Filosofia - Colaboradores
(coordenado Por Virgínia Fulber)
e com a colaboração de autores convidados.

Filosofia Clínica  Introdução - Interseção & Historicidade
Márcio José Andrade da Silva

 Interseção

     Tudo em clínica é a resultante da qualidade da Interseção entre o filósofo e a pessoa. Contudo não é apenas num atendimento que haveria interseção, ela ocorre no nosso dia a dia. E é fácil perceber se a interseção é positiva, negativa, indeterminada ou confusa. Por exemplo, uma interseção positiva é aquele que é subjetivamente aprazível às pessoas envolvidas. Ou as pessoas podem estar vivendo subjetivamente mal a relação, esta seria uma interseção negativa, uma interseção ruim, desagradável, conflitante às pessoas, mas que por mil razões elas resolveram não romper esta interseção, como um casal que pode estar vivendo uma relação difícil, subjetivamente desagradável para ambos, mas optaram por conviver até que seus filhos possam viver por conta própria. Na interseção confusa não é possível identificar se as pessoas estão existencialmente bem ou mal subjetivamente em relação à outra pessoa. E na interseção indeterminada a pessoa praticamente possui uma polaridade em relação à outra pessoa, se sente bem e não se sente bem subjetivamente. Mas, é através da interseção que iremos perceber que “existe um ponto de frágil equilíbrio nas relações entre as pessoas. Alianças para aproximação com o extraordinário da condição humana. Pelas rotas de acesso, a representação de cada um, vastos e inexplorados continentes podem mostrar-se.” (STRASSBURGER). Onde cada pessoa é um conjunto composto de elementos (conhecimento, cultura, emoções, componentes genéticos etc.). Assim também é outra pessoa com que se estabelece a interseção, e talvez, através destes elementos tornem a interseção possível. Toda a clínica está na dependência direta da interseção. Pode ter-se o domínio perfeito do conhecimento e da prática da Filosofia Clínica, mas tudo isso não será útil se a qualidade de interseção for ruim à atividade clínica. “Quando me referir à boa qualidade de interseção estarei me referindo à empatia, sintonia, harmonia, amizade, interesse mútuo em proveito de uma causa, basicamente.” (PACKTER). Assim, podemos definir a filosofia clínica como um procedimento terapêutico aplicado a uma relação particular, estabelecida entre o filósofo clínico e o partilhante.

Historicidade

A parte essencial para o trabalho com a Filosofia Clínica denomina-se Historicidade – a história de vida do partilhante, contada por ele mesmo – que é analisada em três partes distintas, mas interligadas: Exames Categoriais, Estrutura de Pensamento e Submodos.

Na Historicidade, propriamente dita, o filósofo clínico irá colher o relato de vida da pessoa que o procura. Esse relato, para efeito da terapia terá de ser realizado de forma cronológica e sem saltos lógicos, ou seja, evitando-se que a pessoa fique contando sua vida de forma que os anos fiquem embaralhados de forma desordenada, e também evita-se que o relato seja de forma incompleta no assunto tratado. Assim para possamos compreender e nos aproximar o máximo possível da verdade do indivíduo, faz-se necessário “reconstruí-lo a partir da historicidade que o constitui e isto nos leva a refletir sobre as origens ‘deste’ pensamento e seu conteúdo. Nosso pensar obedece a razões históricas e estas modelam o presente: nossos sistemas de pensamento não são independentes de sua história e cultura, estão imbricados nestas.” (PARDAL). O filósofo clínico terá uma espécie de autobiografia da pessoa, e é a partir desse ponto que o trabalho realiza-se. Sempre levando em conta que tudo o que foi relatado é “assim para ela”. Pode ser uma biografia incompleta, com negações do passado, etc. Como poderá o filósofo clínico saber? À priori ele nada sabe. Por isso evita-se, em um primeiro momento da clínica encher a pessoa de perguntas, por dois motivos básicos, o primeiro você pode desvirtuar o relato da pessoa. Perguntar sobre questões que não foram abordadas por ela pode, muitas vezes ocorrerá isso, desviar da história da pessoa como ela compreende, transformando-se em uma história que servirá para responder ao terapeuta. O filósofo tentar forçar uma intervenção pode causar uma “carnificina existencial” na pessoa. Nada sabemos da pessoa que está à nossa frente. Uma das poucas certezas que temos é a de saber que devemos apenas negociar uma possibilidade de diálogo, seja através da própria conversa, ou fotografias ordenadas cronologicamente e comentadas pela pessoa, ou outra forma de expressão que essa pessoa possua. Muitas vezes é o único caminho que o filósofo tem.

Márcio José Andrade da Silva -INSTITUTO PACKTER – RS
Centro de Filosofia Clínica – Campinas/SP –
CEFIB – Centro de Filosofia Brasileira – UFRJ
CEUCLAR – Centro Universitário Claretiano – Campinas/SP-


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