

Filosofia - Colaboradores
(coordenado Por Virgínia Fulber)
e com a colaboração de autores convidados.
O
antropoceno: uma nova era geológica
Leonardo Boff
As crises clássicas conhecidas, como por exemplo a de 1929,
afetaram profundamente todas as sociedades. A crise atual é mais radical, pois
está atacando o nosso modus essendi: as bases da vida e de nossa
civilização. Antes, dava-se por descontado que a Terra estava aí, intacta e com
recursos inesgotáveis. Agora não podemos mais contar com a Terra sã e abundante
em recursos. Ela é finita, degradada e com febre não suportando mais um projeto
infinito de progresso.
A presente crise desnuda a enganosa compreensão dominante da história, da
natureza e da Terra. Ela colocava o ser humano fora e acima da natureza com a
excepcionalidade de sua missão, a de dominá-la. Perdemos a noção de todos os
povos originários de que pertencemos à natureza. Hoje diríamos, somos parte do
sistema solar, de nossa galáxia que, por sua vez, é parte do universo. Todos
surgimos ao longo de um imenso processo evolucionário. Tudo é alimentado pela
energia de fundo e pelas quatro interações que sempre atuam juntas: a
gravitacional, a eletromagnética e a nuclear fraca e forte. A vida e a
consciência são emergências desse processo. Nós humanos, representamos a parte
consciente e inteligente da Via-Láctea e da própria Terra, com a missão, não de
dominá-la mas de cuidar dela para manter as condições ecológicas que nos
permitem levar avante nossa vida e a civilização.
Ora, estas condições estão sendo minadas pelo atual processo produtivista e
consumista. Já não se trata de salvar nosso bem estar, mas a vida humana e a
civilização. Se não moderarmos nossa voracidade e não entrarmos em sinergia com
a natureza dificilmente sairemos da atual situação. Ou substituímos estas
premissas equivocadas por melhores ou corremos o risco de nos autodestruir.A
consciência do risco não é ainda coletiva.
Importa reconhecer um dado do processo evolucionário que nos perturba: junto com
grande harmonia, coexiste também extrema violência A Terra mesma no seu percurso
de 4,5 bilhões de anos, passou por várias devastações. Em algumas delas perdeu
quase 90% de seu capital biótico. Mas a vida sempre se manteve e se refez com
renovado vigor.
A última grande dizimação, um verdadeiro Armagedon ambiental, ocorreu há 67
milhões de anos, quando no Caribe, próximo a Yucatán no México, caiu um meteoro
de quase 10 km de extensão. Produziu um tsunami com ondas do tamanho de altos
edifícios. Ocasionou um tremor que afetou todo o planeta, ativando a maioria dos
vulcões. Uma imensa nuvem de poeira e de gases foi ejetada ao céu, alterando,
por dezenas de anos, todo o clima da Terra. Os dinossauros que por mais de cem
milhões de anos reinavam, soberanos, por sobre toda a Terra, desapareceram
totalmente. Chegava ao fim a Era Mesozóica, dos répteis e começava a Era
Cenozóica, dos mamíferos. Como que se vingando, a Terra produziu uma floração de
vida como nunca antes. Nossos ancestrais primatas surgiram por esta época. Somos
do gênero dos mamíferos .
Mas eis que nos últimos trezentos anos o homo sapiens/demens montou uma
investida poderosíssima sobre todas as comunidades ecossistêmicas do planeta,
explorando-as e canalizando grande parte do produto terrestre bruto para os
sistemas humanos de consumo. A conseqüência equivale a uma dizimação como
outrora. O biólogo E. Wilson fala que a “humanidade é a primeira espécie na
história da vida na Terra a se tornar numa força geofísica” destruidora. A taxa
de extinção de espécies produzidas pela atividade humana é cinquenta vezes maior
do que aquela anterior à intervenção humana. Com a atual aceleração, dentro de
pouco – continua Wilson – podemos alcançar a cifra de mil até dez mil vezes
mais espécies exterminadas pelo voraz processo consumista. O caos climático
atual é um dos efeitos.
O prêmio Nobel de Química de 1995, o holandês Paul J. Crutzen, aterrorizado pela
magnitude do atual ecocídio, afirmou que inauguramos uma nova era geológica: o
antropoceno. É a idade das grandes dizimações perpetradas pela
irracionalidade do ser humano (em grego ántropos). Assim termina tristemente a
aventura de 66 milhões de anos de história da Era Cenozóica. Começa o tempo da
obscuridade.
Para onde nos conduz o antropoceno? Cabe refletir seriamente.
Leonardo Boff nasceu em Concórdia, Santa Catarina, aos 14 de dezembro de 1938. Cursou Filosofia em Curitiba-PR e Teologia em Petrópolis-RJ. Doutorou-se em Teologia e Filosofia na Universidade de Munique-Alemanha, em 1970. Ingressou na Ordem dos Frades Menores, franciscanos, em 1959. Em 8 de Dezembro de 2001 foi agraciado com o premio nobel alternativo em Estocolmo (Right Livelihood Award).É autor de mais de 60 livros nas áreas de Teologia, Espiritualidade, Filosofia, Antropologia e Mística. A maioria de sua obra está traduzida nos principais idiomas modernos.