

Filosofia - Colaboradores
(coordenado Por Virgínia Fulber)
e com a colaboração de autores convidados.
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Cuidar do
luto e Das Perdas |
Pertencem, inexoravelmente, à condição humana, as perdas e o luto. Todos somos
submetidos à férrea lei da entropia: tudo vai lentamente se desgastando; o corpo
enfraquece, os anos deixam marcas, as doenças vão nos tirando irrefreavelmente
nosso capital vital. Essa é a lei da vida que inclui a morte.
Mas há também rupturas que quebram esse fluir natural. São as perdas que
significam eventos traumáticos como a traição do amigo, a perda do emprego, a
perda da pessoa amada pelo divórcio ou pela morte repentina. Surge a tragédia,
também parte da vida.
Representa grande desafio pessoal trabalhar as perdas e alimentar a resiliência,
vale dizer, o aprendizado com os choques existenciais e com as crises.
Especialmente dolorosa é a vivência do luto, pois mostra todo o peso do
Negativo. O luto, possui uma exigência intrínseca: ele cobra ser sofrido,
atravessado e, por fim, superado positivamente.
Há muitos estudos especializados sobre o luto. Segundo o famoso casal alemão
Kübler-Ross há vários passos de sua vivência e superação.
O primeiro é a recusa: face ao fato paralisante, a pessoa, naturalmente,
exclama:”não pode ser”; “ é mentira”. Irrompe o choro desconsolado que palavra
nenhuma pode sustar.
O segundo passo é a raiva que se expressa:“por que exatamente comigo? Não
é justo o que ocorreu”. É o momento em que a pessoa percebe os limites
incontroláveis da vida e reluta em reconhecê-los. Não raro, ela se culpa pela
perda, por não ter feito o que devia ou deixado de fazer.
O terceiro passo se caracteriza pela depressão e pelo vazio existencial.
Fechamo-nos em nosso próprio casulo e nos apiedamos de nós mesmos. Resistimos a
nos refazer. Aqui todo abraço caloroso e toda palavra de consolação, mesmo
soando convencional, ganha um sentido insuspeitado. É o anseio da alma de ouvir
que há sentido e que as estrelas-guias apenas se obscureceram e não
desapareceram.
O quarto é o autofortalecimento mediante uma espécie de negociação
com a dor da perda: “não posso sucumbir nem afundar totalmente; preciso aguentar
esta dilaceração, garantir meu trabalho e cuidar de minha família”. Um ponto
de luz se anuncia no meio da noite escura.
O quinto se apresenta como uma aceitação resignada e serena do
fato incontornável. Acabamos por incorporar na trajetória de nossa existência
essa ferida que deixa cicatrizes. Ninguém sai do luto como entrou. A pessoa
amadurece forçosamente e se dá conta de que toda perda não precisa ser total;
ela traz sempre algum ganho existencial.
O luto significa uma travessia dolorosa. Por isso precisa ser cuidado.
Permito-me um exemplo autobiográfico que aclara melhor a necessidade de cuidar
do luto. Em 1981 perdi uma irmã com a qual tinha especial afinidade. Era a
última das irmãs de 11 irmãos. Como professora, por volta das 10 horas, diante
dos alunos, deu um imenso brado e caiu morta. Misteriosamente, aos 33 anos,
rompera-se a aorta.
Todos da família vindos de várias partes do pais, ficamos desorientados pelo
choque fatal. Choramos copiosas lágrimas. Passamos dois dias vendo fotos e
recordando, pesarosos, fatos engraçados da vida da irmãzinha querida. Eles
puderam cuidar do luto e da perda. Eu tive que partir logo após para o Chile,
onde tinha palestras para frades de todo o Cone Sul. Fui com o coração partido.
Cada palestra era um exercício de auto-superação. Do Chile emendei para a Itália
onde tinha palestras de renovação da vida religiosa para toda uma congregação.
A perda da irmã querida me atormentava como um absurdo insuportável. Comecei a
desmaiar duas a três vezes ao dia sem uma razão física manifesta. Tive que ser
levado ao médico. Contei-lhe o drama que estava passando. Ele logo intuiu e
disse: “você não enterrou ainda sua irmã nem guardou o luto necessário; enquanto
não a sepultar e cuidar de seu luto, você não melhorará; algo de você morreu com
ela e precisa ser ressuscitado”. Cancelei todos os demais programas. No
silêncio e na oração cuidei do luto. Na volta, num restaurante, enquanto
lembrávamos a irmã querida meu irmão Clodovis e eu escrevemos num guardanapo de
papel o que colocamos no santinho de sua memória:
“Foram trinta e três anos, como os anos da idade de Jesus/Anos de muito trabalho
e sofrimento/Mas também de muito fruto/Ela carregava a dor dos outros/Em seu
próprio coração, como resgate/Era límpida como a fonte da montanha/Amável e
terna como a flor do campo/Teceu, ponto por ponto, e no silêncio/Um brocado
precioso/Deixou dois pequenos, robustos e belos/E um marido, cheio de orgulho
dela/Feliz você, Cláudia, pois o Senhor voltando/Te encontrou de pé, no
trabalho/Lâmpada acesa/Foi então que caiste em seu regaço/Para o abraço infinito
da Paz”.
Entre seus papéis encontramos a frase:”Há sempre um sentido de Deus em todos os
eventos humanos: importa descobri-lo”. Até hoje estamos procurando esse sentido
que somente na fé o suspeitamos.
Leonardo Boff nasceu em Concórdia, Santa Catarina, aos 14 de dezembro de 1938. Cursou Filosofia em Curitiba-PR e Teologia em Petrópolis-RJ. Doutorou-se em Teologia e Filosofia na Universidade de Munique-Alemanha, em 1970. Ingressou na Ordem dos Frades Menores, franciscanos, em 1959. Em 8 de Dezembro de 2001 foi agraciado com o premio nobel alternativo em Estocolmo (Right Livelihood Award).É autor de mais de 60 livros nas áreas de Teologia, Espiritualidade, Filosofia, Antropologia e Mística. A maioria de sua obra está traduzida nos principais idiomas modernos.