

Filosofia - Colaboradores
(coordenado Por Virgínia Fulber)
e com a colaboração de autores convidados.
Despertar a
dimensão xamânica
Leonardo Boff
Como seres conscientes e inteligentes temos o nosso
lugar e nossa função dentro do processo cosmogênico. Se não somos o centro de
tudo, seguramente, somos uma daquelas pontas avançadas pelas quais o universo se
volta sobre si mesmo, vale dizer, se torna consciente. O princípio andrópico
fraco nos concede dizer que para sermos o que somos, todos as energias e
processos da evolução se organizaram de forma tão articulada e sutil que
permitiram o nosso surgimento, caso contrário não estaria aqui escrevendo agora.
Através de nós, o universo e a Terra se veem e se contemplam a si mesmos. A
vista surgiu há 600 milhões de anos. Até lá a Terra era cega. O céu profundo e
estrelado, as cataratas do Iguaçu, onde escrevo agora, o verdor das florestas,
aqui ao lado, não podiam ser vistos. Pela nossa vista a Terra e o universo podem
ver toda essa indescritível beleza.
Os povos originários, dos andinos aos samis do Ártico, se sentiam unidos ao
universo, como irmãos e irmãs das estrelas, formando uma grande família cósmica.
Nós perdemos esse sentimento de mútua pertença. Sentiam que forças cósmicas
equilibravam o curso de todos os seres e atuavam em sua interioridade. Viver
consoante estas energias universais era levar uma vida sustentável, serena e
cheia de sentido.
Sabemos pela física quântica que a consciência e o mundo material estão
conectados e a maneira que um cientista escolhe para fazer a sua observação,
afeta o objeto observado. Observador e objeto observado se encontram
indissoluvelmente ligados. Dai que a inclusão da consciência, nas teorias
científicas e na própria realidade do cosmos, é um dado já assimilado por grande
parte da comunidade científica. Formamos, efetivamente, um todo complexo e
diversificado.
São conhecidas as figuras dos xamãs, tão presentes no mundo antigo e que hoje
estão voltando com renovado vigor como o tem mostrado o físico quântico J.
Drouot em se livro O Xamã, o Físico e o Místico (Record 2002) que tive a honra
de prefaciar. O xamã vive um estado de consciência singular que o faz entrar em
contato íntimo com as energias cósmicas. Ele entende o chamados das montanhas,
dos lagos, das florestas, dos animais e, das estrelas e dos outros. Sabe
conduzir tais energias para curar e harmonizar o ser humano com o todo.
Em cada um de nós existe a dimensão xamânica, escondida dentro de nossa
interioridade Essa energia xamânica nos faz silenciar diante da grandeza do mar,
vibrar diante do olhar da pessoa amada e estremecer face a um recém nascido.
Precisamos liberar esta dimensão em nós para entrarmos em sintonia com tudo o
que nos cerca e sentirmo-nos em paz.
Talvez nossa vontade de viajar com as naves espaciais na direção do espaço
cósmico, não seja o desejo arquetípico de buscar nossas origens estelares e o
ímpeto de regressar ao lugar de nosso nascimento? Vários astronautas expressaram
semelhantes idéias.
Pertence à noção compreensiva de sustentabilidade, esta nossa busca incontida de
equilíbrio com o todo e de sentirmo-nos parte do universo. A sustentabilidade
comporta valorizar este capital humano e espiritual cujo efeito é produzir em
nós respeito, sentido de sacralidade diante de todas as realidades, valores que
alimentam a ecologia profunda e que nos ajudam a respeitar e a viver em sintonia
com a Mãe Terra. Hoje faz-se urgente essa atitude, para moderar a força
destrutiva que nas últimas décadas tomou conta de nós.
Leonardo Boff nasceu em Concórdia, Santa Catarina, aos 14 de dezembro de 1938. Cursou Filosofia em Curitiba-PR e Teologia em Petrópolis-RJ. Doutorou-se em Teologia e Filosofia na Universidade de Munique-Alemanha, em 1970. Ingressou na Ordem dos Frades Menores, franciscanos, em 1959. Em 8 de Dezembro de 2001 foi agraciado com o premio nobel alternativo em Estocolmo (Right Livelihood Award).É autor de mais de 60 livros nas áreas de Teologia, Espiritualidade, Filosofia, Antropologia e Mística. A maioria de sua obra está traduzida nos principais idiomas modernos.