

Filosofia - Colaboradores
(coordenado Por Virgínia Fulber)
e com a colaboração de autores convidados.
"É dando que se recebe?"
Leonardo Boff
Estamos em tempos de montagem de governos. Há disputas por cargos
e funções por parte de partidos e de políticos. Ocorrem sempre negociações,
carregadas de interesses e de muita vaidade. Neste contexto, se ouve citar um
tópico da inspiradora oração de São Francisco pela paz “é dando que se recebe”
para justificar a permuta de favores e de apoios onde também rola muito
dinheiro. É uma manipulação torpe do espírito generoso e desinteressado de São
Francisco. Mas desprezemos estes desvios e vejamos seu sentido verdadeiro.
Há duas economias: a dos bens materiais e a dos bens espirituais. Elas seguem
lógicas diferentes. Na economia dos bens materiais, quanto mais você dá bens,
roupas, casas, terras e dinheiro, menos você tem. Se alguém dá sem prudência e
esbanja perdulariamente acaba na pobreza.
Na economia dos bens espirituais, ao contrario, quanto mais dá, mais recebe,
quanto mais entrega, mais tem. Quer dizer, quanto mais dá amor, dedicação e
acolhida (bens espirituais) mais ganha como pessoa e mais sobe no conceito dos
outros. Os bens espirituais são como o amor: ao se dividirem, se multiplicam. Ou
como o fogo: ao se espalharem, aumentam.
Compreendemos este paradoxo se atentarmos para a estrutura de base do ser
humano. Ele é um ser de relações ilimitadas. Quanto mais se relaciona, vale
dizer, sai de si em direção do outro, do diferente, da natureza e até de Deus,
quer dizer, quanto mais dá acolhida e amor mais se enriquece, mais se orna de
valores, mais cresce e irradia como pessoa.
Portanto, é “dando que se recebe”. Muitas vezes se recebe muito mais do que se
dá. Não é esta a experiência atestada por tantos e tantas que dão tempo,
dedicação e bens na ajuda aos flagelados da hecatombe socioambiental ocorrida
nas cidades serranas do Rio de Janeiro, no triste mês de fevereiro, quando
centenas morreram e milhares ficaram desabrigados? Este “dar” desinteressado
produz um efeito espiritual espantoso que é sentir-se mais humanizado e
enriquecido. Torna-se gente de bem, tão necessária hoje.
Quando alguém de posses, dá de seus bens materiais dentro da lógica da economia
dos bens espirituais para apoiar aos que tudo perderam e ajudá-los a refazer a
vida e a casa, experimenta a satisfação interior de estar junto de quem precisa
e pode testemunhar o que São Paulo dizia:”maior felicidade é dar que receber”(At
20,35). Esse que não é pobre, se sente espiritualmente rico.
Vigora, portanto, uma circulação entre o dar e o receber, uma verdadeira
reciprocidade. Ela representa, num sentido maior, a própria lógica do universo
como não se cansam de enfatizar biólogos e astrofísicos. Tudo, galáxias,
estrelas, planetas, seres inorgânicos e orgânicos, até as partículas
elementares, tudo se estrutura numa rede intrincadíssima de inter-retro-relações
de todos com todos. Todos co-existem, inter-existem, se ajudam mutuamente, dão
e recebem reciprocamente o que precisam para existir e co-evoluir dentro de um
sutil equilíbrio dinâmico.
Nosso drama é que não aprendemos nada da natureza. Tiramos tudo da Terra e não
lhe devolvemos nada nem tempo para descansar e se regenerar. Só recebemos e
nada damos. Esta falta de reciprocidade levou a Terra ao desequilíbrio atual.
Portanto, urge incorporar, de forma vigorosa, a economia dos bens espirituais à
economia dos bens materiais. Só assim restabeleceremos a reciprocidade do dar e
do receber. Haveria menos opulência nas mãos de poucos e os muitos pobres
sairiam da carência e poderiam sentar-se à mesa comendo e bebendo do fruto de
seu trabalho. Tem mais sentido partilhar do que acumular, reforçar o bem viver
de todos do que buscar avaramente o bem particular. Que levamos da Terra? Apenas
bens do capital espiritual. O capital material fica para trás.
O importante mesmo é dar, dar e mais uma vez dar. Só assim se recebe. E se
comprova a verdade franciscana segundo a qual ”é dando que recebe”
ininterruptamente amor, reconhecimento e perdão. Fora disso, tudo é negócio e
feira de vaidades.
Leonardo Boff é autor de A oração de São Francisco, Vozes 2010.
Leonardo Boff nasceu em Concórdia, Santa Catarina, aos 14 de dezembro de 1938. Cursou Filosofia em Curitiba-PR e Teologia em Petrópolis-RJ. Doutorou-se em Teologia e Filosofia na Universidade de Munique-Alemanha, em 1970. Ingressou na Ordem dos Frades Menores, franciscanos, em 1959. Em 8 de Dezembro de 2001 foi agraciado com o premio nobel alternativo em Estocolmo (Right Livelihood Award).É autor de mais de 60 livros nas áreas de Teologia, Espiritualidade, Filosofia, Antropologia e Mística. A maioria de sua obra está traduzida nos principais idiomas modernos.