

Filosofia - Colaboradores
(coordenado Por Virgínia Fulber)
e com a colaboração de autores convidados.
Modo diferente de
falar do amor
Leonardo Boff
Frequentemente sou convidado para falar sobre o amor. Sinto certo
constrangimento porque esta palavra – amor - é uma das mais desgastadas de nossa
linguagem. E como fenômeno inter-pessoal, um dos mais desmoralizados. Para não
repetir aquilo que todo mundo já sabe e ouve, costumo fazer uma abordagem
inspirado num dos maiores biólogos contemporâneos: o chileno Humberto Maturana.
Em suas reflexões o amor é contemplado como um fenômeno cósmico e biológico.
Expliquemos o que ele quer dizer: o amor se dá dentro do dinamismo da própria
evolução desde as suas manifestações mais primárias, de bilhões e bilhões de
anos atrás, até as mais complexas no nível humano. Vejamos como o amor entra no
universo.
No universo se verificam dois tipos de acoplamentos (encaixes) dos seres com
seu meio, um necessário e outro espontâneo. O primeiro, o necessário, faz com
que todos os seres estejam interconectados uns aos outros e acoplados aos
respectivos ecosistemas para assegurar sua sobrevivência. Mas há um outro
acoplamento que se realiza espontaneamente. Os topquarks, a primeira
densificação da energia em matéria, interagem sem razões de sobrevivência, por
puro prazer, no fluir de seu viver. Trata-se de encaixes dinâmicos e recíprocos
entre todos os seres, não vivos e vivos. Não há justificativas para isso.
Acontecem porque acontecem. É um evento original da existência em sua pura
gratuidade. É como a flor que floresce por florescer.
Quando um se relaciona com o outro (digamos dois prótons) e assim se cria um
campo de relação, surge o amor como fenômeno cósmico. Ele tende a se expandir e
a ganhar formas cada vez mais inter-retro-relacionadas nos seres vivos,
especialmente nos humanos. No nosso nível é mais que simplesmente espontâneo
como nos demais seres; é feito projeto da liberdade que acolhe conscientemente o
outro e cria o amor como o mais alto valor da vida.
Nessa deriva, surge o amor ampliado que é a socialização. O amor-relação é o
fundamento do fenômeno social e não sua consequência. Em outras palavras: é o
amor-relação que dá origem à sociedade; esta existe porque existe o amor e não
ao contrário, como convencionalmente se acredita. Se falta o amor-relação (o
fundamento) se destrói o social. Sem o amor o social ganha a forma de agregação
forçada, de dominação e de violência, todos sendo obrigados a se encaixar. Por
isso sempre que se destrói o encaixe e a congruência entre os seres, se destrói
o amor-relação e com isso, a sociabilidade. O amor-relação é sempre uma
abertura ao outro e uma con-vivência e co-munhão com o outro.
Não foi a luta pela sobrevivência do mais forte que garantiu a persistência da
vida e dos indivíduos até os dias atuais. Mas a cooperação e o amor-relação
entre eles. Os ancestrais hominídios passaram a ser humanos na medida em que
mais e mais partilhavam entre si os resultados da coleta e da caça e
compartilhavam seus afetos. A própria linguagem que caracteriza o ser humano
surgiu no interior deste dinamismo de amor-relação e de partilha.
A competição, enfatiza Maturana, é anti-social, hoje e outrora, porque implica
a negação do outro, a recusa da partilha e do amor. A sociedade moderna
neoliberal e de mercado se assenta sobre a competição. Por isso é excludente,
inumana e faz tantas vítimas como a atual crise revelou. Ela não traz
felicidade porque não se rege pelo amor-relação. A atual crise se originou, em
parte, pela excessiva competição e pela falta de cooperação. Vale uma sociedade
com mercado mas não só de mercado.
Como se caracteriza o amor humano? Responde Maturana: “o que é especialmente
humano no amor não é o amor, mas o que fazemos com o amor enquanto humanos; é a
nossa maneira particular de viver juntos como seres sociais na linguagem; sem
amor nós não somos seres sociais”.
Como se depreende, o amor é um fenômeno cósmico e biológico. Ao chegar ao
patamar humano ele se revela como um projeto da liberdade, como uma grande força
de união, de mutua entrega e de solidariedade. As pessoas se unem e recriam pela
linguagem amorosa, o sentimento de benquerença e de pertença a um mesmo destino.
Sem o cuidado essencial, o encaixe do amor-relação não ocorre, não se conserva,
não se expande nem permite a consorciação entre os demais seres. Sem o cuidado
não há atmosfera que propicie o florescimento daquilo que verdadeiramente
humaniza: o sentimento profundo, a vontade de partilha e a busca do amor.
Estimo que falar assim do amor faz sentido porque nos faz mais humanos.
Leonardo Boff é autor de Graça e experiência humana, Vozes.
Leonardo Boff nasceu em Concórdia, Santa Catarina, aos 14 de dezembro de 1938. Cursou Filosofia em Curitiba-PR e Teologia em Petrópolis-RJ. Doutorou-se em Teologia e Filosofia na Universidade de Munique-Alemanha, em 1970. Ingressou na Ordem dos Frades Menores, franciscanos, em 1959. Em 8 de Dezembro de 2001 foi agraciado com o premio nobel alternativo em Estocolmo (Right Livelihood Award).É autor de mais de 60 livros nas áreas de Teologia, Espiritualidade, Filosofia, Antropologia e Mística. A maioria de sua obra está traduzida nos principais idiomas modernos.