

Filosofia - Colaboradores
(coordenado Por Virgínia Fulber)
e com a colaboração de autores convidados.
Sustentabilidade: adjetivo ou substantivo?
Leonardo Boff
É de bom tom hoje falar de
sustentabilidade. Ela serve de etiqueta de garantia de que a empresa, ao
produzir, está respeitando o meio ambiente. Atrás desta palavra se escondem
algumas verdades mas também muitos engodos. De modo geral, ela é usada como
adjetivo e não como substantivo.
Explico-me: como adjetivo é agregada a qualquer coisa sem mudar a
natureza da coisa. Exemplo: posso diminuir a poluição química de uma fábrica,
colocando filtros melhores em suas chaminés que vomitam gases. Mas a maneira
com que a empresa se relaciona com a natureza donde tira os materiais para a
produção, não muda; ela continua devastando; a preocupação não é com o meio
ambiente mas com o lucro e com a competição que tem que ser garantida. Portanto,
a sustentabilidade é apenas de acomodação e não de mudança; é adjetiva, não
substantiva.
Sustentabilidade como substantivo exige uma mudança de relação para com a
natureza, a vida e a Terra. A primeira mudança começa com outra visão da
realidade. A Terra está viva e nós somos sua porção consciente e inteligente.
Não estamos fora e acima dela como quem domina, mas dentro como quem cuida,
aproveitando de seus bens mas respeitando seus limites. Há interação entre ser
humano e natureza. Se poluo o ar, acabo adoecendo e reforço o efeito estufa
donde se deriva o aquecimento global. Se recupero a mata ciliar do rio,
preservo as águas, aumento seu volume e melhoro minha qualidade de vida, dos
pássaros e dos insetos que polinizam as ávores frutíferas e as flores do
jardim.
Sustentabilidade como substantivo acontece quando nos fazemos responsáveis pela
preservação da vitalidade e da integridade dos ecossistemas. Devido à abusiva
exploração de seus bens e serviços, tocamos nos limites da Terra. Ela não
consegue, na ordem de 30%, recompor o que lhe foi tirado e roubado. A Terra está
ficando, cada vez mais pobre: de florestas, de águas, de solos férteis, de ar
limpo e de biodiversidade. E o que é mais grave: mais empobrecida de gente com
solidariedade, com compaixão, com respeito, com cuidado e com amor para com os
diferentes. Quando isso vai parar?
A sustentabilidade como substantivo é alcançada no dia em que mudarmos nossa
maneira de habitar a Terra, nossa Grande Mãe, de produzir, de distribuir, de
consumir e de tratar os dejetos. Nosso sistema de vida está morrendo, sem
capacidade de resolver os problemas que criou. Pior, ele nos está matando e
ameaçando todo o sistema de vida.
Temos que reinventar um novo modo de estar no mundo com os outros, com a
natureza, com a Terra e com a Última Realidade. Aprender a ser mais com menos e
a satisfazer nossas necessidades com sentido de solidariedade para com os
milhões que passam fome e com o futuro de nossos filhos e netos. Ou mudamos, ou
vamos ao encontro de previsíveis tragédias ecológicas e humanitárias.
Quando aqueles que controlam as finanças e os destinos dos povos se reunem,
nunca é para discutir o futuro da vida humana e a preservação da Terra. Eles se
encontram para tratar de dinheiros, de como salvar o sistema financeiro e
especulativo, de como garantir as taxas de juros e os lucros dos bancos. Se
falam de aquecimento global e de mudanças climáticas é quase sempre nesta ótica:
quanto posso perder com estes fenômenos? Ou então, como posso ganhar comprando
ou vendendo bonus de carbono (compro de outros paises licença para continuar a
poluir)? A sustentabilidade de que falam não é nem adjetiva, nem substantiva. É
pura retórica. Esquecem que a Terra pode viver sem nós, como viveu por bilhões
de anos. Nós não podemos viver sem ela.
Não nos iludamos: as empresas, em sua grande maioria, só assumem a
responsabilidade socio-ambiental na medida em que os ganhos não sejam
prejudicados e a competição não seja ameaçada. Portanto, nada de mudanças de
rumo, de relação diferente para com a natureza, nada de valores éticos e
espirituais. Como disse muito bem o ecólogo social uruguaio E. Gudynas: “a
tarefa não é pensar em desenvolvimento alternativo mas em alternativas de
desenvolvimento”.
Chegamos a um ponto em que não temos outra saída senão fazer uma revolução
paradigmática, senão seremos vítimas da lógica férrea do Capital que nos poderá
levar a um fenomenal impasse civilizatório.
Leonardo-Boff
Teólogo/Filósofo – junho 011
Leonardo Boff nasceu em Concórdia, Santa Catarina, aos 14 de dezembro de 1938. Cursou Filosofia em Curitiba-PR e Teologia em Petrópolis-RJ. Doutorou-se em Teologia e Filosofia na Universidade de Munique-Alemanha, em 1970. Ingressou na Ordem dos Frades Menores, franciscanos, em 1959. Em 8 de Dezembro de 2001 foi agraciado com o premio nobel alternativo em Estocolmo (Right Livelihood Award).É autor de mais de 60 livros nas áreas de Teologia, Espiritualidade, Filosofia, Antropologia e Mística. A maioria de sua obra está traduzida nos principais idiomas modernos.