

Filosofia - Colaboradores
(coordenado Por Virgínia Fulber)
e com a colaboração de autores convidados.
Crise terminal do capitalismo?
Leonardo Boff
Tenho
sustentado que a crise atual do capitalismo é mais que conjuntural e estrutural.
É terminal. Chegou ao fim o gênio do capitalismo de sempre adaptar-se a
qualquer circunstância. Estou consciente de que são poucos que representam esta
tese. No entanto, duas razões me levam a esta interpretação.
A primeira é a seguinte: a crise é terminal porque todos nós, mas
particularmente, o capitalismo, encostamos nos limites da Terra. Ocupamos,
depredando, todo o planeta, desfazendo seu sutil equilíbrio e exaurindo
excessivamente seus bens e serviços a ponto de ele não conseguir, sozinho, repor
o que lhes foi sequestrado. Já nos meados do século XIX Karl Marx escreveu
profeticamente que a tendência do capital ia na direção de destruir as duas
fontes de sua riqueza e reprodução: a natureza e o trabalho. É o que está
ocorrendo.
A natureza, efetivamente, se encontra sob grave estresse, como nunca esteve
antes, pelo menos no último século, abstraindo das 15 grandes dizimações que
conheceu em sua história de mais de quatro bilhões de anos. Os eventos extremos
verificáveis em todas as regiões e as mudanças climáticas tendendo a um
crescente aquecimento global falam em favor da tese de Marx. Como o
capitalismo vai se reproduzir sem a natureza? Deu com a cara num limite
intransponível.
O trabalho está sendo por ele precarizado ou prescindido. Há grande
desenvolvimento sem trabalho. O aparelho produtivo informatizado e robotizado
produz mais e melhor, com quase nenhum trabalho. A consequência direta é o
desemprego estrutural.
Milhões nunca mais vão ingressar no mundo do trabalho, sequer no exército de
reserva. O trabalho, da dependência do capital, passou à prescindência. Na
Espanha o desemprego atinge 20% no geral e 40% e entre os jovens. Em Portugual
12% no pais e 30% entre os jovens. Isso significa grave crise social, assolando
neste momento a Grécia. Sacrifica-se toda uma sociedade em nome de uma economia,
feita não para atender as demandas humanas mas para pagar a dívida com bancos e
com o sistema financeiro. Marx tem razão: o trabalho explorado já não é mais
fonte de riqueza. É a máquina.
A segunda razão está ligada à crise humanitária que o capitalismo está gerando.
Antes se restringia aos paises periféricos. Hoje é global e atingiu os paises
centrais. Não se pode resolver a questão econômica desmontando a sociedade. As
vítimas, entrelaças por novas avenidas de comunicação, resistem, se rebelam e
ameaçam a ordem vigente. Mais e mais pessoas, especialmente jovens, não estão
aceitando a lógica perversa da economia política capitalista: a ditadura das
finanças que via mercado submete os Estados aos seus interesses e o
rentitentismo dos capitais especulativos que circulam de bolsas em bolsas,
auferindo ganhos sem produzir absolutamene nada a não ser mais dinheiro para
seus rentistas.
Mas foi o próprio sistema do capital que criou o veneno que o pode matar: ao
exigir dos trabalhadores uma formação técnica cada vez mais aprimorada para
estar à altura do crescimento acelerado e de maior competitividade,
involuntariamente criou pessoas que pensam. Estas, lentamente, vão descobrindo a
perversidade do sistema que esfola as pessoas em nome da acumulação meramente
material, que se mostra sem coração ao exigir mais e mais eficiência a ponto de
levar os trabalhadores ao estresse profundo, ao desespero e, não raro, ao
suicídio, como ocorre em vários países e também no Brasil.
As ruas de vários paises europeus e árabes, os “indignados” que enchem as praças
de Espanha e da Grécia são manifestação de revolta contra o sistema político
vigente a reboque do mercado e da lógica do capital. Os jovens espanhois gritam:
“não é crise, é ladroagem”. Os ladrões estão refestelados em Wall Street, no FMI
e no Banco Central Europeu, quer dizer, são os sumo-sacerdotes do capital
globalizado e explorador.
Ao agravar-se a crise, crescerão as multidões, pelo mundo afora, que não
aguentam mais as consequências da super-exploracão de suas vidas e da vida da
Terra e se rebelam contra este sistema econômico que faz o que bem entende e que
agora agoniza, não por envelhecimento, mas por força do veneno e das
contradições que criou, castigando a Mãe Terra e penalizando a vida de seus
filhos e filhas.
Leonardo Boff é autor de Proteger a Terra-cuidar da vida: como evitar o
fim do mund, Record 2010.
Leonardo Boff nasceu em Concórdia, Santa Catarina, aos 14 de dezembro de 1938. Cursou Filosofia em Curitiba-PR e Teologia em Petrópolis-RJ. Doutorou-se em Teologia e Filosofia na Universidade de Munique-Alemanha, em 1970. Ingressou na Ordem dos Frades Menores, franciscanos, em 1959. Em 8 de Dezembro de 2001 foi agraciado com o premio nobel alternativo em Estocolmo (Right Livelihood Award).É autor de mais de 60 livros nas áreas de Teologia, Espiritualidade, Filosofia, Antropologia e Mística. A maioria de sua obra está traduzida nos principais idiomas modernos.