

Filosofia - Colaboradores
(coordenado Por Virgínia Fulber)
e com a colaboração de autores convidados.
Elogio do boteco
Leonardo Boff
Em razão do meu “ciganismo intelectual”
falando em muitos lugares e ambientes sobre um sem número de temas que vão da
espiritualidade, à responsabilidade socioambiental e até sobre a possibilidade
do fim de nossa espécie, os organizadores, por deferência, costumam me convidar
para um bom restaurante da cidade. Lógico, guardo a boa tradição franciscana e
celebro os pratos com comentários laudatórios. Mas me sobra sempre pequeno
amargor na boca, impedindo que o comer seja uma celebração. Lembro que a maioria
das pessoas amigas não podem desfrutar destas comidas e especialmente os
milhões e milhões de famintos do mundo. Parece-me que lhes estou roubando a
comida da boca. Como celebrar a generosidade dos amigos e da Mãe Terra, se, nas
palavras de Gandhi,”a fome é um insulto e a forma de violência mais assassina
que existe?”
É neste contexto que me vem à mente como consolo os botecos. Gosto de
freqüentá-los, pois aí posso comer sem má consciência. Eles se encontram em todo
mundo, também nas comunidades pobres nas quais, por anos, trabalhei. Ai se vive
uma real democracia: o boteco ou o pé sujo (o boteco de pessoas com menos poder
aquisitivo) acolhe todo mundo. Pode-se encontrar lá tomando seu chope um
professor universitário ao lado de um peão da construção civil, um ator de
teatro na mesa com um malandro, até com um bêbado tomando seu traguinho. É só
chegar, ir sentando e logo gritar: “me traga um chope estupidamente gelado”.
O boteco é mais que seu visual, com azulejos de cores fortes, com o santo
protetor na parede, geralmente um Santo Antônio com o Menino Jesus, o símbolo do
time de estimação e as propagandas coloridas de bebidas. O boteco é um estado de
espírito, o lugar do encontro com os amigos e os vizinhos, da conversa fiada, da
discussão sobre o último jogo de futebol, dos comentários da novela preferida,
da crítica aos políticos e dos palavrões bem merecidos contra os corruptos.
Todos logo se enturmam num espírito comunitário em estado nascente. Aqui ninguém
é rico ou pobre. É simplesmente gente que se expressa como gente, usando a gíria
popular. Há muito humor, piadas e bravatas. Às vezes, como em Minas, se
improvisa até uma cantoria que alguém acompanha ao violão.
Ninguém repara nas condições gerais do balcão ou das mesinhas. O importante é
que o copo esteja bem lavado e sem gordura senão estraga o colarinho cremoso do
chope que deve ter uns três dedos. Ninguém se incomoda com o chão e o estado do
banheiro.
Os nomes dos botecos são os mais diversos, dependendo da região do pais. Pode
ser a Adega da Velha, o Bar do Sacha, o boteco do Seo Gomes, o Bar do Giba, o
Botequim do Jóia, o Pavão Azul, a Confraria do Bode Cheiroso, a Casa Cheia e
outros. Belo Horizonte é a cidade que mais botecos possui, realizando até, cada
ano, um concurso da melhor comida de boteco.
Os pratos também são variados, geralmente, elaborados a partir de receitas
caseiras e regionais: a carne de sol do Nordeste, a carne de porco e o tutu de
Minas. Os nomes são ingeniosos:” mexidoido chapado”, “porconóbis de sabugosa”,
“costela de Adão” (costelinha de porco com mandioca), “torresminho de barriga”.
Há um prato que aprecio sobremaneira, oferecido no Mercado Central de Belo
Horizonte e que foi premiado num dos concursos:”bife de fígado acebolado com
jiló”. Se depender de mim, este prato deverá constar no menu do banquete do
Reino dos céus que o Pai celeste vai oferecer aos benaventurados.
Se bem repararmos, o boteco desempenha uma função cidadã: dá aos freqüentadores
especialmente aos mais assíduos, o sentimento de pertença à cidade ou ao bairro.
Não havendo outros lugares de entretenimento e de lazer, permite que as pessoas
se encontrem, esqueçam seu status social e vivam uma igualdade, geralmente,
negada no cotidiano.
Para mim o boteco é uma metáfora da comensalidade sonhada por Jesus, lugar onde
todos podem sentar à mesa e celebrar o convívio fraterno e fazer do comer, uma
comunhão. E para mim, é o lugar onde posso comer sem má consciência.
Dedico este texto ao cartunista e amigo Jaguar que aprecia botecos.
Leonardo Boff nasceu em Concórdia, Santa Catarina, aos 14 de dezembro de 1938. Cursou Filosofia em Curitiba-PR e Teologia em Petrópolis-RJ. Doutorou-se em Teologia e Filosofia na Universidade de Munique-Alemanha, em 1970. Ingressou na Ordem dos Frades Menores, franciscanos, em 1959. Em 8 de Dezembro de 2001 foi agraciado com o premio nobel alternativo em Estocolmo (Right Livelihood Award).É autor de mais de 60 livros nas áreas de Teologia, Espiritualidade, Filosofia, Antropologia e Mística. A maioria de sua obra está traduzida nos principais idiomas modernos.