

Filosofia - Colaboradores
(coordenado Por Virgínia Fulber)
e com a colaboração de autores convidados.
Contribuição da América Latina para uma geosociedade
Leonardo Boff
Por todas as partes no mundo cresce a resistência ao sistema de dominação do
capital globalizado pelas grandes corporações multilaterais sobre as nações, as
pessoas concretas e sobre a natureza. Está surgindo, bem ou mal, um design
ecologicamente orientado por práticas e projetos que já ensaiam o novo. A base é
sempre a economia solidária, o respeito aos ciclos da natureza, a sinergia com a
Mãe Terra, a economia a serviço da vida e não do lucro e uma política sustentada
pela hospitalidade, pela tolerância, pela colaboração e pela solidariedade entre
os mais diferentes povos, demovendo destarte as bases para o fundamentalismo
religioso e político e do terrorismo que assistimos nos EUA e agora na Noruega.
Entre muitos projetos existentes na América Latina como a
economia solidária, a agricultura orgânica familiar, as energias alternativas
limpas, a Via Campesina, o Movimento Zapatista e outros queremos destacar dois
pela relevância universal que representam: o primeiro é o “Bem Viver” e o
segundo a “Democracia Comunitária e da Terra”, como expressão de um novo tipo de
socialismo.
O “Bem Viver” está presente ao longo de todo o continente Abya
Yala (nome indígena para o Continente sulamericano), do extremo norte até o
extremo sul, sob muitos nomes dos quais dois são as mais conhecidos: suma
qamaña (da cultura aymara) e suma kawsay(da cultura quéchua). Ambas
significam: “o processo de vida em plenitude”. Esta resulta da vida pessoal e
social em harmonia e equilibrio material e espiritual. Primeiramente é um saber
viver e em seguida um saber conviver: com os outros, com a comunidade, com a
Divindade, com a Mãe Terra, com suas energias presentes nas montanhas, nas
águas, nas florestas, no sol, na lua, no fogo e em cada ser. Procura-se uma
economia não da acumulação de riqueza mas da produção do suficiente e do decente
para todos, respeitando os ciclos da Pacha Mama e as necessidades das gerações
futuras.
Esse “Bem Viver” não tem nada a ver com o nosso “Viver Melhor” ou
“Qualidade de Vida”. O nosso Viver Melhor supõe acumular meios materiais,
para poder consumir mais dentro da dinâmica de um progresso ilimitado cujo motor
é a competição e a relação meramente de uso da natureza, sem respeitar seu valor
intrínseco e sem se reconhecer parte dela. Para que alguns possam viver melhor,
milhões têm que viver mal.
O “Bem Viver” não se identifica simplesmente com o nosso “Bem
Comum”, pensado somente em função dos seres humanos em sociedade, num
antropo-e-sociocentrismo inconsciente. O “Bem Viver” abarca tudo o que existe, a
natureza com seus diferentes seres, todos os humanos, a busca do equilíbrio
entre todos também com os espíritos, com os sábios (avôs e avós falecidos), com
Deus, para que todos possam conviver harmonicamente. Não se pode pensar o “Bem
Viver” sem a comunidade, a mais ampliada possível, humana, natural, terrenal e
cósmica. A “minga” que é o trabalho comunitário, expressa bem este espírito de
cooperação.
Essa categoria do “Bem Viver” e do “Viver Bem” entrou nas
constituições do Equador e da Bolívia. A grande tarefa do Estado é poder criar
as condições deste “Bem Viver” para todos os seres e não só para os humanos.
Esta perspectiva, nascida na periferia do mundo, com toda sua carga utópica, se
dirige a todos, pois é uma tentativa de resposta à crise atual. Ela poderá
garantir o futuro da vida, da humanidade e da Terra.
A outra contribuição latinoamericana para um outro mundo possível
é a “Democracia Comunitária e da Terra”. Trata-se de um tipo de vida social,
existente nas culturas da Abya Yala, reprimida pela colonização mas que agora,
com o movimento indígena resgatando sua identidade, está atraindo o olhar dos
analistas. É uma forma de participação que vai além da democracia clássica
representativa e participativa, de cunho europeu. Ela as inclui, mas aporta um
elemento novo: a comunidade como um todo; esta participa na elaboração dos
projetos, de sua discussão, da construção do consenso e de sua implementação.
Ela pressupõe já uma vida comunitária estabelecida na população.
Ela se distingue do outro tipo de democracia por incluir toda a
comunidade, a natureza e a Mãe Terra. Reconhecem-se os direitos da natureza, dos
animais, das florestas, das águas, como aparece nas constitições novas do
Equador e da Bolívia. Faz-se uma ampliação da personalidade jurídica aos demais
seres, especialmente à Mãe Terra. Pelo fato de serem vivos, possuem um valor
intrínseco e são portadores de dignidade e direitos e por isso são merecedores
de respeito.
A democracia será então sócio-terrenal-planetária, a democracia
da Terra. Há os que dizem: tudo isso é utopia. E de fato é. Mas uma utopia
necessária. Quando tivermos superado a crise da Terra (se a superarmos) o
caminho da Humanidade seria este: globalmente nos organizarmos ao redor do “Bem
Viver” e de uma “Democracia da Terra”, da “Biocivilização”(Sachs). Já existem
sinais antecipadores deste futuro.
Leonardo Boff é autor de Igreja:carisma e poder, Record 2005.
Leonardo Boff nasceu em Concórdia, Santa Catarina, aos 14 de dezembro de 1938. Cursou Filosofia em Curitiba-PR e Teologia em Petrópolis-RJ. Doutorou-se em Teologia e Filosofia na Universidade de Munique-Alemanha, em 1970. Ingressou na Ordem dos Frades Menores, franciscanos, em 1959. Em 8 de Dezembro de 2001 foi agraciado com o premio nobel alternativo em Estocolmo (Right Livelihood Award).É autor de mais de 60 livros nas áreas de Teologia, Espiritualidade, Filosofia, Antropologia e Mística. A maioria de sua obra está traduzida nos principais idiomas modernos.