e afetiva com o objeto do
conhecimento. Apoiado por uma plêiade de outros pensadores, tenho sempre
sustentado que o estatuto de base do ser humano não reside no cogito
cartesiano (no eu penso, logo sou), mas no sentio platônico-agostiniano
(no sinto, logo existo), no sentimento profundo. Este nos põe em contacto vivo
com as coisas, percebendo-nos parte de um todo maior, sempre afetando e sendo
afetados. Mais que idéias e visões de mundo, são paixões, sentimentos fortes,
experiências seminais, o amor e também seus contrários, as rejeições e os ódios
avassaladores que nos movem e nos põem marcha.
A razão sensível lança suas raizes no surgimento da vida, há 3,8 bilhões de
anos, quando as primeiras bactérias irromperam e começaram a dialogar quimicante
com o meio para poder sobreviver. Esse processo se aprofundou a partir do
momento em que surgiu o cérebro límbico, dos mamíferos, há mais de 125 milhões
de anos, cérebro portador de cuidado, enternecimento, carinho e amor pela cria.
É a razão emocional que alcançou o patamar autoconsciente e inteligente com os
seres humanos, pois somos também mamíferos.
O pensamento ocidental é logocêntrico e antropocêntrico e sempre colocou sob
suspeita a emoção por medo de prejudicar a objetividade da razão. Em alguns
setores da cultura, criou-se uma espécie de lobotomia, quer dizer, uma grande
insensibilidade face ao sofrimento humano e aos padecimentos pelos quais tem
passado a natureza e o planeta Terra.
Nos dias atuais, nos damos conta da urgência de, junto com a razão intelectual
irrenunciável, importa incluir fortemente a razão sensível e cordial. Se não
voltarmos a sentir com afeto e amor a Terra como nossa Mãe e nós, como a parte
consciente e inteligente dela, dificilmente nos moveremos para salvar a vida,
sanar feridas e impedir catástrofes.
Um dos méritos inegáveis da tradição psicanalítica, a partir do mestre-fundador
Sigmund Freud, foi o de ter estabelecido cientificamente a passsionalidade como
a base, em grau zero, da existência humana. O psicanalista trabalha não a partir
do que o paciente pensa mas a partir de suas reações afetivas, de seus anjos e
demônios, buscando estabelecer certo equilíbrio e uma serenidade interior
sustentável.
A questão toda é como nos assenhorear criativamente de nossa passaionalidade de
natureza vulcânica. Freud se centra na integração da libido, Jung na busca da
individuação, Adler no controle da vontade de poder, Carl Rogers no
desenvolvimento da personalidade, Abraham Maslow no esforço de autorealização
das potencialidades latentes. Outros nomes poderiam ser citados como Lacan,
Reich, Pavlov, Skinner, a psicologia transpessoal e a cognitiva comportamental e
outros.
O que nos é permitido afirmar é que, independentemente, das várias escolas
psicanalíticas e filosóficas, o homem-psiqué se vê obrigado a integrar
criativamente seu universo interior sempre em movimento, com tendências dia-bólicas
e sim-bólicas, destrutivas e construtivas. Por acertos e erros vamos,
processualmente, descobrindo nosso caminho.
Ninguém nos poderá substituir. Somos condenados a ser mestres e discípulos de
nós mesmos.
Leonardo Boff
Caixa Postal 92144 - Itaipava
25741-970 - Petrópolis-RJ
www.leonardoboff.com
Leonardo Boff nasceu em Concórdia, Santa Catarina, aos 14 de dezembro de 1938. Cursou Filosofia em Curitiba-PR e Teologia em Petrópolis-RJ. Doutorou-se em Teologia e Filosofia na Universidade de Munique-Alemanha, em 1970. Ingressou na Ordem dos Frades Menores, franciscanos, em 1959. Em 8 de Dezembro de 2001 foi agraciado com o premio nobel alternativo em Estocolmo (Right Livelihood Award).É autor de mais de 60 livros nas áreas de Teologia, Espiritualidade, Filosofia, Antropologia e Mística. A maioria de sua obra está traduzida nos principais idiomas modernos.