

Filosofia - Colaboradores
(coordenado Por Virgínia Fulber)
e com a colaboração de autores convidados.
Como lidar com o desejo
infinito?
Leonardo Boff
O
desejo não é um impulso qualquer. É um motor que põe em marcha toda a vida
psíquica. Ele goza da função de um princípio, traduzido pelo filósofo Ernst
Bloch por princípio esperança. Por sua natureza, não conhece limites
como já foi visto por Aristóteles e por Freud. A psiqué não deseja apenas isto o
aquilo. Ela deseja a totalidade. Não deseja a plenitude do homem, procura o
super-homem, aquilo que ultrapassa infinitamente o humano como afirmava
Nietzsche. O desejo se apresenta infinito e confere o caráter de infinito ao
prejo humano.
O desejo torna dramática e, por vezes, trágica a existência. Mas também, quando
realizado, uma felicidade sem igual. Estamos sempre buscando o objeto adequado
ao nosso desejo infinito. E não o encontramos no campo da experiência
cotitidiana. Aqui somente encontramos finitos.
Produz grave desilusão quando o ser humano identifica uma realidade finita como
sendo o objeto infinito buscado. Pode ser a pessoa amada, uma profissão sempre
ansiada, a casa dos sonhos. Chega o momento que, geralmente, não tarda muito, em
perceber uma insatisfação de base e sentir o desejo por algo maior.
Como sair deste impasse, provocado pelo desejo infinito? Borboletar de um objeto
a outro, sem nunca encontrar repouso? Temos que nos colocar seriamente na busca
do verdadeiro objeto de nosso desejo. Entrando in medias res, vou logo
respondendo: este é o Ser e não o ente, é o Todo e não a parte, é Infinito e
não o finito. Depois de muito peregrinar, o ser humano é levado a fazer a
experiência do cor inquietum (coração inquieto) de Santo Agostinho:
Tarde te amei, ó Beleza tão antiga e tão nova.Tarde de te amei.
Meu coração inquieto não descansará enquanto não respousar em Ti.
Só o Infinito Ser se adequa ao desejo infinito do ser humano e lhe permite
descansar.
O desejo envolve energias vulcânicas poderosas. Como lidar com elas? Antes de
mais nada, se trata de acolher, sem moralizar, esta condição desejante. As
paixões puxam o ser humano para todos os lados. Algumas o atiram para a
generosidade e outras para o egocentrismo. Integrar, sem recalcar tais energias,
exige cuidado e não poucas renúncias.
A psiqué é convocada a construir uma síntese pessoal que é a busca do
equilíbrio de todas as energias interiores. Nem fazer-se vítima da obsessão por
uma determinada pulsão, como por exemplo, a sexualidade, nem recalcá-la como se
fosse possível emasculhar-lhe o vigor. O que importa é integrá-la como
expressão de afeto, de amor e de estética e mantê-la sob vigilância pois temos a
ver com uma energia vital não totalmente controlável pela razão mas por vias
simbólicas de sublimação e por outros propósitos humanísticos. Cada um deve
aprender a renunciar no sentido de uma ascese que liberta de dependências e cria
a liberdade interior,um dom dos mais apreciáveis.
Outra forma de lidar com o desejo infinito é pela precaução que nos previne des
ciladas da própria vulnerabilidade humana. Não somos onipotentes, nem deuses,
inatingíveis ao fracasso. Podemos mostrar-nos fracos e, por vezes, covardes. Mas
podemos precaver-nos contra situações que nos poderão fazer cair e perder o
Centro.
Talvez uma chave inspiradora nos seja nos oferecida por C.G.Jung com sua
proposta de construir, ao largo da vida, um processo de individuação. Este
possui uma dimensão holística: assume com destemor e humildade todas as pulsões,
imagens, arquétipos, luzes e sombras. Ouve o rugir das feras que o habitam mas
também o canto do sabiá que o encanta. Como criar uma unidade interior cujo
efeito seja o equilíbrio dos desejos, a vivência da liberdade e da alegria de
viver?
C. G. Jung sugere que cada um procure criar um Centro forte, um Self
unificador que tenha a função que o sol possui no sistema solar. Ele sateliza ao
seu redor todos os planetas. Algo semelhante deve ocorrer com a psiqué:
alimentar um Centro pessoal que tudo integre, com reflexão e com
interiorização. E não em último lugar, com o cultivo do Sagrado e do Espiritual.
A religião, como instituição, não raro cerceia a vida espiritual por excesso de
doutrinas e de normas morais demasiado rígidas. Mas religião como
espiritualidade desempenha uma função fundamental no processo de individuação.
Cabe a ela ligar e re-ligar a pessoa com seu Centro, com todas as coisas, com o
universo, com a Fonte originária de todo o ser, dando-lhe um sentimento de
pertença.
A falta da integração da energia do desejo se manifesta pela dilaceração das
relações sociais, pela violência assassina praticada em escolas ou nas matanças
de pessoas negras, pobres e homoafetivos.
Lidar com as forças do desejo implica, pois, uma preocupação pela sanidade
social. Não se poderá passar ao lado da educação humanística, ética e cidadã que
eduque o desejo. O grande obstáculo reside na lógica mesma do sistema imperante
que exaspera o desejo de ter, descuidando dos valores civilizatórios, da
gentileza, do bom trato e do respeito a cada pessoa. Ao contrário, os meios de
comunicação de massa exaltam o desejo individual e a violência para resolver os
conflitos humanos.
A globalização como fenômeno humano, nos obrigará a moderar os desejos pessoais
em favor dos coletivos e assim tornar mais equilibrada e amigável a coexistência
humana. Como desejamos tempos favoráveis!
Leonardo Boff é autor de
Comer e beber juntos e viver
em paz. Vozes 2008.
Leonardo Boff nasceu em Concórdia, Santa Catarina, aos 14 de dezembro de 1938. Cursou Filosofia em Curitiba-PR e Teologia em Petrópolis-RJ. Doutorou-se em Teologia e Filosofia na Universidade de Munique-Alemanha, em 1970. Ingressou na Ordem dos Frades Menores, franciscanos, em 1959. Em 8 de Dezembro de 2001 foi agraciado com o premio nobel alternativo em Estocolmo (Right Livelihood Award).É autor de mais de 60 livros nas áreas de Teologia, Espiritualidade, Filosofia, Antropologia e Mística. A maioria de sua obra está traduzida nos principais idiomas modernos.